Somos Todos Assassinos

18/08/2005 | Categoria: Críticas

Importância do libelo anti-pena de morte de André Cayatte é mais histórica do que cinematográfica

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O cineasta francês André Cayatte começou a trabalhar no cinema, como roteirista, aos 33 anos de idade. Antes disso, teve uma carreira de sucesso como advogado. A informação explica o tom didático e o estranho estilo narrativo adotado por ele em “Somos Todos Assassinos” (Nous Sommes Tous des Assassins, França/Itália, 1952), filme que carrega a pecha de ter sido importante para a abolição da pena de morte no país europeu. O maior mérito do longa-metragem, maior do que sua qualidade cinematográfica, é portanto social.

O filme, pouco conhecido no Brasil mas objeto de culto entre cinéfilos devido ao papel de peso na mudança da legislação sobre pena de morte da França, conta a história de um mendigo que se transforma em membro da Resistência francesa ao nazista e, anos após a guerra, mata três pessoas, sendo condenado à morte por isso. A narração do caso, no entanto, corresponde mais ou menos ao que seria a tese adotada pelo defensor público do sujeito durante seu julgamento.

Cayatte começa o filme durante a ocupação nazista da França. Le Guén (Marcel Mouloudji) não é um criminoso, mas um homem comum que passa fome devido ao racionamento de comida que atingiu os franceses durante o conflito. Ele não tem nenhuma consciência política, mas devido a um incidente sem importância acaba recrutado para a Resistência. Após a guerra, desempregado e acostumado a agir com violência, ele repete a dose e acaba na prisão.

As cenas que narram essa parte da história são curiosas, pois realizam várias elipses (saltos no tempo) abruptos, sem explicação. Alguns espectadores podem sentir dificuldade em situar a narrativa no tempo e no espaço, já que os recortes escolhidos pelo diretor para ir narrando a trajetória do mendigo são quase aleatórios. Em uma cena, por exemplo, ele é recrutado por dois homens ligados à Resistência. Na cena seguinte, já está sendo incumbido da missão de matar um deles, considerado traidor. Quanto tempo se passou entre as duas ações? O filme não diz. O espectador é obrigado a intuir.

Na cena seguinte, a guerra acabou e Le Guén voltou a ser mendigo. Novamente precisamos pôr a cuca para funcionar e compreender como e porque isso aconteceu. Toda a primeira parte de “Somos Todos Assassinos” tem problemas desse tipo, certamente porque o diretor e roteirista estava mais preocupado em defender uma tese sobre a pena de morte do que em contar uma história.

O ponto de vista de Cayatte é defendido, no filme, por dois personagens: o jovem e idealista defensor público de Le Guén, que faz de tudo para conseguir evitar a morte do rapaz, e o novo capelão do presídio onde ele se encontra. É o padre, inclusive, quem transforma em palavras a tese do cineasta, durante uma interessante discussão com o antigo padre do presídio, sobre qual a melhor maneira de tratar os prisioneiros do corredor da morte.

A narrativa de Cayatte tem muitos pontos a favor. É objetiva, quase jornalística, e evita os toques melodramáticos que poderiam transformar o filme em um lacrimoso drama judicial. Além disso, tem bons diálogos, edição ágil e estética correta, claramente inspirada no neo-realismo que, na época do lançamento do filme, era muito popular na França, além de defendido com paixão pelo respeitado crítico André Bazin.

Por outro lado, todos sabemos que alguns filmes envelhecem – e isso acontece com “Somos Todos Assassinos”, cujo discurso é claro e lúcido, mas já não tem, em pleno século XXI, a mesma ressonância de cinco décadas antes. Se muita gente continua justificando uma possível posição contra a pena de morte com argumentos bem parecidos com os Cayatte, um grupo ainda maior de pessoas rebate a argumentação afirmando, com alguma lógica, que não se pode pôr a culpa por atos violentos na sociedade, pois pessoas criadas nas mesmas condições de criminosos não apresentam, apenas por isso, atitudes violentas.

A verdadeira importância de ter “Somos Todos Assassinos” disponível em DVD, na verdade, não é social, e nem cinematográfica, mas sobretudo histórica. O filme é correto, mas tem defeitos narrativos; é lógico, mas estrutura sua argumentação em tópicos rebatíveis. O que ninguém tira dele é o papel fundamental que exerceu na consciência da população de um país com democracia madura, como a França, para a extinção da pena de morte.

O lançamento do filme em DVD no Brasil é da Aurora DVD. O disco não contém material extra em vídeo, mas somente as tradicionais biografias e sinopse. O formato original de imagem (fullscreen) foi respeitado, e a qualidade é boa. A trilha de áudio é Dolby Digital 2.0, em francês.

– Somos Todos Assassinos (Nous Sommes Tous des Assassins, França/Itália, 1952)
Direção: André Cayatte
Elenco: Marcel Mouloudji, Raymond Pellegrin, Antoine Balpêtré, Julien Verdier
Duração: 112 minutos

| Mais


Deixar comentário