Star Wars VI: O Retorno de Jedi

13/09/2006 | Categoria: Críticas

Ursinhos de pelúcia invadem batalha intergalática e empatam sucesso total da primeira trilogia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Uma frase poderia resumir “O Retorno de Jedi” (Star Wars – The Return of the Jedi, EUA, 1983), o terceiro capítulo da saga original de George Lucas, com perfeição: o longa-metragem dá aos fãs tudo aquilo que se esperava, mas o faz de maneira decepcionante. Embora não tenha sido escrito e nem dirigido por George Lucas, o trabalho já indica uma mudança de foco importante na maneira de o cineasta pensar.

Essa mudança de foco é importantíssima porque vai contra tudo aquilo que Lucas havia proposto no filme anterior, “O Império Contra-Ataca”. O segundo capítulo aprofunda a vida interior dos personagens e traz um clima mais sombrio, agradando em cheio aos desejos dos fãs, que amadureciam e viam o mesmo acontecer com sua saga predileta. Mas eis que, de repente, Lucas toma o rumo oposto e cria um longa-metragem que flerta com referências infanto-juvenis de forma mais evidente. O resultado ficou no mínimo esquisito.

Do ponto de vista puramente técnico, “O Retorno de Jedi” (atenção para o absurdo erro de tradução do título original, já que Jedi não é uma pessoa) dá seqüência aos aperfeiçoamentos que a Industrial Light & Magic, a firma de efeitos especiais de Lucas, já introduzira no filme anterior. Há uma seqüência alucinante, executada com maestria, que ilustra essa excelência: uma perseguição em que guardas do Império voam atrás de Luke Skywalker (Mark Hamill), o herói da saga, montados em motos voadoras. Trata-se de um slalom supersônico entre árvores gigantes, muito parecida com corridas de videogame (o Atari tornava-se popular na mesma época). É genial e totalmente antenado com o seu tempo.

O problema não está na parte técnica, mas na insistência de George Lucas em atingir um público infantil. À altura da produção do longa, em 1981 e 1982, o cineasta estava às voltas com uma separação traumática e com a adoção de filhos, o que alterou significativamente sua visão de mundo. O próprio Lucas é o primeiro a reconhecer; de repente, crianças passaram a ser o ponto mais importante de sua vida, e ele decidiu que elas deveriam ser o público-alvo básico da saga. Daí a profusão de seqüências e personagens feitos sob medida para agradar às crianças, o que afetou o ritmo do filme, deixando-o irregular, bobo e pouco inspirado.

A trama parte do ponto em que “O Império Contra-Ataca” havia parado. Luke Skywalker resgata Han Solo (Harrison Ford), que estava congelado no palácio do vilão Jabba The Hut em Tatooine desde o filme anterior, e a turma elabora um plano para destruir a nova estação espacial que está sendo construída pelo Império. Eles descobrem a localização exata da segunda Estrela da Morte, que ainda está em construção, e ficam sabendo que o Imperador em pessoa estará no local em determinado dia. A informação abre brecha para que os rebeldes possam cometer um atentado e acabar com o Império. Há espaço, ainda, para uma revelação bombástica: Luke não é o único Skywalker na galáxia. Ele tem uma irmã, criada escondida para evitar que Vader a descobrisse.

O filme tem a vantagem de ganhar a figura asquerosa do Imperador (Ian McDiarmid) como vilão coadjuvante, ao lado do sempre aterrador Darth Vader (David Prowser, novamente com voz de James Earl Jones). Toda a segunda metade do filme é narrada em três ações paralelas, e a principal traz os dois tentando atrair Luke (convenientemente vestido com uma túnica negra) para o lado negro da Força. São os melhores momentos do longa-metragem.

O problema é que a trama paralela número dois, protagonizada por Han Solo (Harrison Ford) e Léia (Carrie Fischer), mostra-os recebendo a ajuda dos intragáveis ewoks, espécie de ursinhos de pelúcia animados, para destruir um gerador que permitirá o ataque à segunda Estrela da Morte. Os ewoks são personagens infantis,m e transformam essas cenas em um espetáculo contrangedor. O ataque em si, liderado por Lando Calrissian (Billy Dee Williams), é a terceira trama paralela, praticamente uma cópia do ataque à primeira Estrela da Morte, já visto em “Uma Nova Esperança”.

Em 1997, quando relançou a trilogia nos cinemas com o acréscimo de novas cenas e uma atualização dos efeitos especiais, George Lucas fez questão de colocar uma cena que resume perfeitamente “O Retorno de Jedi”: uma banda de rock alienígena tocando uma canção durante uma festa em Tatooine. É uma cena de humor pastelão que ficaria ótima na paródia “Guerra dos Planetas”, de Os Trapalhões, mas não tem a menor função na saga de Lucas; é idiota, mal feita e indigente. Ao fazer concessões ao público infantil, George Lucas pagou um preço – e fez o pior filme da trilogia “Star Wars” original.

No Brasil, o filme é comercializado em DVD de duas formas. Dentro da caixa dedicada à trilogia original, está a versão restaurada, com excelente qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1 com certificado THX), mais comentário em áudio reunindo George Lucas, Carrie Fischer, o sound designer Ben Burtt e o supervisor de efeitos visuais Dennis Muren. Isoladamente, os discos vêem em caixas duplas, contendo a versão restaurada do filme (disco 1) e a versão original de 1977, esta última com qualidade pobre de imagem (wide letterboxed) e som (Dolby Digital 2.0).

– Star Wars VI: O Retorno de Jedi (Star Wars – The Return of the Jedi, EUA, 1983)
Direção: Richard Marquand
Elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fischer, James Earl Jones
Duração: 134 minutos

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