Soldado Anônimo

23/05/2006 | Categoria: Críticas

Drama de guerra de Sam Mendes procura captar como o tédio e a solidão afetam os militares em guerra

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Uma das cenas de “Soldado Anônimo” (Jarhead, EUA, 2005) mostra os fuzileiros navais norte-americanos durante uma pausa do pesado treinamento a que são submetidos. Elas assistem ao clássico de guerra “Apocalypse Now” (1979) em um cinema improvisado dentro do quartel. A cena é o famoso ataque de helicópteros a uma aldeia vietnamita, ao som de Richard Wagner. Ela é recebida pela platéia de jovens soldados com urros de gozo e satisfação. A catarse coletiva é tão violenta que os militares não se agüentam sentados, como faria um espectador comum; eles pulam, se abraçam, correm pela sala gritando. Até que a sessão é interrompiada para que uma voz no alto-falante anuncie que eles estão sendo enviados para a primeira Guerra do Golfo. A ação do filme ocorre em 1991.

Esse é o tipo de cena que dispara uma série de reflexões que interessam a quem deseja ver “Soldado Anônimo”. Um tema importante é o gozo da violência por parte do público (no caso, os soldados do filme de Sam Mendes). Por que eles reagem com alegria tão intensa ao ver, na tela, seres humanos sendo mortos como moscas? A situação fica mais complexa quando se sabe que a reação histérica dos pracinhas não é muito diferente da sua, espectador, quando você vê o mocinho arrebentar o bandido, em um filme qualquer de Hollywood. Vista por esse ângulo, a seqüência documenta corretamente a maneira agressiva, excitada, como a audiência se relaciona com imagens violentas, nos dias de hoje. No cinema, em particular, a morte é algo tão natural quanto beber um copo de água. E muitas vezes o derramamento de sangue é celebrado.

Outra maneira de analisar a cena é discutindo a progressão dramática da história. O filme se propõe a narrar a experiência militar de um soldado fuleiro, no caso o fuzileiro Anthony Swofford (Jake Gyllenhaal). Swoff, como os amigos de caserna o chamam, se alistou por não ter outra perspectiva profissional. Sua família tem vínculos militares, e ele gosta da idéia de lutar por uma pátria. Mas o que Swoff realmente quer é trocar o treinamento burocrático, enfadonho, por uma experiência vívida de guerra. E em que momento o cineasta Sam Mendes resolveu comunicar ao seu protagonista que ele vai para o front? Exatamente o momento em que ele assiste a “Apocalypse Now”. Mais ainda: no justo instante em que os entediados militares do filme de Coppola fazem aquilo que ele tanto deseja, que é partir para a batalha.

O paralelo entre o filme (“Soldado Anônimo”) e o filme dentro do filme (“Apocalypse Now”) é óbvio. Mas um espectador desavisado corre o risco de entender errado a mensagem. Sim, Sam Mendes parece telegrafar o recado à platéia com insistência, para que não haja nenhum risco de algum espectador desatento perder o passo: Swoff vai para a guerra. O tédio vai acabar. A rotina de permanecer treinando tiro e limpando latrinas por dias a fio está no fim. Pelo menos é o que Swoff pensa, e nós também. A guerra, supostamente, é sinônimo de caos, excitação, sangue, fogo, emoções fortes. Mas se você viu o épico de Coppola sobre o Vietnã, sabe que o balé de destruição impulsionado pela “Cavalgada das Valquírias” nada mais é do que uma manifestação radical de como o tédio, e a experiência da guerra, afetam o julgamento e distorcem a visão das pessoas envolvidas nessa situação-limite.

Em “Apocalypse Now”, o coronel interpretado por Robert Duvall destrói a aldeia vietnamita não por necessidade estratégica, mas por puro… tédio. A ação violenta que elimina dezenas de vidas humanas acontece apenas porque o militar quer quebrar a rotina e surfar nas ondas perfeitas que banham a aldeia em questão; para deslizar sobre o mar, porém, ele precisava antes “limpar o terreno”. Está aí a verdadeira ligação entre “Soldado Anônimo” e a seqüência roubada do clássico de Coppola: ambas desejam examinar como a experiência-limite da guerra, e em particular o tédio e a solidão da rotina militar, afetam a consciência de uma pessoa comum. Esse é o tema do terceiro longa-metragem de Sam Mendes, diretor vencedor do Oscar por “Beleza Americana”.

De certo modo, “Soldado Anônimo” atesta, mais uma vez, que o formato clássico do drama de guerra, uma instituição cinematográfica tipicamente norte-americana, está esgotado. De uns tempos para cá, mostrar batalhas entre “bons” e “maus”, ainda que de forma extremamente realista, não é mais suficiente. Tudo o que poderia ser mostrado pelo cinema, nesse gênero, já o foi. Dessa forma, os filmes de guerra se voltaram para o indivíduo, explorando de diferentes ângulos as maneiras como a experiência do front causam danos psicológicos nos indivíduos. “Soldado Anônimo” mostra o modo como a guerra, ainda que não vivida diretamente, é capaz de quebrar, aos poucos, as defesas internas de alguém.

Há um grande problema no filme: o estilo de narrativa escolhido pelo diretor não consegue, nem de longe, fazer o espectador se colocar na posição do protagonista. Não sentimos em nenhum momento o que Swoff sente. Ele é enviado para a Arábia Saudita, onde vai passar vários meses em um acampamento no meio do deserto, protegendo os poços de petróleo do país amigo e esperando ordens que parecem nunca vir. Ele convive com a fauna típica da vida militar, clichês de personagens que você já viu em outros filmes de guerra: o amigo de passado obscuro (Peter Sarsgaard), o sargento linha-dura (Jamie Foxx), o magricela intelectual (Brian Geraghty). Há brancos, negros e latinos no pelotão de Swoff. Mendes foi tão politicamente correto que não esqueceu nem de colocar representantes caipiras no grupo.

Aos poucos, a falta de comunicação com a família e a namorada, o sol abrasador do deserto e o cotidiano rotineiro deixam Swoff em estado de tédio absoluto, mais ainda do que nos quartéis. Além disso, o miliar vive em estado de tensão constante, pois afinal de contas está longe de casa e em território inimigo. A situação vai, sorrateiramente, deixando o soldado paranóico. Sam Mendes, porém, sempre dá um jeito para que o público não compartilhe desse cotidiano sufocante. O filme não é sombrio ou claustrofóbico. A narrativa é ágil, tem toques de comédia, com muita música pop, e inclui uma narração em off repleta de frases curtas que parecem retiradas de comerciais de TV.

Na tentativa de fazer um filme para grandes platéias, Mendes foi conservador: filmou a guerra quase que como diversão, como entretenimento. As belas imagens do fotógrafo craque Roger Deakins não funcionam em “Soldado Anônimo”, porque deixam o resultado final estilizado em excesso, muito distante da realidade. As tomadas subjetivas em que a câmera é colocada dentro de uma máscara de gás e as belas paisagens do deserto iraquiano (inclusive um pôr-do-sol que não faria feito em uma praia de Bali) deixam tudo com cara de clipe publicitário. Não se surpreenda se sentir vontade de dar um pulo no Iraque nas próximas férias.

Embora tenha pontos positivos aqui e ali – o elenco todo funciona bem, e há uma seqüência em particular que impressiona pela textura onírica, e que ocorre ao som da fantasmagórica canção “Something In The Way”, do Nirvana –, “Soldado Anônimo” falha ao retratar o inferno pessoal de um militar de baixa patente com um verniz de glamour absolutamente inadequado ao tema. Se a intenção do diretor de “Beleza Americana” era retratar o tédio e a solidão da vida na caserna, deveria ter perseguido um registro mais banal, mais angustiante. Em resumo, o filme teria que pôr o espectador num estado de imobilismo forçado semelhante ao do protagonista, para criar alguma ressonância emocional.

De fato, o excesso de “maquiagem”, concretizado pela narrativa ágil e pelas imagens estilizadas, parece ser um defeito que o diretor, premiado com o Oscar logo na estréia em cinema, ainda não conseguiu superar, já que suas duas obras anteriores padecem do mesmo mal. Vindo do teatro e com uma carreira ainda muito curta como cineasta, Mendes talvez precise de maturidade para deixar para trás cacoetes estéticos e mergulhar de vez em um cinema mais duro, mais realista, menos espetacular. Talento para isso ele tem, como mostra a citação a “Apocalypse Now”.

O DVD nacional é simples. O filme está com boa qualidade, incluindo imagem no formato original (wide anamórfico) e ótimo som (Dolby Digital 5.1). Entre os extras, uma galeria de cenas excluídas, entrevista com o diretor Sam Mendes e dois featurettes de bastidores.

– Soldado Anônimo (Jarhead, EUA, 2005)
Direção: Sam Mendes
Elenco: Jake Gyllenhaal, Peter Sarsgaard, Jamie Foxx, Scott MacDonald
Duração: 123 minutos

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