Sombras

01/09/2009 | Categoria: Críticas

Estréia de John Cassavetes é primo distante de Truffaut, Godard e da nouvelle vague

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A maior parte dos críticos dos Estados Unidos analisou “Sombras” (Shadows, EUA, 1959), a estréia na direção do pai do cinema independente norte-americano, John Cassavetes, como uma história de amor inter-racial narrada no ritmo lisérgico do jazz improvisado. Julgar o filme por este ângulo, contudo, é forçar um pouco a barra, encontrar cabelo em ovo. Na verdade, a história acompanha uma família de três irmãos mulatos, mostrando cada um deles remoendo seus próprios problemas pessoais por algum tempo. São problemas de natureza completamente diversas. Não existe um tema único. “Sombras” é um filme panorâmico.

Quando confrontado com a posição dos críticos, o próprio Cassavetes recusava o conceito de amor inter-racial. “É um filme sobre a falta de rumo e a desorientação de qualquer jovem”, diz ele. A pista para entender o que o diretor está falando está nas cenas de abertura e encerramento, que focalizam o irmão do meio. Ben (Ben Carruthers) é um trompetista meio esquentado que não tem exatamente um problema. Ele apenas vaga de um lado para outro, sem saber direito que rumo tomar. Procura trabalho de dia, diversão à noite. Arruma confusão, bate e apanha. Nada que um jovem da idade dele não conheça bem.

Uma olhada concreta nas condições de produção mostra que “Sombras” não nasceu de um projeto comercial, mas uma experiência avant garde. Na época da produção original (entre os anos de 1957 e 58), Cassavetes era um jovem mas experiente ator, que dirigia uma oficina para jovens que queria atuar profissionalmente, em Nova York. “Sombras” nasceu da vontade de gravar em celulóide algumas experiências de improvisação dos atores mais promissores. Os envolvidos racharam os custos da película, ensaiaram algumas cenas isoladas e filmaram tudo sob a orientação do professor, que então montou o resultado de forma a apresentar alguma ordem lógica.

No entanto, após as primeiras exibições em cinema, as reações espantadas dos espectadores incentivaram Cassavetes a reduzir o radicalismo da experiência e criar uma narrativa mais coesa. Ele reescreveu dois terços da história, tentando focalizar toda a ação dentro da mesma família. A nova versão estreou em 1959 e foi saudada como um novo caminho para o cinema norte-americano. Cassavetes não estava atrelado a nenhum estúdio e filmava de forma despojada, com som ambiente, e trabalho desleixado de câmera. Os personagens falavam gírias, se interrompiam, erravam as frases e diziam tudo de novo. Era a vida como ela é, quase naturalista.

“Sombras” surgiu ao mesmo tempo em que os filmes da Nouvelle Vague francesa (“Os Incompreendidos”, de Truffaut, e “Acossado” de Godard), e apresentava uma curiosa semelhança com eles, como se todos fossem primos distantes. De certa forma, Cassavetes era ainda mais ousado, pois nutria um desprezo ainda maior pela narrativa convencional. Seu filme não tinha começo, meio e fim. Como a trilha sonora, mais parecia uma grande jam session de improviso de jazz (dois dos irmãos mulatos são músicos). Ele transportava para o cinema a música de Dizzie Gillespie e Louis Armstrong, bem como a literatura febril de Jack Kerouac e Allen Ginsberg.

Cassavetes, como se sabe, acabaria fazendo uma carreira peculiar na indústria do cinema. Os onze filmes seguintes que assinaria como diretor seria bem diferentes: mais concisos, mais cuidadoso com os personagens, mais conscientes da necessidade de um fio narrativo. É difícil imaginar o cinema cru e poderoso de “Uma Mulher Sob Influência” ou “A Morte de um Bookmaker Chinês”, contudo, sem que existisse “Sombras”. Foi graças a este poema bêbado transfigurado em filme que Cassavetes adquiriu a experiência necessária para cunhar a obra que o faria ícone entre cineastas independentes de todo o mundo.

A melhor edição em DVD da estréia de Cassavetes está na caixa “Five Movies”, lançada nos EUA pela Criterion. O filme tem qualidade razoável de imagem (1.33:1) e áudio (Dolby Digital 2.0). No Brasil, a obra não existe no formato digital.

É importante lembrar que a primeira versão de “Sombras” nunca foi lançada em DVD. A única cópia existente em película chegou a ser dada como perdida pelo próprio Cassavetes, mas acabou redescoberta em 2002, no porão da casa dos filhos de um vendedor de antiguidades nova-iorquina. A caixa com cinco rolos de filme havia sido esquecida no metrô de Nova York, após alguma projeção em um cinema qualquer da cidade. Estava em boas condições, e vem sendo reexibida em cineclubes pelo mundo afora desde janeiro de 2004. Diz-se que ela é bem mais anárquica, mas como jamais saiu em DVD, não dá para comparar.

O DVD nacional leva o selo da Cinemax e é baseado na edição norte-americana da Criterion: imagem OK (widescreen 1.66:1 anamórfico), som decente (Dolby Digital 2.0), mas nenhum extra.

– Sombras (Shadows, EUA, 1959)
Direção: John Cassavetes
Elenco: Ben Carruthers, Lelia Goldoni, Hugh Hurd, Anthony Ray
Duração: 81 minutos

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