Stoned – A História Secreta dos Rolling Stones

13/06/2006 | Categoria: Críticas

Stephen Wooley filma uma das dezenas de versões para a morte do mítico Brian Jones

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Ao contrário do que muita gente pode pensar, “Stoned – A História Secreta dos Rolling Stones” (Grã-Bretanha, 2005) é um filme de ficção, e não um documentário. A confusão pode acontecer porque todo o marketing da produção dirigida pelo estreante Stephen Wooley foi criado em cima da afirmação de que o diretor investigou durante dez anos as circunstâncias misteriosas da morte do guitarrista Brian Jones, em 1969, e as conclusões a que chegou estão no filme. No entanto, Wooley preferiu contratar atores e filmar sua própria versão dos últimos dias da vida do músico, ao invés de entrevistar os participantes da história na frente das câmeras.

O resultado é bem irregular e, no mínimo, bastante suspeito, porque tenta vender a versão de Wooley como verdade histórica, afirmação que não se sustenta. Wooley garante, por exemplo, que entrevistou a modelo e atriz italiana Anita Pallenberg, pivô de um complicado triângulo amoroso entre Brian e o colega de banda Keith Richards. E afirma que baseou grande parte das cenas do filme nos fatos que ela lhe contou. Mas não existe nenhuma prova disso. Anita Pallenberg, que é mãe de dois filhos de Keith Richards, não veio a público para corroborar ou desmentir o que é mostrado. E nem virá.

A história é a seguinte: poucas semanas antes da morte polêmica, Anita namorava Brian Jones e trocou o guitarrista loiro por Richards. Isso é fato. A novidade é que, no filme, Brian Jones é mostrado como um homem profundamente apaixonado. Tão apaixonado que, após o pé na bunda, entra em profunda depressão, abusando seguidamente das drogas e tornando-se praticamente imprestável como músico (o que explica o título, um trocadilho com o nome da banda espremido numa gíria que significa, literalmente, “drogado”). Portanto, na tese erguida por Wooley, a italiana tem parte da responsabilidade pela degeneração mental de Brian Jones. Mas a história pode muito bem ter sido inventada por Stephen Wooley. Quem prova?

A coisa mais importante que se deve ter em mente antes de encarar “Stoned” é que o filme não tenta se aproximar da verdade, apenas escolhe uma das muitas teorias já existentes para explicar o afogamento do roqueiro, na piscina da mansão onde morada, em 3 de julho de 1969. Ao optar por não filmar uma biografia completa do músico e narrar apenas os dias que antecederam a morte, o cineasta inglês perde de vista a objetividade e fracassa na tentativa de construir um personagem com a vulnerabilidade e as contradições de um ser humano comum. É o maior erro de “Stoned”.

O personagem que emerge da tela, à parte a excelente trabalho de reconstituição de época realizado pelo diretor (figurinos e cenários são reconstituídos de maneira impecável), é um mito, e não um homem. Brian Jones era, na visão de Wooley, um homem confuso e mentalmente instável, cujo talento e espírito de liderança foram progressivamente minados pela quantidade descomunal de drogas e bebida que ingeria. O outro grande personagem da trama é Frank Thorogood (Paddy Considine), construtor que trabalhava numa reforma para Jones e estava na casa na noite em que ele morreu. Mas o retrato de Frank, um ex-alcoólatra em recuperação, também é superficial.

Aquilo que “Stoned” tem de melhor é o visual exuberante, especialmente nos flashbacks que irrompem na história de quando em quando – as cenas no Marrocos, por exemplo, são muito legais. Infelizmente, os méritos ficam por aí. Stephen Wooley não tem nenhum pudor em explorar a nudez feminina, especialmente da bela Monet Mazur, intérprete de uma Pallenberg surpreendentemente conservadora e hesitante. Há grande número de seqüências de sexo, fotografadas com os clichês de um pornô softcore de segunda categoria (leia-se câmeras à luz de uma lareira qualquer e corpos nus se enroscando em coreografias que escondem, estrategicamente, a genitália dos atores). O todo é bem fraco.

Para terminar, a distribuidora Lumière, responsável pelo lançamento do filme no Brasil, também não economizou no oportunismo. Primeiro, escolheu um subtítulo nacional não apenas inadequado, mas mentiroso, pois as aparições dos outros integrantes dos Stones se resumem a pequenas pontas, sem falar que nem uma única canção da banda está na trilha sonora. Ainda por cima, a Lumière esperou para lançar a obra no Brasil no rastro da passagem barulhenta dos Stones pelo Brasil, em fevereiro de 2006.

O lançamento brasileiro é da Videofilmes. O disco é simples, contendo apenas o filme, com enquadramento original preservado (widescreen anamórfico) e som OK (Dolby Digital 5.1). Nada de extras.

– Stoned – A História Secreta dos Rolling Stones (Grã-Bretanha, 2005)
Direção: Stephen Wooley
Elenco: Leo Gregory, Paddy Considine, David Morrisey, Monet Mazur
Duração: 102 minutos

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