Stardust – O Mistério da Estrela

27/02/2008 | Categoria: Críticas

Conto de fadas adulto mescla elementos de comédia, horror e romance em uma história consistente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Quase todas as histórias criadas por Neil Gaiman, inglês revelado como roteirista de quadrinhos que depois migrou para os romances, contêm divindades e seres lendários vivendo no mundo dos humanos. Alguns desses seres transitam entre duas dimensões, uma real e outra fantástica. Este espaço de sonhos e lendas de carne e osso já ocupou um nicho secundário na indústria cinematográfica, mas o sucesso das séries “O Senhor dos Anéis” e “Harry Potter” chamou a atenção dos executivos de Hollywood e disparou uma corrida por enredos que ocupassem o mesmo território. Foi assim que Neil Gaiman passou de autor underground a estrela de primeira grandeza. “Stardust – O Mistério da Estrela” (EUA/Inglaterra, 2007) é a primeira superprodução adaptada de um trabalho dele.

Graças à presença de atores da magnitude de Robert De Niro e Michelle Pfeiffer no elenco, a adaptação do romance de Neil Gaiman (ilustrado por Charles Vess e publicado no Brasil, numa bela edição de luxo, pela Conrad) abandonou o caráter alternativo que tinha quando publicada, para atingir grande repercussão. Para os fãs mais antigos do escritor isto pode parecer um problema, mas é fato que não alterou a atmosfera de encantamento maduro do romance. “Stardust” pode não alcançar o mesmo patamar de excelência que a trilogia de Peter Jackson, mais constitui um interessante conto de fadas adulto que mescla elementos de comédia, horror e romance em uma história consistente, povoada por feiticeiras centenárias, piratas voadores e estrelas de belas formas femininas. Fabula escapista, sem dúvida, mas bem feita e inteligente.

Não é preciso mais do que alguns minutos de projeção para que fique evidente: o público-alvo mirado pelo cineasta inglês Matthew Vaughn é mais velho e diversificado do que a turma que lota os cinemas para conferir os filmes daquele bruxinho inglês que duela contra você-sabe-quem. O luxuoso visual de banquete renascentista na Idade Média, bem como o tratamento menos épico e mais maduro, aproxima a obra de trabalhos como “Os Irmãos Grimm” (2005). Como quase tudo que Gaiman escreveu, “Stardust” é basicamente uma história de amor, temperada com humor e doses homeopáticas de sangue e tripas. A violência é mais sugerida e menos gráfica, e a opulência visual – tudo é grandioso, das florestas às feiras de domingo das aldeias menores – chega bem dosada, de forma a abrir espaço para o verdadeiro coração do projeto, que é o roteiro firme e bem conduzido, mostre a que veio.

A história segue as aventuras de um jovem e humilde vendedor chamado Tristan (Charlie Cox). Ele é apaixonado pela moça mais bela e rica da aldeia, Victoria (Sienna Miller). Para demonstrar o tamanho do amor, o rapaz se oferece para resgatar uma estrela cadente. Incrédula, Victoria dá a ele uma semana para que cumpra o prometido. A tarefa não é nada simples, porque chegar até a estrela significa cruzar um muro proibido na saída da cidade e entrar em um território desconhecido que, reza a lenda, é habitado por seres mágicos. O que Tristan não sabe é que a tal estrela tem a forma humana de Yvaine (Claire Danes), e que existem outras pessoas atrás dela, incluindo um príncipe cruel (Mark Strong) e uma feiticeira demoníaca (Michelle Pfeiffer).

Na jornada, o único trunfo que o rapaz possui, embora também não saiba disso, é que ele próprio tem laços com o mundo mágico, já que a mãe que nunca conheceu vive por lá, como escrava de uma velha bruxa andarilha. O elenco numero é pontuado por rostos conhecidos, com pontas de Peter O’Toole, Rupert Everett e Jason Flemyng. Além disso, é preciso ressaltar a participação de um Robert De Niro hilariante, como um pirata voador de hábitos, digamos, excêntricos. A constelação de astros hollywoodianos numa história essencialmente medieval (e portanto européia) é um tanto estranha, mas todos embarcam sem problemas no clima fabular. O desempenho do elenco não compromete.

Não é preciso estar muito atento para perceber que o enredo é uma colcha de retalhos formada por elementos pinçados de diversas fábulas. Esta é uma característica importante do trabalho de Neil Gaiman, famoso por introduzir dúzias de citações a produtos da cultura pop. Só que a ordenação desses elementos é muito bem feita, de forma que pelo menos seis pontas diferentes da narrativa vão caminhando em paralelo e se entrelaçando aos poucos, de forma inteligente, rumo a um final previsível, mas também engenhoso e irresistível. O ponto fraco é a insistência do diretor Matthew Vaughn em usar a mesma receita estética proposta por Peter Jackson para erguer a história. Alguns dos amplos movimentos de câmera, que sobrevoa a ação em círculos como um falcão, parecem sobras de “O Senhor dos Anéis”. A fraca trilha sonora por vezes cita frases inteiras da brilhante harmonia composta por Howard Shore para a série de Frodo Bolseiro. Esses cacoetes repetitivos depõem contra o filme.

Por outro lado, Vaughn demonstra versatilidade ao optar por um estilo narrativo mais contido, quase clássico, para contar a história. “Stardust” nem parece obra do mesmo homem que havia dirigido “Nem Tudo é o Que Parece”, thriller criminal de edição fragmentada e tiques nervosos engraçadinhos que pareciam obra de Guy Ritchie (“Snatch”) depois de um porre de benzedrina. O diretor, que se valeu da amizade com Neil Gaiman para convencê-lo a permitir a adaptação sem cobrar nada, foi humilde o suficiente para permitir a co-roteirização de Jane Goldman (sugestão do próprio Gaiman). O próprio Vaughn admite que o envolvimento dela impediu o filme de descambar para uma aventura masculina de capa-e-espada, mantendo o foco na estrutura fabular do enredo e reforçando a dinâmica entre personagens.

O DVD simples, da Paramount, traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem making of, cenas cortadas, erros de gravação e um trailer.

– Stardust – O Mistério da Estrela (EUA/Inglaterra, 2007)
Direção: Matthew Vaughn
Elenco: Charlie Cox, Claire Danes, Robert De Niro, Michelle Pfeiffer
Duração: 130 minutos

| Mais


Deixar comentário