Strippers Zumbis, As

23/10/2008 | Categoria: Críticas

Louco de vontade de fazer um filme B, Jay Lee exagera na falta de lógica e cria uma obra de uma piada só, que cansa após 10 minutos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Lógica? Não, você não pode esperar por algo como lógica em um filme cujos personagens principais são mulheres mortas-vivas que dançam peladas. “As Strippers Zumbi” (Zombie Strippers, EUA, 2008) não tem mesmo nenhuma lógica – afinal, só mesmo em um universo paralelo muito bizarro seria possível existir uma casa noturna vagabunda cuja janela do porão dá para o interior de uma base militar ultra-secreta. Até aí, nenhum problema. A maior parte dos filmes B, do tipo popularizado por diretores como Russ Meyer e Ed Wood, não tem nenhuma lógica e consiste de obras muito divertidas. O problema é que o diretor e roteirista Jay Lee deseja ardentemente fazer um filme B, o que é muito diferente de criar uma obra trash por acidente. Ademais, trata-se do caso clássico do longa-metragem de uma piada só. Dez minutos após a abertura, você já cansou e está torcendo para a história acabar logo.

Uma grande ironia é a origem do material. Jay Lee buscou inspiração numa peça francesa chamada “Rinocerontes”. A encenação, filiada à escola chamada de Teatro do Absurdo, flagra os habitantes de uma pequena vila se transformando, aos poucos, nos animais do título, sem qualquer razão plausível. Depois de ver a peça, o cineasta teve a idéia de transpor o absurdo da situação para a cultura norte-americana. Aí, misturou um monte de obsessões típicas do povo daquele país – mulheres peladas, bares com sinuca e churrasco, zumbis, rock pesado, paranóia militar – em uma trama frouxa e repetitiva. Apesar da duração curta, a história de “As Strippers Zumbi” se arrasta e faz o filme parecer interminável. A ação dramática pára o tempo inteiro para longos números de strip tease, geralmente editados de forma estroboscópica, com tomadas de menos de um segundo se sucedendo na tela à velocidade da luz.

O contexto em que se desenvolve o fiapo de história é apresentando em uma abertura burocrática, cheia de exposição gratuita e nada criativa: uma montagem de cenas de telejornais, mostrando um futuro próximo em que os Estados Unidos mergulharam numa época de restrição severa dos direitos individuais. George W. Bush está no quarto mandato, a nação enfrenta guerras simultâneas com França, Iraque, Irã, Síria, Afeganistão, Venezuela e Canadá (OK, boa piada). O Alasca reivindica independência. Agora pense: quantas vezes você já viu filmes que abrem com telejornais, providenciando a inevitável exposição da maneira mais maçante e pouco original possível? Desde “Cidadão Kane”, em 1941, centenas de diretores recorreram ao artifício, tornando-o banal e sem vitalidade.

Nesse mundo violento, o strip tease é prática proibida por lei, mas continua sendo praticado em inferninhos sujos como aquele em que um militar, infectado acidentalmente por um vírus capaz de reanimar os mortos, vai parar após uma fuga desastrada. Uma após uma, as garotas do lugar vão virando zumbis. As atrações exóticas, dançando furiosamente, são um atrativo extra, e a platéia segue aumentando, o que faz o dono do lugar (Robert Englund, o Freddy Krueger em pessoa) manter os monstrengos presos no porão, além de acirrar a competição natural já existente entre as garotas. Algumas delas até mesmo se matam e passam pela transformação voluntariamente, para não perder espaço para as concorrentes.

Esta última é uma das melhores idéias espalhadas escassamente pelo longa, uma alfinetada irônica na cultura da imagem estabelecida na sociedade contemporânea. No geral, porém, o filme não passa de uma decepcionante colagem de clichês reciclados de velhos filmes de horror e comédia. Para piorar tudo, “As Strippers Zumbi” lembra demais duas outras produções da mesma safra (“Planeta Terror”, de Robert Rodriguez, e “Dança dos Mortos” de Tobe Hopper). E não apenas na trama, mas também na direção de arte berrante, no visual gótico-grotesco, na música pesada, no estilo frenético de montagem e até mesmo na escalação do elenco – Robert Englund praticamente repete, aqui, o papel interpretado em “Dança dos Mortos”.

Além de tudo isso, é preciso muita imaginação para acreditar que um bando de mulheres-travestis (aquelas adeptas de zilhões de plásticas, com olhos puxados, colágeno e próteses de silicone espalhadas pelos corpos) com o rosto apodrecendo seriam capazes de deixar excitado um bando de homens que agem como débeis mentais. Você achou pouco? Pois tem mais alguns exageros visuais de fazer corar até mesmo um adolescente sedento por sexo: um inacreditável duelo zumbi entre duas moças que enfiam bolas de pingue-pongue e bilhar lá naquele lugar e, usando a força muscular após anos de prática, atiram com força as bolinhas umas nas outras. Não dava mesmo para levar a sério um filme que escala a atriz pornô Jenna Jameson, com suas duas dúzias de plásticas faciais, como protagonista.

O DVD nacional, da Sony, mantém preservado o enquadramento original (widescreen anamórfico) e tem áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem um comentário em áudio com o diretor, cenas excluídas e um pequeno documentário de bastidores.

– As Strippers Zumbi (Zombie Strippers, EUA, 2008)
Direção: Jay Lee
Elenco: Jenna Jameson, Robert Englund, Roxy Saint, Joey Medina
Duração: 94 minutos

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