Star Wars IV: Uma Nova Esperança

13/09/2006 | Categoria: Críticas

‘Guerra nas Estrelas’ original é um marco histórico do cinema contemporâneo e uma aventura classe A

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

É impossível dimensionar com precisão, em pleno século XXI, o tamanho do impacto que “Star Wars IV: Uma Nova Esperança” (Star Wars – A New Hope, EUA, 1977) exerceu sobre a comunidade de cinéfilos no mundo todo, quando foi lançado, em 1977. Um bom termômetro talvez seja o primeiro censo do novo século realizado na Inglaterra. A pesquisa constatou que 5% dos ingleses, quando questionados sobre que religião seguiam, responderam “cavaleiros Jedi”. Detalhe: a pesquisa era séria.

Uma informação dessas pode dar um vislumbre do tamanho da importância da trilogia para toda uma geração de cinéfilos. O primeiro “Guerra nas Estrelas” (que só ganhou o subtítulo “Uma Nova Esperança” em 1981, quando foi relançado) mudou as regras de Hollywood, levando os efeitos especiais e o computador para o centro do espetáculo e reafirmando a importância crescente da juventude na platéia do cinema. Hollywood começou a se voltar, a partir desse filme, cada vez mais para os jovens. Os computadores começaram a sair das empresas para entrar nas casas. Essas tendências continuam a crescer, e George Lucas tem seu quinhão no surgimento delas.

Mas como era naquela época, os espectadores mais jovens podem perguntar? Bem, eu não sou o homem indicado para responder. Tinha quatro anos em 1977 e continuo sem ter noção da verdadeira comoção provocada pela estréia de “Guerra nas Estrelas”. Mas posso imaginar as filas nas entradas dos cinemas, os olhos da platéia brilhando de espanto. A primeira parte da trilogia de George Lucas deve ter sido um desses momentos que só acontecem de tempos em tempos, raros, verdadeiras explosões de criatividade que elevam toda uma arte a um novo patamar.

O mais impressionante de tudo é que Lucas fez um filme no limiar da simplicidade. Não é segredo para ninguém que o diretor e roteirista praticou uma verdadeira colagem, unindo mitologia grega, budismo, a Bíblia, teatro japonês, Carlos Castañeda, seriados de TV dos anos 1940 e mais um punhado de influências díspares. Perder o controle sobre uma criação tão vasta poderia ser fácil, mas Lucas evitou a armadilha utilizando como fio condutor os estudos do psicólogo Joseph Campbell sobre os arquétipos e o inconsciente coletivo.

Dessa maneira, cada personagem de “Star Wars” pode ser identificado facilmente com um ou mais arquétipos: há o herói (Luke Skywalker), o vilão (Darth Vader), o contraponto cômico (os robôs R2D2 e C3P0), o mentor do herói (Obi-Wan Kenobi), o interesse romântico do herói (princesa Leia) e até mesmo o homem ambíguo (Han Solo), que representa fisicamente a própria luta – o “equilíbrio da Força” – do Universo entre duas forças opostas. Esses arquétipos são o centro emocional de toda a trilogia e mantêm o enredo coeso, firme, sem gorduras desnecessárias.

A primeira trilogia “Star Wars” é um conto de fadas para o jovem do novo milênio, com computador no lugar do arco-e-flecha e naves espaciais em velocidade alucinante ao invés de cavalos. Funciona perfeitamente nesse nível simples. E continua funcionando muito bem à medida que o espectador vai exigindo mais complexidade e mais significados filosóficos – ou seja, é o tipo de filme que atinge todos os públicos. Ele revela camadas adicionais de significado enquanto seu público vai crescendo e ficando adulto. Seu apelo é universal e não tem idade. Daí tamanho sucesso.

O primeiro filme, “Uma Nova Esperança”, é um marco instantâneo do cinema. Tem uma trama curta, funcionando mais como cartão de visitas de personagens que seriam mais bem desenvolvidos nos dois outros filmes, mas impressiona sobretudo com a perfeição dos efeitos especiais, até hoje imbatíveis. A princesa Leia (Carrie Fischer) é raptada por Darth Vader (David Prowser, com voz de James Earl Jones), mas consegue salvar as plantas arquitetônicas da Estrela da Morte, uma espécie de fortaleza em órbita capaz de destruir planetas inteiros.

Leia grava essas plantas no robô R2D2 e o envia, junto com C3P0, para procurar Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness), que vive como eremita no deserto do planeta Tatooine. Com as informações, o velho mestre Jedi pode conhecer as falhas da fortaleza e organizar uma resistência. A dupla biônica esbarra, por acaso, em Luke Skywalker (Mark Hamill), um caipira que Kenobi reconhece como elemento-chave para a vitória contra as forças imperiais de Vader. Essa turma ainda ganha a adição de Han Solo (Harrison Ford) antes de partir para resgatar Leia e tentar destruir a estação espacial do Império.

Depois que o filme ganhou um banho de efeitos digitais e um som remasterizado, em 1997, “Uma Nova Esperança” ficou politicamente correto (muitos fãs se enfureceram com uma cena incluída por George Lucas, um tiroteio no estilo duelo-de-faroeste que ocorre na cidade bagunçada de Mos Eisley, em Tatooine) e até um pouquinho enfadonho (o lento duelo entre Vader e Kenobi, com sabres-de-luz, parece mero rascunho do que hoje é feito com computadores e dublês digitais). Para quem souber ver, no entanto, “Guerra nas Estrelas” não perdeu a majestade. E o som é uma verdadeira aula de cinema.

No Brasil, o filme é comercializado em DVD de duas formas. Dentro da caixa dedicada à trilogia original, está a versão restaurada, com excelente qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1 com certificado THX), mais comentário em áudio reunindo George Lucas, Carrie Fischer, o sound designer Ben Burtt e o supervisor de efeitos visuais Dennis Muren. Isoladamente, os discos vêem em caixas duplas, contendo a versão restaurada do filme (disco 1) e a versão original de 1977, esta última com qualidade pobre de imagem (wide letterboxed) e som (Dolby Digital 2.0). Para os saudosistas que querem Solo atirar primeiro contra Greedo, esta última versão é perfeita.

– Star Wars IV: Uma Nova Esperança (Star Wars – A New Hope, EUA, 1977)
Direção: George Lucas
Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fischer, Alec Guiness
Duração: 121 minutos

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