Sonhadores, Os

17/04/2005 | Categoria: Críticas

Bernardo Bertolucci investiga relações entre cinema e sexualidade em filme para cinéfilos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Uma pergunta: qual a relação entre sexo e cinema? Aparentemente, nenhuma. Há quem pense que são duas coisas distintas, como água e areia. A maioria das pessoas nem pensa nisso. Os cineastas pensam. Martin Scorsese já disse, no livro/documentário “Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Norte-Americano”, que o sexo é a última fronteira a ser conquistada pelos cineastas. O italiano Bernardo Bertolucci talvez seja o diretor mais obcecado em investigar essa relação entre filmes e orgasmos, e conquistar a tal fronteira. “Os Sonhadores” (The Dreamers, EUA/França/Itália/Inglaterra, 2003), filme que marcou o retorno à direção após cinco anos de ausência, promete enfeitiçar todos aqueles que, como ele, amam as duas coisas.

Bertolucci tinha 28 anos em 1968, e vivia na França. Ele presenciou em primeira mão a revolução estudantil que pôs fogo, muitas vezes literalmente, nas avenidas da Europa. Bertolucci estava na linha de frente dos jovens que, naquele fatídico mês de maio, foram às ruas de Paris para protestas contra a demissão do intelectual Henri Langlois da Cinemateca Francesa, uma espécie de Vaticano dos cinéfilos de todo o planeta. Ele aproveitou o conhecimento íntimo do período para transformá-lo em cenário de um polêmico “ménage a trois” adolescente, bem ao gosto do tipo de cinema que Bertolucci persegue desde o polêmico “O Último Tango em Paris”.

Matthew (Michael Pitt) é um jovem norte-americano que está passando uma temporada de um ano em Paris. Foi para estudar, mas estudar é o que menos faz. Matthew costuma passar as tardes e noites na Cinemateca Francesa, assistindo a filmes e mais filmes e mais filmes – de todos os gêneros, bons ou ruins. Não importa o filme, o que vale é a experiência de estar dentro do cinema, compartilhando momentos quase religiosos com desconhecidos; ou melhor, quase sexuais. Ver filmes e fazer sexo são rituais. Cinema é sexo, e filmes provocam orgasmos, é o que parece dizer Bertolucci. Matthew abre o filme com um discurso excitante, narrado em off, que transforma em palavras o sentimento de qualquer cinéfilo:

“Tornei-me um membro de uma espécie de maçonaria: a maçonaria dos cinéfilos. Era um dos insaciáveis, desses que sempre ficam nas primeiras filas. Por que nos sentávamos tão perto? Provavelmente porque queríamos ser os primeiros a receber as imagens que chegavam, quando elas estavam ainda novas, ainda frescas, antes que saltassem para as outras fileiras seguintes. Talvez a tela de projeção fosse apenas uma tela de projeção que nos protegia do resto do mundo”, filosofa o jovem Bertolucci, travestido de Matthew na tela. Todo fanático por filmes compreende muito bem essas palavras mágicas. É uma abertura impactante.

Na Cinemateca, Matthew conhece dois irmãos, Isabelle (Eva Green) e Theo (Louis Garrel). Os dois são cinéfilos da mesma estirpe. Também são confiantes, atrevidos, impulsivos e falam inglês muito bem, características que os transformam em passaporte para um mundo pelo qual Matthew está fascinado, e onde deseja mergulhar de cabeça. Ele terá essa chance quando os pais da dupla viajam para passar um mês (justamente maio de 1968) de férias na praia, deixando o apartamento para os filhos. Logo, Matthew se muda para lá. É de lá, com Isabelle, mais Theo, algumas garrafas de vinho e quase nenhuma roupa, que ele vai assistir à transformação do mundo e transformar-se a si mesmo.

Os eventos de maio de 1968 são uma metáfora que Bertolucci usa para reexaminar publicamente a própria juventude. A lembrança é nostálgica, mas dolorosa. Isabelle e Theo gostam de conversar por meio de citações de frases de filmes clássicos; Bertolucci usa a brincadeira como recurso para inserir trechos dos filmes que ama, de Chaplin a Keaton, de Samuel Fuller a Jean-Luc Godard. Nesse sentido, “Os Sonhadores” é um verdadeiro banquete para cinéfilos, pois não apenas celebra a cinefilia como meio de vida, como opera uma metafórica suspensão do tempo – durante o mês de Matthew junto com os irmãos, a vida parece desacelerar e parar quase por completo, como se tivesse virado… um filme.

Um filme de Bertolucci não mereceria a assinatura do diretor se não examinasse as compulsões sexuais do indivíduo; é aí que o filme tem seu ponto forte. O cineasta mostra perícia ao entrelaçar com habilidade e coesão suas duas paixões – o cinema e o sexo – em um enredo único. Dentro do apartamento parisiense, Matthew vai viver experiências diferentes (não são filmes, mas são igualmente rituais), deixar de ser adolescente e se transformar em homem. Bertolucci flerta perigosamente com temas polêmicos, como homossexualidade e incesto, mas faz isso com bom gosto e absoluta segurança narrativa.

Em determinada cena, por exemplo, os pais dos jovens franceses chegam ao apartamento e se deparam com a bagunça generalizada. O trio está dormindo junto, todos pelados. Os pais olham a cena, ficam boquiabertos, mas deixam um cheque assinado na mesa da sala e vão embora sem dizer uma palavra. Não é preciso. É maio de 1968. O mundo sonhava com uma utopia; Bertolucci a realiza em “Os Sonhadores”, mesmo que, logo depois, ponha seu herói de volta no mundo real com uma dolorosa separação que funciona como metáfora para o amadurecimento de todos os nós, divididos entre os que aceitam esse momento e os que o recusam.

O filme tem uma excelente trilha sonora com canções do período, de Janis Joplin a The Doors, que ajudam a narrar a história. Em um momento, Matthew entra escondido no quarto proibido de Isabelle para conhecê-la melhor, enquanto ouvimos ao fundo a bela “The Spy” (curiosamente, o álbum que contém essa música só foi lançado em 1970). Tudo a ver.

A conclusão do filme alude, de certa forma, ao comentário inicial sobre a tela de projeção do cinema, vista como instrumento de proteção contra o mundo real. O herói de Bertolucci é solicitado a escolher entre o lado de cá ou o lado de lá da tela. De uma forma ou de outra, a decisão envolve dor e amadurecimento, aceitação e fantasia. Bertolucci faz, em “Os Sonhadores”, cinema maiúsculo com cara de despretensão.

Em DVD, o filme sai pela Fox, o que é garantia de qualidade. A distribuidora manteve a imagem no formato original widescreen e colocou uma trilha de áudio Dolby Digital 5.1. Como extras, um pequeno documentário de bastidores e o clip musical da canção “Hey Joe”, imortalizada na voz de Jimi Hendrix.

– Os Sonhadores (The Dreamers, EUA/França/Itália/Inglaterra, 2003)
Direção: Bernardo Bertolucci
Elenco: Michael Pitt, Eva Green, Louis Garrel, Robin Renucci
Duração: 112 minutos

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