Star Wars V: O Império Contra-Ataca

13/09/2006 | Categoria: Críticas

Clima sombrio e revelação bombástica transformam longa-metragem no melhor da primeira trilogia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Em 1980, o cinema era completamente diferente de três anos antes. Estava dominado, basicamente, por filmes de temática adolescente. O mundo também estava diferente – e ele esperava ansiosamente pelo segundo capítulo da saga espacial de George Lucas. A série “Star Wars” já havia percorrido um caminho inédito dentro do imaginário coletivo. A saga era agora um verdadeiro ícone da cultura de massa, além de líder de arrecadação em bilheterias internacionais. Um fenômeno muito além das telas de cinema.

Para imprimir em película o segundo momento da saga, Lucas se cercou de cuidados. Em primeiro lugar, decidiu se concentrar na parte dos negócios, produzindo o filme com mão-de-ferro e com total controle criativo, mas deixando os problemas cotidianos das filmagens nas mãos de outras pessoas. Lucas escreveu o argumento e supervisionou pessoalmente o trabalho da Industrial Light & Magic, a primeira empresa especializada no acabamento de efeitos especiais de ponta, que havia montado para o primeiro filme.

Dessa maneira, a direção de “O Império Contra-Ataca” (Star Wars – The Empire Strikes Back, EUA, 1980) foi entregue ao cineasta Irwin Kershner, um nome desconhecido mas promissor. O roteiro estava nas mãos de Lawrence Kasdan (que depois escreveria “Caçadores da Arca Perdida” e dirigiria bons filmes, como o policial “Corpos Ardentes”) e Leigh Bracket. A decisão manteve com Lucas o controle criativo, mas ele passou a administrar a franquia de longe. Vista em retrospectiva, essa decisão parece 100% acertada, crucial para o estabelecimento de “Star Wars” como a mais importante franquia cinematográfica já feita.

Os fãs mais ardorosos da trilogia consideram “O Império Contra-Ataca” como o melhor de todos os filmes da saga, incluindo os mais novos, que integram a segunda (e cronologicamente anterior) trilogia. Isso se deve ao impacto causado na platéia por dois fatores. Primeiro, a apresentação do mestre Yoda (voz de Frank Oz), o maior de todos os Jedi. Yoda é uma surpresa genuína para o público. Insistentemente citado como um ser poderoso no primeiro filme, Yoda surge como um velho baixinho e encarquilhado, que fala em rimas engraçadas e parece tão bobo quanto inofensivo, mas esconde dentro de si uma paz interior fascinante. É uma mistura de Dalai Lama com Charles Chaplin, uma figura irresistível aos olhares ocidentais.

Yoda surge no filme após o herói Luke Skywalker (Mark Hamill) fugir para o pantanoso planeta Dagobah, onde deseja iniciar o treinamento Jedi. Essas cenas são a calma antes da tempestade. Em uma linha narrativa paralela, Han Solo (Harrison Ford) e a princesa Leia (Carrie Fischer) terminam prisioneiros do temível Darth Vader (David Prowse, com voz de James Earl Jones). Vader já sabe quem é Luke, mostra ao público que o teme e usa os rebeldes como isca para atrair Skywalker à guerra. Isso é outro recurso esperto, pois aguça a curiosidade da platéia: por que um sujeito tão poderoso quanto Vader deveria temer um pirralho talentoso, mas imaturo?

O resgate planejado por Luke termina com uma fantástica batalha de sabres-de-luz, muito melhor realizada do que a luta vista no primeiro filme. E não é só isso: o confronto termina com a mais bombástica e sensacional revelação de toda a trilogia – um momento excitante que deve ter feito muitos fãs pularem nas cadeiras dos cinemas e amaldiçoarem George Lucas por terem que esperar mais três anos para assistir à conclusão da saga.

“O Império Contra-Ataca” continua firmemente ancorado na mistura de mitologia, referências bíblicas e seriados de TV. Se não possui mais o sabor de novidade, compensa isso com efeitos especiais ainda mais inteligentes, uma direção mais firme, diálogos mais ágeis e um mergulho mais fundo nas personalidades de cada um dos heróis (e vilões) da série. Além disso, o final amargo e inconcluso transforma o filme em uma peça sombria, mais adulta.

É curioso perceber, em olhar retrospectivo, a simetria perfeita entre “O Império Contra-Ataca” e “Ataque dos Clones”, o capítulo do meio da segunda trilogia que compõe a saga. Em ambos os filmes, há duas linhas narrativas que se cruzam na seqüência final; o foco principal de ação acompanha personagens menos importantes; a narrativa secundária reforça a construção da personalidade do herói principal (o treinamento de Luke em “Império”, e o namoro de Anakin em “Clones”) ; e uma cena fantástica incluindo um duelo de sabre-de-luz no final. Isso sem contar o mais importante: uma mão decepada funciona como símbolo de mudança nos dois filmes. É o modo de George Lucas deixar a respiração dos fãs presa, esperando o final da saga.

No Brasil, o filme é comercializado em DVD de duas formas. Dentro da caixa dedicada à trilogia original, está a versão restaurada, com excelente qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1 com certificado THX), mais comentário em áudio reunindo George Lucas, Carrie Fischer, o sound designer Ben Burtt e o supervisor de efeitos visuais Dennis Muren. Isoladamente, os discos vêem em caixas duplas, contendo a versão restaurada do filme (disco 1) e a versão original de 1977, esta última com qualidade pobre de imagem (wide letterboxed) e som (Dolby Digital 2.0).

– Star Wars V: O Império Contra-Ataca (Star Wars – The Empire Strikes Back, EUA, 1980)
Direção: Irwin Kershner
Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fischer, David Prowse
Duração: 124 minutos

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