Star Wars II: Ataque dos Clones

28/03/2005 | Categoria: Críticas

Longa une, com fantástico visual futurista, investigação intergalática bacana e romance abestalhado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Há dois filmes dentro de “Star Wars II: Ataque dos Clones”. O primeiro é uma aventura empolgante, com toques de film noir futurista, atores experientes e bons duelos de sabres de luz. O segundo é um romance açucarado, travado entre dois iniciantes e com diálogos que parecem roubados de novela mexicana. A soma das duas tramas resulta numa espécie de cruzamento de “Blade Runner” com “A Noviça Rebelde”, com um lado negro e outro cor-de-rosa. “Ataque dos Clones” é um filme irregular, mas bem mais sombrio do que o fraco “A Ameaça Fantasma” (1999).

Conforme prometido, o pai da trilogia mais famosa da história do cinema atacou de forma direta os pontos mais fracos do Episódio Um. Primeiro, contentou-se em desenvolver as situações do enredo e decidiu contratar um roteirista para escrever os diálogos do novo trabalho (as falas dos personagens eram parte do problema de “A Ameaça Fantasma”, um defeito que Jonathan Hales realmente conseguiu eliminar). Lucas também imprimiu à ambientação da trama um formato mais sombrio e adulto, sem economizar nas cenas mais violentas. Além disso, retirou o irritante Jar Jar Binks da linha de frente, pondo-o numa posição de coadjuvante de luxo.

Essas decisões, aliadas à fantástica tecnologia de filmagem, feita de forma 100% digital, com câmeras desenvolvidas especialmente para o filme, transformam “Ataque dos Clones” no mais interessante episódio da série desde “O Império Contra-ataca”, de 1980. Isso não quer dizer que esta película seja uma obra-prima. “Episódio Dois” tem, claro, muitos defeitos, mas é amplamente capaz de suprir as exigências dos mais fanáticos.

O primeiro aspecto a chamar a atenção no novo “Star Wars”, porém, não é o roteiro, as atuações ou os duelos de esgrima a laser. Escaldados pela derrota no Oscar de 2000 em todas as categorias visuais (para o fenômeno “Matrix”), os técnicos da Industrial Light & Magic dessa vez capricharam além da conta. A direção de arte primorosa e a tecnologia digital de captação de imagens deixaram caminho livre para o diretor de fotografia, David Tattersal, fazer literalmente o que desejasse. Assim, as imagens conseguem uma homogeneidade impressionante, mesmo quando saltam de cenários improváveis para outros ainda mais delirantes. Há grande profusão de tons crepusculares (típicos dos grandes faroestes, uma influência confessa de Lucas), mas eles encaixam perfeitamente no visual desenvolvido para cada um dos cinco principais planetas em que a ação está concentrada.

São mundos completamente diferentes uns dos outros. As escuras seqüências de tempestade e mar revolto do planeta longíquo de Kamino dividem espaço com as cavernas soturnas de Geonosis, como cenário da trama número 1. Os límpidos campos verdejantes pontilhados de cachoeiras de Naboo sediam a trama 2. Os desertos áridos de Tatooine são palco de uma trágica reunião familiar dos Skywalker. Há ainda o tráfego aéreo impressionante e os prédios futuristas de Coruscant, o planeta-capital da República, repleto de naves reluzentes, novinhas em folha.

Antes que os fãs comecem a reclamar, cabe ressaltar que o raciocínio de Lucas, ao mostrar o visual de naves, palácios, bibliotecas e laboratórios da República intergalática como se tivessem acabado de sair de um lava-jato, está correto. Na trilogia original, é bom lembrar que a ação se passa muitos anos depois, quando o Império substituiu a ordem reinante e lançou toda a galáxia num caos desgovernado. Daí a diferença entre as esculhambadas naves espaciais da primeira trilogia – velhas, enferrujadas e cheias de remendos que vazam óleo – e os sofisticados bólidos zero quilômetro que aparecem nos novos filmes, num período histórico anterior. A idéia é coerente porque reflete o avanço tecnológico da época rica em que viviam os cavaleiros Jedi, em oposição à decadência gerada pelo domínio do lado negro da Força.

Como todo fã já está cansado de saber, a ação de “Ataque dos Clones” começa dez anos após os acontecimentos de “A Ameaça Fantasma” (exatos 20 anos antes da trilogia original). Nesse momento, consolida-se na República um movimento separatista obscuro, liderado por um ex-cavaleiro Jedi rebelado, o Conde Dookan (Christopher Lee). Com medo de existirem em número insuficiente para conter a nova ameaça, até mesmo os Jedi pensam na possibilidade de pedir autorização do Senado intergalático para a criação de um exército, para o eventual caso de uma guerra. Nesse cenário, a antiga rainha de Naboo e agora senadora, Padmé Amidala (Natalie Portman), é uma feroz opositora do tal esquadrão. Justo nesse momento, ela sofre um atentado. Para protegê-la, os Jedi enviam Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) e Anakin Skywalker (Hayden Christensen) a Coruscant.

Após evitar que uma caçadora de recompensas consiga matá-la, a dupla se divide – e o filme se reparte em dois (“se até a Força tem um lado negro, por que não os meus filmes?”, deve ter pensado George Lucas). Obi-Wan fica encarregado de investigar a origem do atentado a Amidala; Anakin precisa protegê-la. As duas tramas correm em paralelo e de forma bem distinta. A investigação do Jedi mais velho segue a trilha dos bons quebra-cabeça fílmicos, cheia de lances inteligentes, brigas e perseguições memoráveis. São os melhores momentos de “Ataque dos Clones”

Do outro lado da galáxia, Anakin e Amidala viram amantes num cenário paradisíaco, ao mesmo tempo em que ele tem pesadelos recorrentes envolvendo a mãe, Shmi (Pernilla August). É um romance proibido dentro da Ordem dos Jedi, que são obrigados a manter o celibato. O único mérito desse momento Star-Wars-para-garotas está em mostrar ao espectador a personalidade complexa de Ankin: sua simpatia pela ditadura como forma de governo, a impaciência diante do tutor Obi-Wan, a consciência do imenso talento que possui e a enorme carga de angústia, impaciência e fúria.

Tudo isso mostra que Anakin já está perigosamente próximo do lado negro, o que vai se logicamente se confirmar no Episódio Três, quando ele se transforma em Darth Vader, ícone da maldade cinematográfica. Mas aqui, o enfoque maior recai no início das Guerras Clônicas, lendário período de batalhas que vai praticamente extinguir os cavaleiros Jedi e transformar a República num Império, controlado com mão pesada pelo hoje afável senador Palpatine (Ian McDiarmid).

Palpatine, aliás, é fascinante. Dá para vê-lo como uma espécie de exímio enxadrista, capaz de manipular amigos e inimigos, muitos de forma inconsciente, para no final conseguir seus objetivos das formas mais improváveis. Praticamente tudo o que assistimos em Episódio Dois faz parte de um gigantesco quebra-cabeças – a trilogia original, em seu princípio – que está sendo montado desde “A Ameaça Fantasma”. Aqui, se por um lado ficamos conhecendo algumas peças com mais clareza (a lenta transformação de Anakin em Darth Vader e a perda de controle da República pela Ordem dos Jedi), a todo momento surgem outras que nos surpreendem (o mistério sobre a identidade do traidor entre os Jedi, o enigma sobre a origem do exército de clones).

Vislumbrando os cinco filmes da série cinematográfica como parte de um grande, complexo e ambicioso painel mitológico da humanidade, fica claro que George Lucas tem o controle de tudo o que vemos. Até mesmo para o tom infantil e para as imagens carnavalescas de “A Ameaça Fantasma” ele tem uma explicação: diz que o filme mostrava o surgimento de uma criança talentosa e capturava um momento iluminado da galáxia Star Wars. Faz sentido. Bem como faz sentido o final bacana deste “Ataque dos Clones”, cujas tramas paralelas desembocam numa epílogo interessante: um confronto espetacular entre dezenas de cavaleiros Jedi e criaturas monstruosas numa arena de gladiadores intergalática, em Geonosis.

Lá, podemos conferir a economia e a letalidade dos golpes de Mace Windu (Samuel L. Jackson), o número dois na hierarquia dos Jedi. Onde está o número 1? Ele aparece logo depois, no mais espetacular duelo de sabres de luz da série, uma briga em altíssima velocidade entre o anão verde Yoda e o Jedi renegado Conde Dooku. E se você acredita que uma briga entre um ator de 80 anos e um boneco verde de um metro de altura é coisa de filme de Ed Wood, não deixe de conferir “Ataque dos Clones”. Afinal de contas, George Lucas criou a figura do dublê digital para substituir os dois num combate tão rápido que os olhos mal podem acreditar no que vêem.

A obsessão de George Lucas para detalhes está explícita no cuidado técnico do DVD. A transposição de som e imagem é perfeita, e existem seis horas de extras (incluindo um comentário em áudio e mais de três horas de documentários e cenas excluídas) para degustar. Entre os muitos featurettes, chama a atenção um (6 minutos) que conta a suposta origem do robô R2-D2. É um piada engraçadíssima, que tem depoimentos hilariantes de gente como Steven Spielberg e Francis Ford Coppola.

Os doze segmentos curtos e temáticos que cobrem os bastidores do filme também são legais, e os dois documentários principais, ou o prato mais importante deste banquete, satisfazem o fã mais exigente. O que faltou? Talvez um bom featurette sobre a questão das salas de exibição digitais, cujo alto preço gera uma grande dificuldade de expansão. Mas aí talvez já fosse pedir demais.

– Star Wars II: Ataque dos Clones (Star Wars — Episode 2: Attack of the Clones, EUA, 2002)
Direção: George Lucas
Elenco: Ewan McGregor, Hayden Christensen, Natalie Portman, Samuel L. Jackson
Duração: 144 minutos

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