Stroszek

02/07/2008 | Categoria: Críticas

Um dos mais brilhantes longas-metragens de Werner Herzog, e também um dos mais bizarros

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O alemão Werner Herzog é um dos mais estranhos e iconoclastas cineastas que já surgiram. Durante sua fase mais prolífica e mais criativa – em meados dos anos 1970, quando ajudou a inventar o modero cinema germânico, junto com Wim Wenders e Rainer Werner Fassbinder – Herzog muitas vezes começava a filmar sem conseguir racionalizar o filme que tinha na cabeça. Mesmo assim, o resultado freqüentemente era genial. “Stroszek” (Alemanha, 1977) talvez seja o mais brilhante dos longas-metragens desta fase, e também é um dos mais bizarros, apesar de repleto de uma poesia sutil do cotidiano que exige do espectador entrar no espírito do filme para poder encará-lo da forma correta..

Como era típico em Herzog, “Stroszek” nasceu de um imprevisto, durante uma viagem quase surreal empreendida junto com o amigo norte-americano Errol Morris, documentarista de mão cheia. Os dois estavam fascinados com a história do serial killer Ed Gein (o mesmo que inspirou “Psicose” e “O Silêncio dos Inocentes”), e queriam conhecer a minúscula e modorrenta cidadezinha no Wisconsin onde o assassino vivera e matara. Lá, no vilarejo de Plainfield, o carro de Herzog quebrou. Ele teve que passar o dia na oficina local, e decidiu que aquela era uma locação perfeita para um filme de ficção.

Com a paisagem gelada, o ritmo lento e os rostos inexpressivos dos habitantes na cabeça, o diretor escreveu o roteiro em quatro dias. Desde o início, pensava no ator semi-profissional Bruno S. para o papel principal. Bruno tinha sido revelado três anos antes pelo próprio Herzog, no excelente “O Enigma de Kaspar Hauser”. Tinha leve deficiência mental e passara grande parte de infância e adolescência em reformatórios, quando não estava apanhando da mãe. A proposta de Herzog era uma produção de naturalismo quase excruciante, à beira do documentário. Na verdade, ele apenas tentava fantasiar como seria uma fase completa, com início, meio e fim, da vida real de Bruno.

Por esta razão, tanto o protagonista quando os demais personagens do filme usam os nomes dos próprios atores. Bruno começa sozinho, saindo da prisão (o que para ele não era, de fato, nenhuma novidade). Ele reencontra Eva (Eva Mattes), prostituta regularmente espancada pelo cafetão. Os dois vão viver no apartamento dele que tinha sido guardado pelo solitário Sr. Scheitz (Clemens Scheitz), velhinho que se prepara para ir morar no Wisconsin com o sobrinho (detalhe importante: o apartamento era realmente a casa de Bruno na vida real, bem como o piano antigo que ele adorava, e chamava de “amigo negro”). Querendo iniciar uma vida nova, os três decidem ir juntos para os EUA.

Não existe uma trama propriamente dita, e a cada cena o filme se reinventa, indo parar em uma direção completamente nova, sem que seja possível antecipar nada. Há personagens secundários maravilhosos, como o mecânico da cidade (Clayton Szalpinski, sujeito que na vida real consertara o carro de Herzog). O homem encontrou uma maneira original de passar os domingos: sai e pesquisa as dezenas de lagos da região, munido de um detector de metais, na tentativa de encontrar um vizinho que desaparecera muitos anos antes. O sumido estava em um trator, e Clayton tem certeza de que foi assassinado (por Ed Gein, talvez?) e atirado, junto com o pesado veículo, numa das lagoas que pontuam a terra plana e seca da região.

Há muito humor em “Stroszek”, embora muito dele seja involuntário, devido à atmosfera peculiar e levemente surreal que Herzog constrói através de cenas como o encontro cheio de ternura entre Bruno e um médico, ainda na Alemanha. E há, claro, o famoso final absurdo, quase Kafkiano, que o próprio Herzog considera a melhor cena que filmou em toda a carreira. O cineasta diz que se trata de uma metáfora, mas não sabe de quê. É uma cena tão poética e bonita que inspirou a banda Joy Division a pontuar todo um álbum (chamado “Still”) com citações a ela.

Na verdade, a seqüência dispensa explicações: ela é toda estruturada em temas circulares (a galinha dançarina, Bruno passeando no teleférico e o caminhão pegando fogo são, todas, ações em círculos), e parece dizer que a vida – de Bruno, de Eva, do Sr. Scheitz, de todos e cada um de nós – é feita de ciclos. São fases que começam, terminam e dão lugar a outras, e assim sucessivamente. É uma cena que resume lindamente a estrutura circular do filme como um todo – afinal, a história termina no momento exato em que aquela fase específica de Bruno termina, e ele está ficando sozinho novamente. Ou seja, é um final original, alegórico e belíssimo, para um filme decididamente singular.

A edição nacional, da Lume Filmes, tem ótima qualidade de imagem (widescreen 1.66:1 anamórfica) e som (Dolby Digital 2.0), mas não traz nenhum extra.

– Stroszek (Alemanha, 1977)
Direção: Werner Herzog
Elenco: Bruno S., Eva Mattes, Clemens Scheitz, Clayton Szalpinski
Duração: 115 minutos

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