Some Kind of Monster

26/04/2005 | Categoria: Críticas

Documentário é verdadeira sessão de terapia coletiva com indivíduos imaturos e egoístas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“Some Kind of Monster” (EUA, 2004) é a primeira incursão de uma grande banda de heavy metal no campo do cinema sério. Ou seja, este não é um musical, quase não tem cenas de shows e nem uma única música completa. Trata-se, na verdade, de um longo documentário que enfoca o período mais turbulento da carreira do grupo, o maior vendedor de discos da história da música pesada. Os milhares de fãs do Metallica espalhados por aí (eu incluso) são o alvo principal deste filme, mas ele pode ser tranqüilamente visto por alguém que não curte a banda. “Some Kind of Monster” é sobre relacionamentos pessoais, e não sobre música.

Irônico, no entanto, é que o filme tenha começado exatamente como um documentário promocional, pago pela gravadora Elektra, sobre as gravações de um álbum do quarteto. Os cineastas Joe Berlinger e Bruce Sinofsky começaram a seguir o quarteto em 2001, pouco antes de o baixista Jason Newsted anunciar a saída do grupo. Foi apenas o estopim de mudanças profundas. Na seqüência, com os ânimos acirrados por infindáveis discussões e muita vodca, o guitarrista James Hetfield acabou se internando numa clínica para tratar o alcoolismo, deixando os dois remanescentes sem saber se o Metallica ainda existia.

“Some Kind of Monster” cobre dois anos difíceis para o grupo. Obrigados a repensar não apenas as carreiras profissionais, mas sobretudo as vidas pessoais, os milionários músicos agem durante quase todo o tempo como adolescentes mimados. A chegada do psicanalista Phil Towle, bancado (US$ 40 mil por mês) pela gravadora para evitar o fim da banda, força-os a encarar seus demônios pessoais pela primeira vez em 20 anos de carreira. O resultado é um painel doloroso de discussões pesadas, confrontos pessoais e um ou outro momento de alívio provocado pela escassa música feita pelo trio remanescente.

Um fã, não há dúvida, vai observar com curiosidade e respeito o cotidiano e as personalidades dos seus ídolos. Pode-se perceber, por exemplo, que o guitarrista James Hetfield é um homem torturado pela perda da mãe, aos 16 anos, e pela ausência do pai, acabando por se tornar uma pessoa fria, distante da família e autoritária. Já Lars Ulrich, o baterista, é com certeza o centro emocional do grupo, o elo que se esforça – e às vezes engole muito sapo por isso – para manter o grupo unido, enquanto Kirk Hammett, com sua coleção de caveiras de animais e pranchas de surf, não passa de uma criança crescida (uma das cenas o mostra na auto-escola por dirigir além da velocidade permitida).

O filme não julga essas pessoas; apenas mostra o que eles fazem e examina, de perto, o processo de remexer e analisar as próprias feridas, que a mistura de ego, álcool e alguns milhões de dólares acabou por produzir durante 20 anos. Há momentos interessantes no documentário, como a visita rancorosa do ex-membro Dave Mustaine (ele também um milionário, mas que demonstra jamais ter superado a demissão da banda), além de confrontos dilacerantes entre Ulrich e Hetfield, líderes do Metallica, que deixam claro o quão estragada ficou a amizade após tantos anos de rivalidade interna alimentada.

O painel que emerge de “Some Kind of Monster” é conflitante. A iniciativa do grupo de lavar a roupa suja em público, especialmente vinda de uma banda que sempre enterrou seu cotidiano embaixo de uma cortina de fumaça, é bem vinda. “Some Kind of Monster” pode ser considerado uma das sessões de terapia coletiva mais abrangentes e dolorosas já mostradas em um longa-metragem.

Por outro lado, a vida de rock star sofre um grande abalo quando percebemos o que os milhões de dólares fazem a essas pessoas, que acabam se tornando indivíduos egocêntricos, imaturos, solitários e sem norte emocional. O fato de o filme ter sido bancado pelos próprios mostra coragem e vontade de crescer emocionalmente, mas não redime os pecados de ninguém. Pelo menos, como filme, “Some Kind of Monster” tem a qualidade de mostrar que astros do rock são gente de carne e osso, e não modelos de conduta humana.

O DVD da Paramount, duplo, é uma verdadeiro presente para fãs. O primeiro disco tem, além do filme com imagem em tela cheia (4 x 3, original) e som Dolby Digital 5.1, dois comentários em áudio (um com a banda, e outro com os dois diretores). O segundo disco contém quase 150 minutos de bônus, incluindo nada menos que 40 cenas excluídas (com duração variável entre 1 e 6 minutos cada) e uma seção inteira de entrevistas durante festivais de cinema. O disco 2, em particular, é excelente material para fãs. Quem não curte o grupo vai se contentar em ver o filme.

– Some Kind of Monster (EUA, 2004)
Direção: Joe Berlinger e Bruce Sinofsky
Documentário
Duração: 140 minutos

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