Sonho de Cassandra, O

25/08/2008 | Categoria: Críticas

Woody Allen praticamente revisa a história de ‘Ponto Final’, entregando filme insosso e sem inspiração

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Alfred Hitchcock, talvez o cineasta que melhor dominou as regras da gramática cinematográfica, tinha uma maneira imbatível de recarregar as baterias, quando começa a se sentir repetitivo e sem confiança. Ele ia até os produtores com quem trabalhava e pedia algum roteiro com elementos que ele conhecia de cor e salteado, de preferência um thriller de mistério. Woody Allen recorreu a esta estratégia em “O Sonho de Cassandra” (Cassandra’s Dream, EUA/Inglaterra, 2007). Conscientemente ou não, depois do fracasso de “Scoop” (2006), ele decidiu retornar ao clássico romance “Crime e Castigo”, de Dostoievski, que havia inspirado “Ponto Final” (2005), e criar uma variação da mesma história sobre assassinato e culpa. Se deu mal.

Não foram poucos os críticos que apontaram, como maior problema de “O Sonho de Cassandra”, a exagerada semelhança da trama com a de outro longa-metragem da mesma safra, o thriller “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto”, também dirigido por um veterano (Sidney Lumet). De fato, as duas produções têm o mesmo ponto de partida – dois irmãos com dificuldades financeiras decidem cometer um crime para solucioná-las, mas o plano dá errado – e o filme de Lumet é muito melhor. O problema, contudo, não está na similaridade. A comparação é injusta e equivocada. O problema é que “O Sonho de Cassandra” não passa de um conjunto de equívocos, que vão da previsibilidade de um roteiro que carece de tensão e atmosfera até as atuações irregulares do elenco.

O filme, terceira obra consecutiva de Woody Allen a se passar na Inglaterra, abandona a classe alta da aristocracia londrina para se concentrar em dois irmãos oriundos do proletariado inglês. Os pais de Ian (Ewan McGregor, eficiente) e Terry (Colin Farrell, mais fraco) dirigem um pequeno restaurante local. Os dois rapazes parecem filhos exemplares. São educados e muito, muito amigos. Ambos têm problemas financeiros. Ian, mais ambicioso, sonha em morar na Califórnia (EUA), e a pressão para que ele realize este sonho aumenta dramaticamente quando ele começa a namorar uma aspirante a atriz (Hayley Attwell) que não dá tanta bola para ele. Terry, que já tem vida doméstica assentada e trabalha como mecânico de carros, contrai dívidas de jogo e passa a ter a integridade física ameaçada.

Um ponto forte da produção está na composição da personalidade dos dois irmãos. Quando o ponto de conflito do enredo é estabelecido, após a entrada em cena do tio rico Howard (Tom Wilkinson, ótimo como de hábito), as reações divergentes dos dois irmãos combinam perfeitamente com a personalidade de cada um. Ian, que rouba dinheiro do pai para bancar um estilo de vida cujo emprego não permite, encara a idéia de matar um homem com um pouco mais de naturalidade e menos de pavor do que o irmão, cuja base moral é evidentemente mais forte. Este cuidado na construção dos personagens, contudo, acaba por funcionar contra o filme, pois permite que a platéia antecipe com bastante antecedência tudo o que vai acontecer com ambos após o crime.

Inexperiente em histórias de suspense, Woody Allen falha em injetar tensão à trama, que se desenrola de forma fria, quase burocrática, sem envolver emocionalmente o espectador. Como havia feito em “Ponto Final”, Allen também elimina todo e qualquer resquício de humor em “O Sonho de Cassandra”. Se no longa de 2005 esta decisão se mostrava acertada, pois sublinhava a pressão exercida pelos fatos sobre o protagonista, aqui a ausência de momentos bem-humorados aumenta o abismo emocional que separa platéia e personagens. O resultado é um filme convencional, certinho, conduzido de forma correta, mas que jamais empolga ou excita. Ainda que o final seja carregado com uma ironia feroz (tão forte como a cena que encerrava “Ponto Final”, mas muito diferente desta), “O Sonho de Cassandra” fica devendo.

O DVD nacional, da Imagem Filmes, é simples e não tem nenhum extra. O enquadramento original (widescreen anamórfico) está preservado, e a trilha de áudio é OK (Dolby Digital 5.1).

– O Sonho de Cassandra (Cassandra’s Dream, EUA/Inglaterra, 2007)
Direção: Woody Allen
Elenco: Ewan McGregor, Colin Farrell, Tom Wilkinson, Hayley Atwell
Duração: 108 minutos

| Mais


Deixar comentário