Speed Racer

30/09/2008 | Categoria: Críticas

Ambicioso em técnica, versão em carne, osso e CGI do desenho japonês exagera no visual e tem pouca densidade dramática

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Durante pouco mais de 30 anos, a Warner manteve Stanley Kubrick sob contrato, dando-lhe liberdade criativa e dinheiro para que ele pudesse construir a reputação de gênio do cinema. Depois que o nova-iorquino morreu, em março de 1999, o estúdio não demorou a eleger os irmãos Larry e Andy Wachowski como sucessores. A dupla, então louvada tanto por doutores em Física Quântica quanto por nerds fãs de quadrinhos, aceitou de bom grado a nova posição, adotando comportamento idêntico ao do diretor de “Laranja Mecânica”: projetos cujos desenvolvimentos levam anos a fio, raríssimas aparições públicas ou entrevistas. Ambicioso em técnica e oco em densidade dramática, “Speed Racer” (EUA, 2008) falha na tarefa de estabelecer os dois irmãos como a versão 2.0 de Kubrick. Apesar das aparências, Larry e Andy conseguem ser, no máximo, uma versão infantilizada, espalhafatosa e com a cuca cheia de ácido lisérgico do grande realizador.

A versão em carne, osso e CGI do lendário desenho animado japonês foi cuidadosamente concebida para, entre outras coisas, consolidar a posição de renovadores da linguagem cinematográfica dos Wachowski, conseguida com a trilogia “Matrix” (1999-2003). Larry e Andy levaram cinco anos para desenvolver o projeto, temporada interrompida apenas por correções anônimas em scripts alheios (“Os Invasores”) e para a confecção do roteiro da distopia futurista “V de Vingança” (2005). Nesta temporada de reclusão, os Wachowski não deram nenhuma declaração pública. Eles foram menos lembrados na mídia por seus dotes cinematográficos do que pelos rumores cada vez mais insistentes de que Larry, outrora o mais falante dos dois, teria feito cirurgia para mudança de sexo (a Warner nega, mas as fotos das raras aparições do cineasta não deixam dúvida quanto ao aspecto feminino do rapaz).

Se o comportamento recluso de ambos lembra Stanley Kubrick, o trabalho permanece muito distante da altíssima e uniforme qualidade apresentada pelo diretor de “2001” em toda a carreira. “Speed Racer” deixa de lado o subtexto filosófico-religioso da ambiciosa trilogia cibernética e assume, sem constrangimento, a pecha de diversão escapista do século XXI para toda a família. Os dois projetos não poderiam ser visualmente mais distintos. “Matrix” tinha preocupação com o realismo e imaginava um futuro sombrio, negro, para a humanidade. “Speed Racer” aposta na estilização extravagante da realidade, criando um universo multicolorido e extravagante, que tem as cores chapadas e sem profundidade de um gibi impresso em gráfica vagabunda. Larry e Andy Wachowski dizem que a intenção era criar uma espécie de desenho animado com atores de carne e osso, e isso foi cumprido. O problema é que o cartoon de carne e osso dos Wachowski é brega e kitsch até o último fio de cabelo.

O ponto em comum entre a obra pregressa da dupla e “Speed Racer” parece ser a inovação tecnológica. Desde o primeiro “Matrix” (1999), os Wachowski ganharam fama de sempre elevar a tecnologia de CGI, a cada nova obra, até um novo patamar. Para “Speed Racer”, eles investiram na criação de um sistema de foco em camadas, nos cenários digitais, que emulasse a ausência de profundidade de um desenho animado tradicional – a preferência por cores básicas e chapadas, flat, enfatiza essa aparência 2D. O bom elenco reunido por eles gravou todas as cenas em estúdio forrado de paredes azuis, e todos os sets e objetos cênicos foram criados em computador, técnica usada em filmes como “Capitão Sky” e “Sin City”. A diferença para estes filmes é que os Wachowski investiram na criação de um universo psicodélico, com profusão de cores berrantes (púrpura, vermelho, azul, amarelo) e luzes fluorescentes.

Aliada à montagem hiper-veloz e aos efeitos sonoros bombásticos, esta técnica deixa o espectador com a impressão de estar preso dentro de uma máquina de pinball. As extensas cenas de corrida de carros, que também desprezam o realismo (os veículos pulam como sapos, escalam paredes como aranhas e giram em torno do próprio eixo, como robôs desgovernados), são bem produzidas, mas não prezam pela clareza narrativa, de modo que a platéia quase sempre fica desorientada em relação à ação dramática – os corredores sabem, mas nós nunca sabemos direito quem está na frente e qual a posição de um corredor em relação aos demais, de modo que só nos resta esbugalhar os olhos e torcer para não ter um ataque de epilepsia, enquanto as luzes estroboscópicas giram em velocidade estonteante à nossa frente. Frequentemente, a reação acaba sendo algo como “Nossa, que troço colorido! O que diabos estou vendo mesmo?”.

A estética do filme, apesar dos exageros, é um ponto forte, porque original. O enredo, por outro lado, deixa muito a desejar. A história mantém fidelidade às tramas do desenho dos anos 1970, e consegue abrir espaço para temas importantes da obra de Larry e Andy Wachowski – a questão do excesso de imagens do mundo contemporâneo, as múltiplas identidades do sujeito pós-moderno, a ganância das corporações – mas não subtexto emocional nenhum. É um filme sem alma, oco e chapado, assim como o visual. Os irmãos Wachowski até tentam, mas não conseguem explorar o potencial dramático da história, em que Speed Racer (Emile Hirsch) é um promissor piloto de corridas que hesita em assinar contrato com uma grande fábrica de automóveis, e prefere participar de corridas perigosas com um carro construído pelo próprio pai (John Goodman). A trama inclui um misterioso corredor mascarado (Matthew Fox), que pode (ou não) ter ligação com um trauma familiar do passado.

Embora seja certinho e simpático, o personagem principal jamais consegue criar laços fortes de empatia com a audiência. Como o filme privilegia as longas cenas de ação, os conflitos emocionais experimentados pelo corredor não são bem elaborados, e não chegam a cativar. A culpa pode ser debitada ao roteiro frágil e sem substância dramática, pois o elenco se sai muito bem, apesar da conhecida e compreensível dificuldade que os atores têm para contracenar com paredes azuis. Hirsch e Goodman, ao lado de Christina Ricci (que faz a namorada do herói) parecem bem naturais, e se beneficiam do fato de terem mais tempo em cena, algo que prejudica Susan Sarandon (mãe do clã Racer). Há ainda o irmão gorduchinho do protagonista e o macaco de estimação da família, uma subtrama claramente inserida para atrair a garotada jovem ao cinema, mas que repete um clichê insuportável das aventuras infanto-juvenis de Hollywood: crianças pequenas e animais de estimação são sempre utilizados como contraponto cômico para as cenas de voltagem mais elevada. Com US$ 100 milhões, os Wachowski podiam ter feito muito melhor.

A edição nacional do DVD, da Warner, traz o filme com enquadramento original preservado (widescreen anamórfico), boa qualidade de áudio (Dolby Digital 5.1) e dois featurettes enfocando os bastidores da produção.

– Speed Racer (EUA, 2008)
Direção: Larry e Andy Wachowski
Elenco: Emile Hirsch, Matthew Fox, Susan Sarandon, John Goodman
Duração: 129 minutos

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