Stanley Kubrick: Imagens de uma Vida

05/05/2006 | Categoria: Críticas

Documentário disseca todos os filmes de um dos mais reclusos e geniais diretores do cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Embora não contenha nenhuma referência à expressão, o documentário “Stanley Kubrick: Imagens de uma Vida” (Stanley Kubrick: A Life in Pictures, EUA, 2001) funciona como uma espécie de biografia autorizada do cineasta nova-iorquino. Foi dirigido pelo cunhado do lendário diretor, Jan Harlan, responsável pela produção dos três últimos longas-metragens concebidos pelo mestre. Além disso, é bastante hábil em contornar as alfinetadas dirigidas contra ele por parceiros de trabalho, como Kirk Douglas, que sempre o acusou de ter péssimo caráter (Douglas afirma que Kubrick queria assinar o roteiro de “Spartacus” no lugar de Dalton Trumbo, impedido de fazê-lo por estar na lista negra do senador Joseph McCarthy, em 1960).

Apesar do clima chapa branca, porém, “Imagens de uma Vida” ainda é um ótimo documentário, pois põe em contexto histórico todas as polêmicas que cercaram os filmes de Kubrick – não foram poucas, já que literalmente todos os filmes dele a partir de “Lolita”, em 1962, até o derradeiro “De Olhos Bem Fechados”, em 1999, estiveram envolvidos em pesados debates críticos – e apresenta comentários esclarecedores sobre cada uma delas, feitos por gente do calibre de Martin Scorsese e Steven Spielberg.

O projeto do filme nasceu com a morte de Kubrick, em março de 1999. O diretor tinha 70 anos e faleceu em casa, na Inglaterra, onde morava há quatro décadas. Harlan, que guardava um fabuloso acervo de imagens de bastidores dos filmes de Kubrick e tinha acesso irrestrito não apenas aos arquivos do cineasta, mas também aos parentes, decidiu prestar uma última homenagem. O filme foi ansiosamente aguardado por fãs e cinéfilos, já que Kubrick, por ser um notório recluso que raramente dava entrevistas, dificilmente falava sobre filmes.

Durante dois anos, Jan Harlan compilou os filmes caseiros de Kubrick – alguns são curiosidades históricas, como as imagens do diretor enquanto criança, dançando e tocando piano, ou as conversas amistosas com as filhas nos jardins da mansão rural inglesa onde vivia – e procurou cineastas, críticos de cinema, atores que trabalharam com Kubrick e membros das equipes técnicas dos filmes que ele fez. Ao todo, foram 50 depoimentos, de gente como Woody Allen, Jack Nicholson, Tom Cruise, Douglas Trumbull (o homem dos efeitos especiais de “2001”) e Richard Schickel (crítico da revista Time, um dos mais conceituados do mundo).

O documentário, em si, tem um formato convencional. Chama a atenção, sobretudo, por evitar mergulhos na vida pessoal do cineasta, o que é feito apenas na breve abertura sobre a infância do cineasta e, depois, em rápidas pinceladas sobre o relacionamento dele com a família. De resto, o fio condutor de “Imagens de uma Vida” são os treze longas-metragens dirigidos por Kubrick. Cada um deles é objeto de análise demorada, em que se explica e comenta o contexto de produção, as polêmicas e o trabalho de Kubrick em cada filme.

Dessa forma, é possível saborear entrevistas deliciosas e informações esclarecedoras. A respeito do clássico “2001”, por exemplo, ficamos sabendo que a crítica Pauline Kael, maior autoridade na profissão durante a virada dos anos 1960/70, considerou-o “o filme amador mais caro da história”. Sobre o mesmo filme, Woody Allen diz que só gostou de “2001” depois de vê-lo por três vezes, em um espaço de vários anos. Allen faz em seguida um mea culpa devastador e muito pouco humilde: “Foi uma das raras vezes em que tive que engolir que um diretor estava muito à frente de mim”.

“Imagens de uma Vida” também esclarece algumas lendas que sempre circularam entre os cinéfilos fãs de Kubrick, como a história de que a Nasa teria desenvolvido, a pedido dele, lentes especiais para que pudesse filmar as cenas interiores de “Barry Lyndon” (1975) à luz de velas. Na verdade, Kubrick não chegou a tanto. Ele apenas pesquisou incansavelmente uma forma de filmar sem utilizar luzes artificiais e acabou descobrindo que a empresa Zeiss havia, anos antes, desenvolvido uma lente especial para que a Nasa pudesse usar no telescópio Hubble, que fotografava do espaço em condições muito ruins de iluminação. Com o equipamento adaptado a uma câmera rara e já fora de uso, Kubrick acabou conseguindo o que parecia impossível.

Aliás, conseguir o impossível era normal para ele. Numa das poucas vezes em que o filme invade a vida privada do cineasta, o veterinário da família conta que, certa vez, pediu a Kubrick que medisse a quantidade de água bebida por um dos gatos da casa, então doente. Kubrick respondeu ser impossível, já que todos os felinos – ele tinha vários – bebiam da mesma tigela de água. Algumas horas depois, quando o médico já esquecera o incidente, recebeu um telefonema de Kubrick, que descobrira uma maneira de conseguir a informação: ele passara a contar quantas lambidas o gato doente dava na água. Calculando também a quantidade de água absorvida por cada, chegara à quantidade certa.

O episódio ilustra bem como Stanley Kubrick era maníaco por detalhes e fazia disso uma verdadeira obsessão. É provável que essa abordagem, associada ao tratamento de estrela que a Warner sempre reservou para ele (a empresa, convencida desde sempre que Kubrick seria um dia reconhecido como um dos maiores gênios do cinema, não hesitava em liberar orçamentos maiores do que o habitual para que ele desenvolvesse seus filmes com grau de liberdade que nenhum outro diretor tinha), tenha feito de Kubrick um cineasta sem paralelo. Isso, “Imagens de uma Vida” disseca muito bem.

O DVD saiu no Brasil com a chancela da Warner. O disco é simples e sem extras, mas traz o documentário em excelente cópia, com ótima qualidade de imagem (wide 1.66:1 letterboxed) e som (Dolby Digital 5.1). Não há opção de áudio dublado.

– Stanley Kubrick: Imagens de uma Vida (Stanley Kubrick: A Life in Pictures, EUA, 2001)
Direção: Jan Harlan
Documentário
Duração: 142 minutos

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