Spartan

29/03/2005 | Categoria: Críticas

David Mamet entrega ótimo roteiro de espionagem filmado com elegância e inteligência

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Em certo sentido, o roteirista, diretor e dramaturgo David Mamet pode ser considerado o mais legítimo sucessor de Alfred Hitchcock. Na aparência, os filmes que ele escreveu ou dirigiu não exibem tanta semelhança, mas na abordagem de cada projeto, Mamet exibe uma pureza e uma economia raros de encontrar na indústria cinematográfica. “Spartan” (EUA, 2004), um thriller policial com conotações políticas que invade o mundo da espionagem internacional, é um exemplar clássico de David Mamet: um ótimo roteiro filmado com elegância e inteligência.

A semelhança maior entre Hitchcock e Mamet é o método de trabalho. Os dois sempre tiveram o hábito de estudar exaustivamente os roteiros antes de entrar nos sets para filmar. Hitchcock chegava a dizer que filmar era a parte mais tediosa do processo de conceber um longa-metragem. Para diretores como Mamet, essa sentença soa como música. O projeto de cinema de David Mamet é rígido: um cineasta deve escrever e organizar o filme inteiro, plano por plano, antes de ir para as locações. Lá, deve simplesmente registrar o que foi planejado antes. Por isso, os filmes de David Mamet, como os de Hitchcock, não têm cenas excluídas. Eles têm o filme pronto na cabeça, antes de filmar uma única polegada.

”Spartan” tem o estilo de David Mamet impresso a cada plano. Para começar, os diálogos. Todo bom conhecedor de cinema sabe que ele é um dos roteiristas mais requisitados de Hollywood, e que a maior parte dos textos de sua autoria se recusam a entregar a ação de mão beijada, com diálogos explicativos que explicitam tudo aquilo que a platéia pode muito bem intuir, se for colocada para pensar. Nesse sentido, David Mamet é um mestre. Para compreender o cinema dele, o espectador tem que refletir, ligar fatos e detalhes mostrados nas cenas e montar o quebra-cabeça por si só. “Spartan” não foge à regra.

O filme é um exemplo perfeito de como Mamet sabe montar uma trama complexa, com personagens interessantes, sem entregar todo o enredo na boca do espectador. Não. David Mamet exige suor, exige que o público raciocine junto com os personagens. Não é uma tarefa complicada, em teoria, mas na prática a coisa é outra. Hollywood está acostumada a tratar o espectador como um doente terminal que deve receber o alimento na boca, já mastigado. Quando um filme exige que o sujeito coma e mastigue por conta própria, ele acha ruim e reclama. Não poderia ser diferente, poderia?

Em “Spartan”, o enredo giram em torno de Robert Scott (Val Kilmer), um oficial do Serviço Secreto. Ele recebe uma missão complexa: chefiar o resgate de uma adolescente norte-americana que acaba de ser seqüestrada. Não é uma adolescente comum. O filme jamais menciona a palavra “presidente”, mas o espectador que pensar junto com David Mamet vai saber que a garota é filha do homem mais poderoso dos EUA. A menina era vigiada pela CIA, mas mesmo assim os raptores conseguiram levá-la. A investigação de Scott mostra que o caso pode, ou não, ter relação com uma surpreendente rede de prostituição de garotas louras e menores de idade para países do Oriente Médio.

Parece loucura? Sim, parece. Robert Scott também acha isso. Mas ele é um soldado com a missão de resgatar a garota, Laura Newton (Kristen Bell), a qualquer custo, esteja onde estiver. E faz aquilo que sabe fazer de melhor: investiga, às vezes com brutalidade. Como homem solitário, um militar sem família que recusa proximidade com colegas, Scott não tem ninguém com quem discutir a investigação. Ele não tem um parceiro. Assim, David Mamet afasta “Spartan” da maioria dos thrillers de espionagem de Hollywood, pois os parceiros, nesse tipo de filme, servem basicamente para dialogar com o protagonista, de forma a explicar com palavras para o espectador todas as minúcias do enredo. É dessa forma que o “hospital Hollywood” alimenta seus doentes: com parceiros, ou amigos íntimos.

Construindo um policial solitário, silencioso e impulsivo, David Mamet obriga a platéia a pensar rápido para não perder o fio da meada. Em certo momento, por exemplo, Scott fica informado de que um brinco da garota seqüestrada foi encontrado em uma casa. Parece bobagem, mas nas mãos da pessoa certa, a informação pode provocar uma reviravolta no caso – e se o espectador não pensar porque isso acontece, nenhum personagem vai ensiná-lo. O roteiro caminha como um quebra-cabeças, os diálogos são afiados, e a montagem elegante e rápida garante o ritmo certo; não é tão veloz que a espectador fique sem tempo para entender a história, e nem tão lenta que prejudique o andamento do enredo.

Em resumo, “Spartan” é diversão de qualidade, coisa fina tramada por um diretor que não é gênio, mas um esforçado operário da mente. De quebra, o longa-metragem oferece uma visão peculiar do panorama de relações internacionais e do submundo da espionagem. É verdade que há uma boa dose de paranóia nessa visão, mas convém não esquecer que “Spartan” foi escrito logo após o fatídico 11 de setembro de 2001, e por um norte-americano (um americano democrata, crítico, inteligente e bem-informado, mas ainda assim um americano).

O lançamento de “Spartan” no Brasil é da Europa Filmes. O disco mantém o padrão da distribuidora, com som Dolby Digital 5.1 e imagem em tela cheia, com cortes laterais. Há um trailer, biografia do diretor e dos atores (em texto) e uma compilação de entrevistas do elenco e de David Mamet, além de um segmento de 9 minutos de cenas de bastidores, quer mostram Mamet dirigindo no set. O material é o Eletronic Press Kit (ou EPK), e consiste de cenas brutas distribuídas à imprensa, passando longe de ser um documentário. As entrevistas são banais, e os bastidores não passam de curiosidade.

– Spartan (EUA, 2004)
Direção: David Mamet
Elenco: Val Kilmer, Derek Luke, Kristen Bell, William H. Macy
Duração: 107 minutos

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