South Park – Maior, Melhor e Sem Cortes

01/01/2005 | Categoria: Críticas

Recordista em número de palavrões (399 em 80 minutos), o longa-metragem é feito sob medida rachar o bico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

As aparências enganam. À primeira vista, um desenho animado que traz como protagonistas quatro garotos de oito anos parece ser um daqueles musicais da Disney, educativos e cheios de lições de moral. Deve ter sido isso que levou o Ministério da Justiça brasileiro a dar a “South Park: Maior, Melhor e Sem Cortes” (South Park: Bigger, Longer and Uncut, EUA, 1999) a classificação etária de 14 anos para um filme claramente adulto.

Fãs do cartoon mais desbocado da TV, podem descansar tranqüilos. O primeiro longa-metragem dos americanos Trey Parker e Matt Stone não está chegando às telas brasileiras adocicado. É um desenho animado, mas dos seus congêneres guarda apenas uma semelhança: trata-se de um musical. O filme é uma das obras mais politicamente incorretas já produzidas em Hollywood. Faz com que obras-primas da baixaria, como “Quem Vai Ficar Com Mary?”, pareçam singelas canções de ninar.

Não é exagero não. Uma associação de pais norte-americana baseada no Colorado (ironicamente, o Estado onde fica a fictícia cidadezinha de South Park, lar dos personagens do filme) chamada Media Index teve a manha de contar cada uma das expressões profanas (o estúpido enunciado politicamente correto é deles) pronunciados pelos garotinhos durante os 80 minutos de projeção. O resultado: o longa-metragem tem apenas 399 palavrões, ou uma média de cinco palavrões por minuto. O detalhe é que nada menos que 128 deles vêm acompanhados de gestos obscenos, sem contar com 221 cenas de violência. Em outras palavras: quem não gosta de piadas politicamente incorretas e gozações com minorias raciais e religiosas deve passar longe desse filme.

Já quem gosta de rir e não dá bola para os chavões da sociedade ultraconservadora dos EUA, no entanto, só tem uma coisa a lamentar: para chegar ao Brasil, “South Park” demorou 13 longos meses. Já o DVD veio melhor do que o norte-americano, incluindo dois clipes e três trailers. O filme mais engraçado do ano passado deve ser assistido legendado, o que dá oportunidade para conferir as vozes originais do quarteto e curtir a participação especial de astros como George Clooney (o galã de Mar em Fúria, outra estréia da semana), Minnie Driver (Gênio Indomável) e Eric Idle (integrante do impagável grupo inglês Monty Python). Eles dublam personagens secundários.

O roteiro do longa-metragem, como a maioria dos episódios do desenho (exibido no Brasil nos canais Multishow e MTV), é mero pretexto para as baixarias hilariantes perpetradas por Parker e Stone. O verdadeiro alvo dos dois era a Motion Pictures Association of America (MPAA, o órgão que decide a faixa etária de exibição dos filmes por lá). A associação comprou a briga e exigiu inúmeras mudanças na história – para deleite dos cineastas. “Cada vez que eles pediam para mudar alguma cena, voltávamos com algo dez vezes pior”, garante Parker.

Filme pronto, o órgão decidiu carimbá-lo com a classificação NR-17. Faixa etária impensável para o produto de um estúdio gigante como a Paramount, já que a maior parte dos cinemas nos EUA se recusa a exibir esse tipo de filme. O estúdio, que estava gastando a bagatela de US$ 21 milhões com a produção, brigou nos bastidores e conseguiu baixar a censura para R. Isso sem que os criadores retirassem uma cena sequer da montagem final. Ponto para a dupla de humoristas.

No filme, os garotos Cartman, Kenny, Stan e Kyle vão ao cinema, assistir ao longa-metragem da dupla canadense Terrance & Phillip, dois malucos com grande talento para piadas grosseiras e muita flatulência. Pretexto para a primeira gozação explícita com a MPAA: os guris são proibidos de entrar no cinema porque o tal filme é proibido para menores de 18 anos, mas subornam um sem-teto com grana “para uma garrafa de vodca” e ele compra os ingressos. O filme dentro do filme é um festival de baixarias e traz a genial “Uncle Fucka”, um amontoado de palavrões cabeludos de fazer chorar de tanto rir. Alguns deles são tão absurdos que nem mesmo alguns americanos conseguiram decifrá-los.

Vocabulário em dia, os meninos vão à escola no dia seguinte e despejam os palavrões, logo repetidos à exaustão pelos outros alunos. É a vez de os pais se indignarem e organizarem um levante contra os astros canadenses, a quem consideram culpados pela destruição da moral e dos bons costumes da juventude americana. O protesto se alastra pelos EUA e termina com a prisão e condenação à morte de Terrance & Phillip. O Governo canadense reage bombardeando a casa da família Baldwin (uma das dezenas de cenas de matar de rir) e abrindo um conflito armado que pode virar a Terceira Guerra Mundial. Enquanto isso, Satã e o seu amante infernal, Saddam Hussein, aguardam a tal guerra para dominar o mundo.

As cenas no inferno são impagáveis e intraduzíveis: basta dizer que Satã é um malvadão sensível que dorme com o livro “Satã é de Marte, Saddam é de Vênus” na cabeceira, enquanto o ditador iraquiano abusa do charme para sodomizar o gigante vermelho. Cabe à garotada de South Park alertar os pais para a burrice que estão a ponto de cometer.

South Park: Maior, Melhor e Sem Cortes (South Park: Bigger, Longer and Uncut, EUA, 1999)
Direção: Trey Park e Matt Stone
Animação
Duração: 80 minutos

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