Submersos

01/01/2004 | Categoria: Críticas

Produto saído da mão pesada do cult David Twohy tem um toque de Darren Aronofsky e é capaz de meter medo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Algumas vezes, filmes entram em cartaz ou chegam às locadoras/lojas de DVD sem que saibamos nada sobre eles. Esse fenômeno anda um tanto raro atualmente, mas ainda ocorre, de vez em quando. Nesses casos, uma boa dica aos amantes de cinema é dar uma olhada atenta na ficha técnica dos envolvidos com a obra em questão. A assinatura do diretor costuma ser um bom parâmetro, mas não deve ser o único. Muitas vezes a presença de certos atores costuma emprestar credibilidade ao projeto (ou, ao contrário, desacreditá-lo de uma vez por todas). Outras vezes é a estampa do produtor que agrega valor, positivo ou negativo, ao produto. Por fim, atente para os nomes dos subestimados roteiristas.

É justamente nesse último critério que “Submersos” levanta as sobrancelhas. O nome do diretor, David Twohy, pode dizer alguma coisa para fãs de ficção científica, mas no geral não significa muito; ele dirigiu o cult “Eclipse Total”, que no Brasil saiu direto em DVD. No elenco, há nomes (e principalmente rostos) familiares, mas o único que se destaca realmente é o de Olívia Williams, apenas uma coadjuvante sem grande destaque em filmes como “O Sexto Sentido”. Quando tudo indica que “Submersos” vá parar no limbo dos filmes de terror B, eis que acende a luz no fim do túnel: Darren Aronofsky, o homem que comandou os excepcionais “Pi” e “Réquiem Para Um Sonho”, co-escreveu a história e foi produtor executivo.

Aronofsky é um nome de respeito, um dos cineastas mais autorais da atualidade, embora sem experiência direta no cinema de horror. Ainda assim, a assinatura dele é capaz de levar muita gente ao cinema. E merecidamente. “Submersos” não é nenhuma obra-prima, mas passa no teste com louvor. É um filme B sim, com maiúscula, daqueles que pretende objetivamente fazer o público pular na cadeira, enfileirando vários sustos com categoria, sem maiores preocupações com originalidade na narrativa. Nesse sentido, é uma obra bem sucedida. Os clichês do gênero são manipulados com segurança por Twohy, o que gera um produto redondo, sem falhas, embora um tanto previsível.

O filme se passa durante a Segunda Guerra Mundial. O submarino norte-americano US Tiger Shark realiza uma missão de resgate de sobrevivente de um naufrágio, pegando três sobreviventes que bóiam em alto mar. Uma delas é uma enfermeira (Olívia Williams). Ela informa aos tripulantes do submarino que vinha de um navio-hospital britânico, afundado por um submarino alemão que navega na mesma área. Durante o resgate, o Tiger Shark vislumbra um navio que parece ser inimigo, e passa a ser impiedosamente perseguido pelo barco. Sem poder emergir novamente, a tripulação começa a ser lentamente envenenada pelos gás carbônico gerado nos motores do submarino. E, ao mesmo tempo, algumas coisas estranhas começam a acontecer a bordo.

A rigor, a atmosfera claustrofóbica permanece como o maior trunfo da película. Os 105 minutos se passam dentro de um submarino trancado, em que a tripulação não pode subir à tona para respirar ar puro; o espectador compartilha dessa sensação angustiante com a tripulação, o que nos coloca automaticamente ao lado dos desesperados militares. O roteiro, que utiliza alguns sustos-padrão do gênero (o toca-discos que liga sozinho), também é bem conduzido, fazendo a tensão entre os tripulantes aumentar com o passar do tempo e introduzindo os elementos sobrenaturais aos poucos, sem forçar a barra e jamais utilizando cenas de violência explícitas.

Se possui todos esses méritos, “Submersos” também não vai além deles. Mais ou menos na metade da trama, em que somos colocados ao lado da protagonista (a enfermeira) e descobrimos alguns segredos guardados pelos oficiais da tripulação, já é possível antever o final. Isso dissipa uma das dúvidas mais interessantes do filme, algo que poderia ser aproveitado de forma mais eficiente pelo roteiro: os acontecimentos estranhos dentro do submarino têm origem sobrenatural ou são alucinações provocadas pela falta de oxigênio?

Da forma como a trama é conduzida, porém, o espectador descobre muito antes dos personagens qual a explicação verdadeira para o mistério. Os segredos acabam sendo revelados ao espectador atento muito antes do que deveriam, o que dilui tremendamente o impacto dos últimos 10 minutos, teoricamente o clímax do filme. É justamente aí que David Twohy se trai, revelando mão pesada e certa falta de sutileza, elementos capazes de segurar o mistério durante mais algum tempo, o que certamente geraria mais medo na platéia.

Vale lembrar que o filme só foi produzido porque Aronofsky anda em alta em Hollywood, após o fantástico drama “Réquiem Para Um Sonho”. Aliás, “Submersos” era um roteiro originalmente feito por ele para suceder a estréia independente de “Pi”; ou seja, em teoria, este seria o segundo trabalho de Darren Aronofsky. Sorte nossa que ele conseguiu financiar o projeto de “Réquiem”, um dos melhores filmes sobre drogas jamais realizados em Hollywood. Com “Submersos”, talvez Aronofsky viesse a se tornar um cineasta promissor, mas levaria muito mais tempo para ganhar o respeito que merece.

– Submersos (Below, EUA, 2002)
Direção: David Twohy
Elenco: Olívia Williams, Chuck Ellsworth, Crispin Layfield, Holt McCallany, Bruce Greenwood, Matthew Davis, Jonathan Hartman, Dexter Fletcher
Duração: 105 minutos
Censura: 16 anos

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