Sonhando Acordado

25/02/2008 | Categoria: Críticas

Michel Gondry cria um bronquedo lúdico e delicioso para crianças crescidas com algum pendor artístico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Quando a gente assiste a trechos de um longa-metragem e reconhece instantaneamente o cineasta que o filmou, é certo que o diretor merece o rótulo de autor. Não são muitos os artistas contemporâneos dignos de serem chamados desta forma, mas o francês Michel Gondry certamente é um deles. Se você conhece minimamente as obsessões e o estilo loucamente visual deste profissional egresso dos clipes musicais, não vai precisar de mais do que alguns segundos para identificar, nos delírios lúdico-surrealistas de “Sonhando Acordado” (La Science des Rêves, França/Itália, 2006), a assinatura de Gondry.

Trata-se de um daqueles filmes tipo “ame ou odeie”, para os quais não existe meio termo. Fãs do trabalho anterior de Gondry, que incluem o ótimo romance pós-moderno “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” (2004), têm aqui material suficiente para se afogar de prazer estético e/ou narrativo. Espectadores que preferem as narrativas mais clássicas, daquelas com começo, meio e fim bem definidos, não devem nem chegar perto, pois vão odiar. “Sonhando Acordado” é o tipo de filme que nasceu cult, perfeito para um público pequeno e ardorosamente fiel. Não é obra-prima, mas é um brinquedo delicioso para crianças crescidas com algum pendor artístico.

A história focaliza o designer Stéphane Miroux (Gael Garcia Bernal), filho de mexicano com francesa que acaba de chegar em Paris. Stéphane é um daqueles sujeitos que transbordam criatividade de maneira tão abundante, em um fluxo tão ininterrupto, que não pára de criar nem mesmo quando está dormindo. Aliás, é dos sonhos que vêm suas melhores idéias. O problema é que ele se apaixona perdidamente pela nova vizinha, Stéphanie (a cantora Charlotte Gainsbourg, que não é exatamente bonita, mas tem muito charme), e a torrente de novos sentimentos que a paixão provoca acaba por fazê-lo embananar sonho e realidade de forma irreversível.

A narrativa começa razoavelmente coerente, mas à medida que a paixão de Stéphane se torna cada vez mais ardente, o filme enlouquece de vez. O que poderia parecer resultado de um roteiro confuso, contudo, é exatamente a intenção do diretor. Ao embaralhar ficção e realidade, o que acontece dentro e fora da cabeça do protagonista, Gondry quer colocar a platéia no mesmo ponto de vista do personagem, que também pira. Afinal de contas, um homem apaixonado jamais consegue ser objetivo sobre nada, certo? Quem já endoidou de paixão alguma vez na vida sabe muito bem disso.

Aí, toda essa confusão vira desculpa para Michel Gondry exercitar seu lado designer (quem conhece os trabalhos anteriores do cineasta sabe muito bem que Stéphanie é um alter-ego de Gondry, assim como era o personagem de Jim Carrey em “Brilho Eterno”), criando um visual delirante que mais parece uma colagem lúdica feita por uma criança hiper-ativa. Gondry abusa dos efeitos visuais criados com técnicas antigas de stop motion, recusando o realismo do CGI que certamente estragaria a textura onírica das imagens. “Sonhando Acordado” é um filme lindo de ver, e seu visual expressa precisamente o caráter do personagem: um romântico de carteirinha, lírico e poético, mas também ingênuo e infantil.

Basicamente, por trás da aparência e da narrativa caóticas, existe uma história milenar e tradicionalíssima: uma paixão não-correspondida e um cara sofrendo horrores por amor. Aqui, no caso, a história é o que menos importa, pois o filme vale mesmo é pelo fluxo febril de idéia e imagens malucas. O tratamento pós-moderno é complementado pelas palavras: a obra é extremamente dialogada e em três línguas diferentes, pois os personagens misturam inglês, francês e espanhol durante as conversas turbinadas. A impressão final é que o filme tomou uma dose generosa de anfetamina e ficou super-acelerado. Para assistir de um jorro só, em um impulso único, de preferência antes de dormir. Bons sonhos.

O longa-metragem já foi lançado em DVD nos EUA pela Warner. O filme está com ótima qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfico) e som (Dolby Digital 5.1), além de conter um documentário, um featurette sobre o artista que criou os objetos cênicos, um comentário em áudio reunindo Gondry, Bernal e Gainsbourg e dois clipes musicais.

– Sonhando Acordado (La Science des Rêves, França/Itália, 2006)
Direção: Michel Gondry
Elenco: Gael Garcia Bernal, Charlotte Gainsbourg, Alain Chabat, Miou-Miou
Duração: 105 minutos

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