Spartacus

25/05/2006 | Categoria: Críticas

Primeira grande produção de Stanley Kubrick é o mais humano dos grandes épicos sobre a Roma antiga

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

A superprodução “Spartacus” (EUA, 1960) nasceu de uma excentricidade do ator Kirk Douglas. Após fazer campanha para conseguir o papel-título do épico “Ben-Hur” e perder a vaga para Charlton Heston, o ator decidiu, ele mesmo, produzir um filme semelhante. Comprou os direitos do romance histórico de Howard Fast, que ficcionalizava a história real do escravo que liderou uma rebelião na época do Império Romano, e deu partida na produção. Não sabia, mas estava criando o épico definitivo do subgênero “saia-e-sandália”, um melodrama de alta qualidade que influenciaria inúmeras produções futuras, como “Gladiador” (2000) e “Tróia” (2004).

Havia grande nervosismo nos estúdios Universal, que temiam o destino do filme por ele ser o primeiro a dramatizar a época do Império Romano sem nenhuma referência a Jesus Cristo. Além disso, os bastidores não foram tranqüilos, já que o primeiro diretor escolhido, Anthony Mann, acabou demitido após alguns dias de filmagem, o que irritou elenco e equipe técnica. No lugar dele, assumiu um jovem e pouco conhecido cineasta: Stanley Kubrick. O homem que mais tarde faria clássicos como “2001” dispensou atores, brigou com o fotógrafo Russell Metty e estragou a amizade que mantinha com Kirk Douglas, mas segurou o filme com rédea firme e entregou uma produção magnífica.

Embora não tenha o toque pessoal do cineasta, que não teve liberdade para mexer no roteiro de Dalton Trumbo, “Spartacus” prova que um filme comercial, feito para grandes platéias, pode ser inteligente e ter um grande texto, além de um trabalho visual estonteante, de tirar o fôlego. O modo como Kubrick encenou a grande batalha entre escravos e romanos, no clímax do filme, é o melhor exemplo desta última característica. Com 8.500 figurantes, Kubrick criou coreografias impressionantes – como a marcha dos romanos na hora da batalha – e cenas de luta de realismo impecável, que continuam a impressionar mesmo 40 anos depois de filmadas.

Entre as lendas da produção, ficaram famosas as ríspidas discussões com o fotógrafo Russell Metty, profissional renomado, que reclamava para quem quisesse ouvir da intromissão de Kubrick no trabalho de posicionamento de câmera e iluminação dos sets. Kubrick não deu bola e chegou até a desenhar storyboards, ensinando como enquadrar certas cenas. Metty chegou a pedir para que a Universal retirasse o nome dele dos créditos da produção. Por sorte, teve o pedido negado – e ganhou o Oscar de fotografia no ano seguinte. Fotógrafo premiado e estilista de carteirinha, Kubrick fez um trabalho excepcional na parte visual do filme, equilibrando luz (as planícies tórridas do deserto italiano) e sombra (as escuras e úmidas paredes das masmorras onde vivem os gladiadores) em iguais proporções.

A história, para quem não conhece, acompanha a trajetória de Spartacus (Kirk Douglas), escravo de minas de sal comprado por um mercador (Peter Ustinov, que ganhou o Oscar de ator coadjuvante) que se torna gladiador. Por causa do amor de uma escrava (Jean Simmons), Spartacus lidera uma rebelião e foge, inspirando milhares de outros escravos a fazerem o mesmo e desafiando abertamente o poder de Roma, que não demora a pôr a formidável máquina militar que possuía na época para tentar esmagá-lo, como exemplo a não ser seguido.

“Spartacus” consegue a proeza de equilibrar tramas de diversas escalas em um épico cheio de sutilezas. O filme oferece várias leituras, da íntima (a história de amor entre dois escravos, Spartacus e Varínia) à grandiosa (a reconstrução visual de uma das mais espetaculares batalhas do período histórico enfocado), sem esquecer do contexto histórico (a luta de dois senadores corruptos pelo poder em Roma), tudo feito com enorme competência. Pequenos detalhes, como a curta seqüência em que Crassus (Olivier) tenta seduzir o escravo interpretado por Tony Curtis, revelam a decadência que reinava na Roma do período.

Os diálogos de Dalton Trumbo são puro melodrama, mas um melodrama de altíssima qualidade, que cria diversos momentos inesquecíveis, como o derradeiro encontro entre Varínia e Spartacus (“por favor, meu amor, morra logo”, exclama ela, angustiada diante do marido crucificado, em um momento capaz de levar muita gente às lágrimas) ou ainda a tentativa fracassada feita por Crassus para descobrir quem é o líder do exército rebelde (“eu sou Spartacus!”). Várias dessas cenas foram cortadas por imposição da censura, em 1960, mas foram reinseridas no filme em 1991, quando ele foi restaurado.

Claro que, posto diante da futura e quase inacreditável obra de Kubrick, o épico empalidece um pouco, mas não perde o posto de mais espetacular e mais humano filme de época sobre os romanos já feito em Hollywood. Além disso, “Spartacus” ainda teve a coragem de quebrar, pela primeira vez, o pacto feito entre estúdios para não empregar os homens que se recusaram a dedurar companheiros na época do MacCarthismo, dando o crédito de roteiro a Dalton Trumbo – e esta é uma atitude política não apenas admirável, mas coerente com a postura ética assumida pelo personagem principal.

O DVD duplo da Universal é simplesmente espetacular. Para começar, o filme foi restaurado com cuidado e aparece com qualidade perfeita, dividido em dois discos: imagem original preservada (wide 2.20:1 anamórfico) e som remixado para o formato DTS. Entre os extras, há dois comentários em áudio diferentes. O primeiro edita várias entrevistas de pessoas ligadas à produção (Kirk Douglas, Peter Ustinov, Howard Fast, o designer dos créditos Saul Bass), e o segundo traz comentário cena-a-cena do roteirista Dalton Trumbo. Ambos estão legendados em português.

No disco 1, existe um featurette sobre o processo de restauração da imagem. No segundo CD, galerias de entrevistas (com Jean Simmons e Peter Ustinov), um documentário da década de 1950 sobre os dez homens banidos de Hollywood sob a acusação de comunismo, seis reportagens da época feitas para os cinemas, três cenas cortadas, trailer e intermináveis galerias de storyboards (feitos por Saul Bass e Stanley Kubrick), pôsteres e fotos da época. Tudo com legendas. Só faltou mesmo algum historiador descobrir a montagem original feita por Kubrick, com quatro horas de duração. Mesmo assim, é uma maravilha cinéfila.

– Spartacus (EUA, 1960)
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: Kirk Douglas, Jean Simmons, Lawrence Olivier, Peter Ustinov, Charles Laughton
Duração: 198 minutos

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