Sr. e Sra. Smith

23/11/2005 | Categoria: Críticas

Humor e ação são como água e óleo no violento longa-metragem de Doug Liman

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Um filme de ação ou uma comédia sobre o casamento? A dúvida sobre qual o gênero que funcionaria como fio condutor de “Sr. e Sra. Smith” (Mr. and Mrs. Smith, EUA, 2005) deve ter ficado na cabeça do diretor Doug Liman até a fase de montagem, muito depois de terminadas as filmagens. Assim sendo, acabou passando ao produto final um ar de indecisão que compromete bastante o resultado final. Há momentos engraçados e as habituais seqüências de tiroteio, explosões e perseguições de carro. Mas neste filme, as duas coisas foram mantidas em compartimentos individuais, bem separadas. Não se misturam. Como água e óleo.

A idéia do projeto parece ter sido aproveitar a moldura narrativa de um filme clássico de ação para realizar, na verdade, uma sátira sobre problemas conjugais. Nada melhor, para isso, do que chamar duas das pessoas mais bonitas e bem pagas de Hollywood para representar um casal em crise: Angelina Jolie e Brad Pitt, nomes obrigatórios em listas de “mais belos do planeta”, comparecem para mostrar que gente linda como eles também tem os mesmos problemas cotidianos de nós, pobres mortais.

O filme abre com cenas de uma sessão de terapia para casais. Jane (Jolie) e John Smith (Pitt) estão casados há cinco ou seis anos e o casamento parece morno e sem graça. Eles são um casal de classe média alta, têm uma bela casa, dois ótimos carros, e freqüentam empregos tediosos. Na aparência. Na verdade, os dois são assassinos profissionais que cumprem suas tarefas – assassinar gângsteres ou mafiosos, geralmente gente ruim, o que é bem curioso, já que matadores não costumam ser dados a ataques de ética – antes do jantar com os vizinhos. Até que, em missões separadas, os dois são enviados para eliminar o mesmo alvo, e acabam entrando em rota de colisão.

O enredo não é original. O exemplo mais óbvio que vem à mente é “True Lies”, de James Cameron, em que Arnold Schwarzenegger bancava o agente secreto obrigado a revelar sua identidade a uma chocada Jamie Lee Curtis, que sempre achou que o marido era um pacato vendedor. Se a semelhança ainda não parece óbvia, convém lembrar de uma seqüência de dança (Cameron é tão exímio montador que conseguiu transformar Schwarzenegger em um bom dançarino de tango!) praticamente copiada, em “Sr. e Sra. Smith”. A cópia pura e simples jamais é bom sinal.

E olha que o maior problema não é esse. Talvez por problemas com o roteiro, que foi mexido por pelo menos quatro profissionais diferentes, o resultado final de “Sr. e Sra. Smith” separa demais o humor e a ação, dois elementos que deveriam caminhar de mãos dadas. É curioso perceber que o diretor Doug Liman, tão hábil em misturar as duas coisas (o baladeiro “Vamos Nessa”, de 1999, tem cenas de ação frenética que são também engraçadas), dessa vez naufragou na tentativa. As cenas de ação são longas, barulhentas, e seguem a cartilha dita moderna: câmera na mão, imagens tremidas, cortes rápidos. Mas não há humor.

A porção comédia do filme entra em cena quando, de tempos em tempos, a ação pára e somos levados para dentro do consultório do psicanalista com o casal Smith. Aí sim, Brad Pitt e Angelina Jolie têm chance de mostrar que o casal tem química. Mas essas são cenas gratuitas, que entram no longa-metragem apenas para cumprir a cota da porção comédia. Essa diferença de ritmo entre as duas partes acaba esticando demais a duração: “Sr. e Sra. Smith” é longo, muito longo. A última seqüência parece nunca acabar, desemboca num beco sem saída e termina com um final implausível, citação às avessas de “Bonnie & Clyde” que o diretor não sabe como filmar – a câmera lenta tenta tornar o clima melancólico, mas só consegue realçar ainda mais a impossibilidade do momento.

Para ser justo, é preciso dizer que o filme está longe de ser um desastre total. A primeira metade, em que podemos acompanhar os momentos difíceis do casal e apreciar os dons violentos de cada um, funciona direitinho. O filme começa mesmo a desandar a partir do momento em que ambos recebem a ordem de eliminar o outro. Nesse momento, o filme perde contato com o elemento “conflito de casal” e torna-se uma aventura barulhenta e monótona.

Por fim, gostaria de chamar atenção para um elemento curioso na cena de sexo que marca a inevitável reconciliação do casal. Observe como o diretor Doug Liman sonoriza a cena, com um monte de cliques e pancadas. Ou seja, é sexo (selvagem, OK) sonorizado como uma luta de boxe, o que não deixa de ser um depoimento interessante sobre o estágio anestesiado das emoções nessa fábrica de sonhos que é Hollywood: para se poder sentir alguma coisa, só na base da porrada mesmo.

O DVD para locação da Fox é simples, contendo apenas o filme, com imagem (wide 2.35:1) e som (Dolby Digital 5.1) ótimos.

– Sr. e Sra. Smith (Mr. and Mrs. Smith, EUA, 2005)
Direção: Doug Liman
Elenco: Brad Pitt, Angelina Jolie, Vince Vaughn, Adam Brody
Duração: 120 minutos

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