Sonho de Liberdade, Um

03/01/2007 | Categoria: Críticas

Frank Darabont cria um elegante mito moderno com filme de narrativa clássica

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“Um Sonho de Liberdade” (The Shawshank Redemption, EUA, 1994) não fez uma carreira exatamente espetacular nos cinemas, embora tenha sido bem lembrado na cerimônia do Oscar do ano seguinte. Depois de ser elogiado pela crítica em 1994, conseguiu emplacar sete indicações. Perdeu todas. Parecia mais um bom filme fadado ao esquecimento, mas um fenômeno intrigante fez com que sua reputação crescesse enormemente nos anos seguintes.

Existe uma teoria curiosa que tenta explicar esse mistério. O que aconteceu é que a empresa do magnata Ted Turner, proprietária dos direitos do filme, vendeu os direitos da obra para a TV a cabo TNT, que também é de Turner. Obviamente, o milionário fez um contrato em que pagava a si mesmo uma micharia pelo direito de exibir o longa-metragem. A TNT, então, começou a programar a produção exaustivamente. Essas reexibição, ao invés de saturar a platéia, acabaram por criar um mito. “Um Sonho de Liberdade” teria ganhado fama verdadeira a partir daí.

O fenômeno atingiu uma proporção que o diretor Frank Darabont certamente não imaginava. “Um Sonho de Liberdade” tem lugar cativo entre os três filmes favoritos dos milhares de internautas que freqüentam o maior banco de dados de cinema do mundo, o Internet Movie Database. Na lista, fica ao lado de “O Poderoso Chefão” e “O Retorno do Rei”, e à frente de dezenas de filmes históricos do cinema, “Cidadão Kane” entre eles. A pergunta que fica é a seguinte: o filme merece tanta badalação?

A resposta é sim. “Um Sonho de Liberdade” tem uma qualidade que raríssimos longas-metragens conseguem: é um triunfo de técnica que nunca, jamais, nem em uma única tomada dos longos 142 minutos de projeção, transparece para a audiência. Não faz muito sentido falar aqui na excelente fotografia do mestre Roger Deakins. O filme não tem tratamento refinado de cores, paisagens bonitas, nada disso. Mas possui enquadramentos precisos e o uso sutil da iluminação claro-escura (mais de 80% da ação se passa em ambientes fechados) dificilmente chega a um resultado tão eficiente.

A trama é muito simples e possui reviravoltas surpreendentes nos momentos certos. O banqueiro Andy Dufresne (Tim Robbins, excelente) é condenado à prisão sob a acusação de ter assassinado a mulher e o amante. Rico, ele perde tudo. Na cadeia, é perseguido por homossexuais. Mas Andy é quieto, tímido, reservado, e parece conformado com o destino. Sua única interface com o mundo é o cínico Red (Morgan Freeman), um presidiário veterano, “o único culpado dentro desta cadeia”. Freeman esbanja categoria no tradicional estilo “menos é mais”. O ator é um especialista em papéis de observadores passivos que narram e comentam a jornada do protagonista (ele fez uma variação do personagem no premiado “Menina de Ouro”, em 2005).

Aos poucos, Andy vai construindo para si uma redoma de isolamento dentro da prisão. O filme não tem pressa para mostrar a maneira como o banqueiro vai, lentamente, transformando a rotina do lugar de modo a garantir para si uma vida sem sobressaltos. É somente perto do final que sua rotina vai ser fortemente abalada por uma revelação feita, displicentemente, por um preso novato. A reviravolta é surpreendente porque Hollywood costuma revelar esse tipo de informação antes da metade de qualquer projeção. Por isso, a informação atordoa não apenas o protagonista, mas também (e sobretudo) a platéia.

Frank Darabont não é um cineasta virtuoso, mas é um roteirista hábil, e fez do texto o ponto forte de “Um Sonho de Liberdade”. O filme é coeso, inteligente e inovador, mesmo seguindo fielmente a clássica divisão em três atos. Além de tudo, contém um dos melhores exemplos já mostrados no cinema de momento cinematográfico em que um personagem sabe mais sobre a ação mostrada do que o espectador. Por isso, quando parece que o filme se encaminha a um final agridoce, uma ação inesperada do protagonista (para o público, pois ele tinha calculado tudo nos mínimos detalhes), ele dá uma guinada e ruma para um final apoteótico, daqueles de fazer chorar.

A edição especial do filme, lançada pela Warner, possui dois discos. No primeiro, a versão exibida nos cinemas, com enquadramento original de imagens (widescreen anamórficas) e som Dolby Digital 5.1, mais comentário em áudio de Frank Darabont. No disco 2, dois documentários retrospectivos, uma longa entrevista com o diretor e os dois atores principais, e cinco galerias de fotos.

– Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, EUA, 1994)
Direção: Frank Darabont
Elenco: Tim Robins, Morgan Freeman, Bob Gunton, William Sadler
Duração: 142 minutos

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