Southland Tales – O Fim do Mundo

15/05/2008 | Categoria: Críticas

Segundo trabalho do diretor de ‘Donnie Darko’ escorrega na pretensão e no excesso de informações

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Diretor e roteirista, Richard Kelly virou objeto de culto com apenas um filme no currículo, o freak show adolescente “Donnie Darko” (2001). Mostrando ter sensibilidade afinada com milhões de jovens adultos saudosos de uma adolescência perdida em algum lugar de década de 1980, Kelly alcançou fama suficiente para atrair a atenção de bons atores. Como se sabe, atores são peça fundamental na engrenagem que move Hollywood. Graças ao interesse que “Donnie Darko” despertou em gente como Sarah Michelle Gellar (a vampira Buffy da TV) e Seann William Scott (“American Pie”), Kelly conseguiu financiamento para uma ambiciosa experiência interativa que misturaria Internet, quadrinhos e cinema. Em tese, o ponto culminante da experiência deveria ser o longa-metragem “Southland Tales – O Fim do Mundo” (EUA/Alemanha/França, 2007).

Deveria. A desastrosa première mundial do filme, exibido na mostra competitiva do Festival de Cannes de 2006, provocou uma reestruturação completa do projeto. A trama original previa uma história em nove partes, das quais as seis primeiras seriam lançadas como revistas em quadrinhos, com roteiro escrito pelo cineasta. Um website interativo de proporções gigantescas ampliaria ainda mais o escopo do projeto. Seria algo como uma versão turbinada do universo de “Matrix”. O fracasso inicial, porém, pôs um freio nas ambições de Kelly. A trama dos seis gibis foi desbastada até sobrarem apenas três revistas de 100 páginas cada – elas acabaram lançadas entre maio de 2006 e janeiro de 2007. Depois, o cineasta voltou para a mesa de edição, onde ficou por mais um ano e meio, retirando os excessos do longa-metragem. Ele eliminou 25 minutos da montagem original, tirou do filme meia dúzia de personagens e algumas subtramas paralelas.

Todas as alterações foram feitas para tornar a história menos confusa, mais inteligível, mais coerente, mas a estratégia não funcionou muito bem. No enorme caldeirão de influências erigido por Richard Kelly, o que mais se sobressai é o tamanho descomunal da ambição narrativa do cineasta. Ele tenta alinhavar, na mesma história, um sem-número de temas: aquecimento global, crise energética, geopolítica do petróleo, terrorismo, perda de direitos civis, reality shows de TV, teorias conspiratórias, viagens no tempo e muito mais. O todo caótico funciona como uma espécie de panorama apocalíptico da situação política internacional do mundo contemporâneo, só que filtrado pela ótica pop juvenil de um autor que certamente tem algo a dizer, mas não sabe direito como fazê-lo.

Na tentativa de dar coerência ao longa, Kelly procurou aglutinar todas as subtramas paralelas em torno de três personagens, cujos destinos se entrelaçam durante dois dias de muito calor em Los Angeles. Um desses personagens é Boxer Santaros (Dwayne Johnson), ator de filmes de ação que tem laços familiares com políticos republicanos (qualquer referência a Arnold Schwarzenegger não é mera coincidência) e sumiu misteriosamente por alguns dias, reaparecendo com amnésia. Sem lembrar de nada do próprio passado, o sujeito inicia uma relação sentimental e profissional com a atriz pornô Krysta Now (Gellar). Os dois namoram e, nas horas de folga, escrevem juntos o roteiro de um filme. O terceiro vértice do triângulo inclui, na verdade, também o quarto – eles são Ronald e Roland Taverner (Scott), gêmeos idênticos na aparência e opostos em ideologia, já que um é policial e o outro, militante neo-marxista. Uma série de outros personagens excêntricos e sem profundidade, como lésbicas esquerdistas enfurecidas e um bizarro cientista alemão (“Dr. Fantástico”?), gravitam em torno dessas três histórias.

Em entrevistas dadas para promover o longa-metragem, Richard Kelly descreve-o como um híbrido de Philip K. Dick com Andy Warhol. Acerta na atmosfera, mas erra na escala da ambição. De fato, o trabalho preserva o senso de paranóia, a preocupação com as liberdades individuais e até mesmo os flertes de Dick com rasgões espaço-temporais (característica também presente em “Donnie Darko”). Agrega a essas características o visual extravagante, as liberdades narrativas e a sexualidade andrógina do trabalho de Warhol (o bizarro número musical com Justin Timberlake confirma o parentesco). Nada disso ajuda a platéia a entender a trama. Os efeitos visuais pobres – em uma das cenas, o diretor chega a usar storyboards animados como substitutos de efeitos digitais decentes – apenas acentuam a sensação de desorientação que se tem ao assistir a “Southland Tales”.

O filme não chega a ser completamente inútil, mas demonstra claramente que o diretor ainda tem muita estrada a percorrer, antes de virar um bom contador de histórias. Mesmo tendo cortado boa parte dos elementos narrativos presentes na montagem original, o resultado soa confuso e excessivamente ambicioso. Kelly simplesmente não consegue equilibrar toda a informação produzida – quilos e quilos dela – numa narrativa minimamente coerente. E em termos puramente cinematográficos, o filme deixa muito a desejar. Um exemplo? O filme recorre a um recurso gasto e ultrapassado – as reportagens exibidas na TV e vistas também pelos personagens – para metralhar na platéia informações que tentam contextualizar o enredo, política e historicamente. É palpável a sensação de que Kelly desejava discutir, através de uma única história, um grande número de assuntos. Por causa da inexperiência, ele se excedeu na tarefa.

Há, ainda, uma tentativa evidente – e igualmente ambiciosa – de inovar a estética cinematográfica, agregando elementos das linguagens dos games e da Internet ao filme propriamente dito. Talvez por causa do longo período de gestação, “Southland Tales” acabou ultrapassado por outros filmes neste quesito (até mesmo “300”), e o resultado final acaba soando apenas confuso. Ao final das quase duas horas e meia de projeção, a platéia até que consegue ter uma vaga idéia da história como um todo, mas não consegue processar a maior parte da incrível quantidade de informação atirada na cara pelo filme. Bons contadores de história usam com freqüência um ditado frugal que anuncia: “menos é mais”. Apesar das boas idéias, Richard Kelly precisa aprendê-lo. Se conseguir dosar um pouco a nítida (e positiva) vontade de comentar sobre assuntos relevantes de forma pop e engraçada, ele poderá evoluir bastante como cineasta.

O DVD lançado no Brasil pela Universal preserva o enquadramento original (widescreen 2.35:1 anamórfico) e o áudio tem boa qualidade (Dolby Digital 5.1). O disco, simples, vem sem extras.

– Southland Tales – O Fim do Mundo (EUA/Alemanha/França, 2007)
Direção: Richard Kelly
Elenco: Dwayne Johnson, Seann William Scott, Sarah Michelle Gellar, Mandy Moore
Duração: 144 minutos

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