Sombra de uma Dúvida, A

23/12/2008 | Categoria: Críticas

Título favorito do diretor, longa é citado muitas vezes como um Hitchcock menor – uma classificação no mínimo questionável

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

A grande fase de Alfred Hitchcock, todos concordam, aconteceu entre meados dos anos 1950 e o começo dos anos 1960. Durante quase uma década, o mestre do suspense enfileirou uma série inigualável de clássicos incontestáveis. “Janela Indiscreta”, “Um Corpo que Cai”, “Psicose”, “Os Pássaros” e “Intriga Internacional” são todos dessa época. Por isso, é natural que a obra anterior do cineasta inglês chame menos a atenção do público, embora inclua outro tanto de filmes perfeitos. “A Sombra de uma Dúvida” (Shadow of a Doubt, EUA, 1943) é um desses títulos citados, muitas vezes, como um Hitchcock menor – uma classificação no mínimo questionável.

O próprio Hitchcock nutria carinho especial pelo longa-metragem, o primeiro em que se sentiu definitivamente à vontade filmando nos Estados Unidos. No lendário livro-entrevista que concedeu a François Truffaut, ele não hesitou em apontar “A Sombra de uma Dúvida” como o filme favorito entre todos que dirigiu. Outros mestres da narrativa concisa, como David Mamet, compartilham dessa opinião. É fácil colocá-la em crise quando se põe a obra lado a lado com as obras-primas incontestáveis que Hitchcock dirigiu, mas também não é difícil perceber os motivos que o levaram a colocar este título em particular acima dos demais.

Com “A Sombra de uma Dúvida”, o cineasta inglês provou a si mesmo (e ao produtor David O. Selznick) que podia se adaptar em definitivo a Hollywood. Além disso, uma análise cuidadosa demonstra claramente o nível absurdamente alto de domínio da narrativa que Hitchcock detinha. Trata-se de um filme perfeito, de ritmo impecável, em que cada cena está no lugar certo e tem uma razão clara e cristalina para existir. O senso de colocação de câmera é, como de hábito, absolutamente irretocável. De quebra, temos uma trilha sonora inspirada do russo Dmitri Tiomkin, um dos principais compositores da época, que criou um brilhante leitmotiv (tema associado a um personagem em particular) para o assassino em série que movimenta a trama.

Charlie (Joseph Cotten, co-estrela de “Cidadão Kane”) é um serial killer charmoso, que ganha a vida casando com e assassinando viúvas ricas. Ele vem sendo perseguido pelo país inteiro por uma dupla de policiais, e como último recurso decide se refugiar na casa da irmã mais velha (Patricia Collinge). A mulher mora numa cidadezinha pacata, na costa oeste, onde nada acontece. É lá que vive a Pequena Charlie (Thereza Wright), adolescente entediada que adora o tio bonitão. Todo o filme é narrado do ponto de vista da garota, que vai da euforia por rever o tio à angústia, quando começa a suspeitar dos atos sangrentos que ele pode ter cometido.

A genial trilha sonora, na verdade, é construída em cima de uma piada de humor negro que acaba por escapar a muita gente. Ao longo do filme, Tiomkin repete pequenas variações de uma conhecida valsa (“Merry Widow Waltz”, ou “Valsa da Viúva Alegre”) sempre que Charlie está em cena – no mundo ficcional, o próprio personagem se arrepia todo quando ouve a canção. O uso criativo e inovador do som também acontece em uma cena crucial, perto do fim, quando Hitchcock registra um dos primeiros usos do silêncio absoluto para registrar, em um toque de subjetividade inspirado, a gravidade de uma notícia recebida pelo assassino – é quando ele percebe que precisa tomar uma decisão imediata, do contrário seus dias estarão contados.

Na verdade, o elaborado trabalho de movimentação da câmera é tão bem feito que a narrativa parece se desenrolar sozinha, sem que seja necessário qualquer esforço por parte do diretor para contar a história. Claro que não é bem assim. Tome como exemplo a cena do jantar em que Charlie elabora um macabro monólogo sobre as odiosas viúvas fúteis das cidades grandes. O personagem solta os impropérios com o olhar vidrado de quem está pensando alto, enquanto a câmera vai se aproximando do rosto dele, até parar em um dramático close up – o plano mais fechado do rosto de Charlie que vemos em todo o filme.

Um diretor desatento teria decupado esta cena da forma tradicional, entrecortando o monólogo com planos de reação que mostrassem os demais personagens escutando, na mesa de jantar. Ao evitar os cortes, porém, Hitchcock valoriza a subjetividade daquele momento e adota o ponto de vista da sobrinha do matador, comunicando claramente a platéia que a adolescente está se dando conta, naquele exato momento, de que o tio é mesmo um assassino serial. Mais tarde, quando ela vai à biblioteca e obtém a prova definitiva, a câmera faz o movimento inverso, subindo e se afastando, para expressar a sensação de desamparo e isolamento que a Pequena Charlie passa a experimentar dali em diante. Ela está sozinha, e não pode contar com mais ninguém. Como se não fosse suficiente, Hitchcock ainda pontua todo o filme com uma subtrama de humor negro, na qual o pai da garota e um vizinho se divertem, bolando maneiras inovadoras de assassinarem uma pessoa. Brilhante, nada menos.

O DVD da Universal, apesar de simples, é bem caprichado. O filme aparece com boa qualidade de imagem (standard 1.33:1) e áudio (Dolby Digital 2.0), além de documentário retrospectivo (40 minutos), trailer e galeria de fotos, com legendas em português.

– A Sombra de uma Dúvida (Shadow of a Doubt, EUA, 1943)
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Thereza Wright, Joseph Cotten, Macdonald Carey, Patricia Collinge
Duração: 108 minutos

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