Star Wars III: A Vingança dos Sith

31/10/2005 | Categoria: Críticas

George Lucas encerra hexalogia com cenários digitais espetaculares e diálogos frágeis

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Assistir a “Star Wars III: A Vingança dos Sith” (Revenge of the Sith, EUA, 2005) na ordem original de produção dos seis filmes da saga – ou seja, a última de seis produções que, cronologicamente, é a terceira peça da série – parece mais um exercício de quebra-cabeças do que o simples ato de sentar e apreciar um bom espetáculo cinematográfico. Os fãs sabem como o longa-metragem vai terminar e conhecem o estilo de George Lucas; ou seja, já sabem o que esperar da obra. “A Vingança dos Sith” está acima de classificações como “bom” ou “ruim”. O foco de interesse está nos detalhes. Há muitas perguntas que os cinco outros filmes da saga espacial deixaram no ar. As pessoas não querem saber o que vai acontecer; querem saber como vai acontecer, e se o Episódio Três responde a todas essas perguntas.

Quer exemplos? Aí vai: por que os robôs C-3PO e R2-D2 não se lembram, no início do filme de 1977, que já estiveram no planeta Tatooine antes? Que mistério envolve o desaparecimento físico dos corpos dos Jedi Obi-Wan Kenobi e Yoda, depois que eles morrem, respectivamente nos Episódios Quatro e Cinco da série? Em que circunstância é decidida a separação dos gêmeos Luke e Leia Skywalker? Se você acompanha a série “Star Wars” e já assistiu aos cinco filmes anteriores, deve estar com todas (ou algumas) essas perguntas na cabeça.

Nesse sentido, George Lucas faz um excelente trabalho ao juntar as peças anteriores e posteriores das duas trilogias. “A Vingança dos Sith” responde a tudo isso e mais. Também está repleto de personagens e objetos que os mais fanáticos vão reconhecer dos filmes cronologicamente mais adiantados. Por exemplo, a nave Millenion Falcon, de Han Solo, pode ser vista estacionando no canto inferior direito, na imagem panorâmica que mostra os Jedi retornando da batalha espacial que abre o filme.

Lucas deve ter tido muito trabalho para encaixar tantas informações no meio do quebra-cabeça “Star Wars”, mas o fez com carinho e cuidado palpáveis pelo universo que criou. “A Vingança dos Sith” é um legítimo representante do universo dos sabres de luz, com todos os elementos positivos e negativos que essa afirmação representa. Os cenários digitais suntuosos e a direção de arte espetacular – toda a parte visual da película – são seus pontos fortes. Do lado oposto, os diálogos rasos e simplistas deixam um rombo nas pretensões adultas da saga, e ao lado das atuações em geral (e a de Hayden Christensen em particular) são elementos que deixam a desejar. Mas vamos com calma. Cada um desses pontos vai merecer um comentário específico mais à frente.

“A Vingança dos Sith” flagra a República em guerra. Os clássicos letreiros de abertura da série informam que os exércitos separatistas cresceram e atacam as forças da República em todos os pontos da galáxia. Em Coruscant, uma frota comandada pelo General Grievous (espécie de vilão mecânico tuberculoso que é, na verdade, um alienígena escondido na carcaça de um andróide, um personagem que sinaliza engenhosamente a criatura que Anakin Skywalker irá se tornar) rapta o chanceler Palpatine (Ian McDiarmid). Os cavaleiros Jedi Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) e Anakin Skywalker (Hayden Christensen) são destacados para resgatá-lo. Eles o fazem em uma batalha que começa com um vôo alucinante e termina em um confronto mortal com o Conde Dookan (Christopher Lee).

No restante do filme, o espectador vai acompanhar a tortuosa descida de Anakin para o lado negro da Força. O jovem Skywalker vive duas vidas bem distintas. Aos olhos de todos, ele é o mais talentoso dos cavaleiros Jedi, atingindo finalmente o auge dos seus poderes, embora ainda impulsivo e nervoso. Secretamente, vive um casamento com a senadora de Naboo, Padmé Amidala (Natalie Portman). Ela está grávida. E Anakin tem recorrentes pesadelos envolvendo o destino da mulher. São esses sonhos, que ele reconhece como premonições semelhantes ao que ocorrera com sua mãe (em “Ataque dos Clones”), a causa do medo que lhe assombra a alma. O medo é o portal decisivo para a transformação de Anakin em Lorde Sith.

A direção de arte de “A Vingança dos Sith” é espetacular. Envolveu tanto trabalho que George Lucas nomeou não apenas um, mas doze figuras-chave no departamento. Eles cuidaram de desenvolver dezenas de roupas, veículos, naves espaciais e armas para os milhares de atores, digitais ou não. Além disso, desenharam nada menos do que 72 cenários, quase quatro vezes o habitual para grandes produções de Hollywood. Entre esses cenários estão o mundo subterrâneo rochoso de Utapau, a gigantesca selva de Kashyyyk (lar dos wookies, onde vamos encontrar o gigante peludo Chewbacca) e o planeta vulcânico de Mustafar, onde Anakin e Obi-Wan vão travar o esperado duelo de sabres de luz, no clímax de “A Vingança dos Sith”.

O visual do Episódio Três apresenta influências de “Matrix” (os robôs perfuradores de naves, o veículo usado por Grievous em Utapau) e “O Senhor dos Anéis” (o embate final em meio a rios de lava é algo familiar aos fãs da trilogia de Peter Jackson), mas está muito distante de ser mera cópia desses filmes. Ele é suntuoso, colorido e muito mais sombrio do que os dois filmes anteriores da série. Essa atmosfera sinistra, que muitas vezes ganha representação visual em ambientes escuros, esfumaçados e de tons crepusculares, é um grande acerto. Junto com a progressão cuidadosa de eventos, perfeitamente encaixada com a linha do tempo da série, o requinte visual faz de “A Vingança dos Sith” o melhor filme da nova trilogia.

Isso não quer dizer que o longa-metragem seja uma obra-prima. Para começar, George Lucas estruturou o filme com muitas, e longas, cenas de batalhas. As lutas com sabre de luz, especialmente, são longas demais, e às vezes sentimos que os personagens poderiam passar dias duelando freneticamente sem nenhum resultado prático. Tanto tempo perdido com brigas (que exploram ao máximo o magnífico potencial de áudio da série) deixa pouco espaço para o desenvolvimento dos personagens, o que compromete a complexidade necessária para dar densidade dramática à jornada de Anakin rumo ao lado negro da Força.

Se você junta a ação em excesso ao já conhecido ponto fraco de George Lucas (os diálogos superficiais, bobos, frases feitas que parecem escritas por um semi-analfabeto), causam absoluta falta de credibilidade nos personagens. Isso é especialmente evidente em seqüências que deveriam ser cruciais para o personagem de Anakin. No momento em que ele decide de vez passar para o lado negro, por exemplo, a platéia não consegue se envolver no desespero que o personagem deveria estar sentindo. Tudo acontece de forma rápida, artificial.

Em outro instante, quando Anakin luta contra o antigo mentor, Obi-Wan Kenobi, não vemos dois homens que se amam como irmãos em um embate doloroso. Ali estão apenas dois personagens de um filme, dois bonecos de pendurar na prateleira do quarto, duelando para provocar explosões e forçar o sistema de som ao máximo. Hayden Christensen é um ator, no máximo, mediano; ele não consegue passar a sensação de que é um homem no limite do desespero. Seu olhar não passa raiva, dor ou culpa. Ewan McGregor se sai melhor.

De certa forma, “A Vingança dos Sith” entrega exatamente aquilo que as pessoas esperavam de George Lucas: uma dose generosa de entretenimento, belas imagens e um painel mitológico da humanidade, só que devidamente empacotado em uma embalagem infantilizada, de modo a agradar aos jovens, maioria do público que lota os cinemas no século XXI. Como quase todas as grandes produções atuais de Hollywood, “A Vingança dos Sith” carece daquele elemento mágico que transformou o pioneiro “Uma Nova Esperança”, o Episódio Quatro de 1977, em um fenômeno cultural, de significado mais amplo do que um filme.

Este Episódio Três, ao contrário, é somente uma peça de entretenimento feita para grandes platéias, uma obra para as massas que a maioria do público terá esquecido dentro de um ou dois anos. Isso não desmerece nem uma polegada de celulóide (que George Lucas, por sinal, aposentou de vez), já que nem sempre o bom cinema precisa ser inesquecível. Resta saber se os seis filmes, quando vistos como uma única e gigantesca obra de ficção, podem oferecer uma leitura diferente e mais ambiciosa. Mas isso só o tempo irá dizer.

O DVD duplo da Fox vem, como de praxe, lotado de extras. Tem um documentário (79 minutos), dois featurettes enfocando a jornada de Darth Vader (15 minutos) e os dublês (11 minutos), e mais 15 segmentos curtinhos, de até 5 minutos cada, jogando luz sob aspectos específicos da produção. Há seis cenas cortadas completas, 15 trailers e VTs de televisão, um clipe musical e a apresentação de um demo de jogo. Todo esse material vem no disco 2, com legendas em português.

Já no disco 1, existe um comentário em áudio legendado, que reúne George Lucas e o produtor Rick McCallum com mais três técnicos de efeitos especiais. O filme comparece, é evidente, com certificado THX de qualidade. O som é Dolby Digital 5.1, poderoso, e a imagem aparece no formato original (wide 2.35:a), com qualidade impecável.

– Star Wars III: A Vingança dos Sith (Star Wars –Episode 3: Revenge of the Sith, EUA, 2005)
Direção: George Lucas
Elenco: Ewan McGregor, Hayden Christensen, Ian McDiarmid, Natalie Portman
Duração: 140 minutos

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