Sombras do Mal

16/04/2008 | Categoria: Críticas

Pessimista e desiludido, quase-noir de Jules Dassin impressiona pelo realismo sujo e pelo olho cinematográfico do diretor

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“Sombras do Mal” (Night and the City, Inglaterra, 1950) foi o primeiro filme assinado por Jules Dassin após o diretor, então visto como grande promessa de renovação em Hollywood, deixar os Estados Unidos em definitivo. Pressionado pelo senador Joseph McCarthy para revelar nomes de supostos comunistas infiltrados em Hollywood, o cineasta preferiu abandonar a pátria a delatar algum colega. O acontecimento acabou relegando-o aos filmes B. Ele nunca mais voltaria aos EUA, estabelecendo-se em definitivo na Europa, onde casou com uma atriz grega e viveu até o fim da vida, em 2008. Na França, faria outras obras-primas, como o sensacional “Rififi” (1955), infelizmente pouco conhecido além dos círculos cinéfilos. Ferozmente pessimista, “Sombras do Mal” está no mesmo nível deste.

Não são poucos os críticos que atribuem ao episódio do exílio a atmosfera amarga e de desilusão que encharca este trabalho. De qualquer forma, a película não representou uma ruptura em relação ao trabalho que Dassin já vinha desenvolvendo nos Estados Unidos. É só lembrar de “Cidade Nua” (1948), história que possui inúmeros pontos de contato com o filme de 1950, incluindo a curta narração em off de abertura. Nos dois casos, temos enredos que se desenrolam no submundo do crime de grandes metrópoles. Os personagens, invariavelmente pequenos trambiqueiros que lutam para sobreviver, têm vida boêmia e enfrentam problemas com a polícia. Dassin gostava de filmar em locações reais, o que dava um aspecto sujo e realista aos filmes, realçado ainda pela grande quantidade de cenas noturnas e pela iluminação em chave baixa, bem ao estilo noir.

Embora muita gente considere “Sombras do Mal” um legítimo noir, a história descarta a maior parte dos clichês do estilo. Não há detetives, damas fatais ou assassinatos misteriosos. Há apenas gente comum, obrigada a tomar atitudes moralmente condenáveis para sobreviver decentemente. Harry Fabian (Richard Widmark), o protagonista, é um trapaceiro com ilusões de grandeza. Ele usa uma gravata borboleta, mas está sempre suado e com cabelos desgrenhados. Sobrevive de pequenos golpes, num ambiente sórdido formado pelo circuito de clubes noturnos vagabundos em Londres. A desgraça definitiva de Fabian é disparada pelo excesso de ambição. Em uma noite, ele precisa de três mil libras para construir uma arena de corridas de cachorros. Noutra, quer desesperadamente 400 libras para dar uma de empresário de luta livre.

Fabian não pode dinheiro emprestado a gente honesta, mas a trapaceiros como ele: dono de boate, falsificador de documentos, contrabandista de nylon e outras figuras ilustres do submundo londrino. Dono de uma risada maníaca (marca registrada do ator Richard Widmark, soberbo no papel), ele circula febrilmente por bares e boates, procurando uma oportunidade de enriquecer. Dassin narra a queda desta figura nada ilustre – o filme foi muito criticado pela crítica dos EUA pela ausência de personagens simpáticos – com olho extremamente cinematográfico (basta conferir a ótima seqüência em que ele entra num bar para atrair três executivos a outra boate, de quem recebe comissão). O diretor abusa de câmeras baixas, ângulos oblíquos e muitas sombras para enfatizar o ambiente pessimista e opressivo, repleto de paredes com reboco caindo e figurinos puídos. O realismo é tão grande que quase dá para sentir o cheiro de lixo pelas ruas.

Dassin ainda se esmera nos diálogos, que seguem a tradição do noir e capricham no cinismo (“cai fora!”, grita um dono de bar para Fabian; “Este é um local público”, retruca o herói, recebido de bate-pronto com uma ameaça sarcástica: “O necrotério também é!”). O diretor recebeu o apoio velado do produtor David O. Selznick, um dos maiores nomes do ramo, que bancou a produção anonimamente e deu a Dassin toda a liberdade para ousar. Sem compromisso com estúdios e sem buscar grandes públicos, o cineasta fez exatamente isto, criando uma espécie de versão noir da descida de Dante aos infernos, com final trágico perfeitamente adequado ao protagonista. Grande filme.

O DVD brasileiro de “Sombras do Mal” carrega o selo da Oregon Filmes. É um disco simples, sem extras, com qualidade de imagem apenas razoável (4:3, fullscreen) e áudio OK (Dolby Digital 2.0).

– Sombras do Mal (Night and the City, Inglaterra, 1950)
Direção: Jules Dassin
Elenco: Richard Widmark, Gene Tierney, Googie Withers, Hugh Marlowe
Duração: 96 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


2 comentários
Comente! »