Sukiyaki Western Django

06/03/2008 | Categoria: Críticas

Apesar de alguns momentos inspirados, coquetel maluco de influências e ritmo lento prejudicam o pastiche de Takashi Miike

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

A simples idéia de poder assistir a uma paródia japonesa do melhor faroeste espaguete, recheada com cenas de ação exageradas e dirigida por um craque do cinema trash contemporâneo, é de dar água na boca de qualquer fã de Sergio Leone. Um cinéfilo curtidor do gênero (meu caso) precisa tomar cuidado redobrado antes de ver um filme desses, pois a tentação de perdoar defeitos eventuais pode ser mais forte do que a razão. Por tudo isso, desconfio que o coquetel excêntrico de sangue, balas e poeira vermelha visto em “Sukiyaki Western Django” (Japão, 2007) é ainda mais insípido e decepcionante do que consigo imaginar. Pense em um pastiche de faroeste interpretado por nipônicos com sotaque macarrônico (sem trocadilho) e vestidos com roupas de bandas de metal farofa dos anos 1980. É por aí.

Para tentar observar o tanto que o longa-metragem deixa a desejar, é preciso desenvolver um breve raciocínio cinéfilo. Num filme como “Sukiyaki Western Django”, o simples exercício de reconhecer e contabilizar as dezenas de citações a filmes de bangue-bangue à italiana já é suficiente para gerar prazer genuíno nos grandes fãs do gênero obscuro. E a maior parte dos elogios reservados à produção está justamente no enorme apanhado de citações e referências que o diretor japonês consegue inserir na narrativa. A maior parte dos elementos estéticos (grandes close ups, cemitérios improvisados, cenários mambembes) que caracterizou o faroeste espaguete está lá.

No entanto, ao contrário de Sergio Leone, que citava os grandes mestres com sutileza e habilidade (“Era uma Vez no Oeste” conta mais de 150 citações a obras de John Ford, Howard Hawks e congêneres), Miike enfileira as referências de forma aleatória e desajeitada, sem trabalhar para que a história as absorva naturalmente. Em “Sukiyaki Western Django”, um espectador bem treinado é capaz de reconhecer que está diante de uma citação mesmo que não tenha assistido ao filme original. Um exemplo visível dessa dificuldade em integrar as citações à narrativa de forma orgânica está na seqüência em que uma carruagem cheia de lavradores é perseguida por um grupo de pistoleiros. A tal carruagem puxa um caixão de defuntos que arrasta na lama, e nenhum dos pistoleiros esboça a menor reação de surpresa à cena inusitada. O caixão, obviamente, é uma referência a “Django”, de Sergio Corbucci, de longe o faroeste espaguete mais citado (a música de encerramento, de Ennio Morricone, vem dele).

Miike faz jus à fama de cineasta indisciplinado. Ele atira para todos os lados e, não obstante criar alguns momentos inspirados, cria um pastiche de comédia e aventura que nunca satisfaz completamente. O diretor sequer consegue imprimir um ritmo veloz, já que interrompe a narrativa com freqüência para fazer longos flashbacks, construir pequenas gags deslocadas na ação dramática principal (como a cena do duelo entre espada e revólver, que envolve dois capangas do grupo Branco) ou criar solilóquios para o estúpido personagem do xerife, claramente inspirado em Gollum/Sméagol de “O Senhor dos Anéis”. Se parece surpreendente que o épico de Peter Jackson tenha contribuído para o coquetel de influências, saiba que os trabalhos de Ang Lee (“O Tigre e o Dragão”) e Zhang Yimou (“Herói”) também o fazem. O primeiro fornece elementos narrativos importantes, como a revelação da identidade de uma guerreira lendária, e do segundo descende todo o trabalho estilizado de cores.

Sob certo aspecto, a produção de Takashi Miike vai além de simplesmente xerocar as características básicas do bangue-bangue à italiana. Mescla-as com as elementos visuais que remetem às tradições milenares da cultura do Japão feudal, e processa esse coquetel inusitado em um visual fortemente estilizado. Já o roteiro deixa clara a sua origem, pois trata do surgimento de um misterioso pistoleiro sem nome numa aldeia que, apesar de localizada no Japão feudal, é habitada por caubóis de chapéu e cavalo, que carregam revólveres e sabres afiados, e moram entre salões e palácios de arquitetura samurai. Bizarro, especialmente quando se sabe que “Um Punhado de Dólares” (filme de Leone de onde veio o esqueleto narrativo) foi baseado num filme japonês de Akira Kurosawa, “Yojimbo”.

A intenção de tornar o longa-metragem estilizado ao extremo é anunciada logo no prólogo, que traz a chancela de Quentin Tarantino (ele próprio um fanático declarado por faroestes espaguete), interpretando uma espécie de narrador num cenário crepuscular típico de faroestes, só que pintado em papelão. O resultado, que mira a atemporalidade ao incluir na ação caubóis de rosto andrógino com piercings no rosto, bem como um pequeno trecho de animação japonesa (que parece decalcado de “Kill Bill”), é bem irregular. As cenas de ação estão entre os melhores momentos do longa, e incluem tiroteios repletos da violência gráfica típica de Miike, além de algumas tiradas de humor cínico capazes de agradar a quem não estiver muito satisfeito. Mas é muito pouco para um filme de duas horas completas. No máximo, dá para o gasto.

- Sukiyaki Western Django (Japão, 2007)
Direção: Takashi Miike
Elenco: Hideaki Ito, Masanobu Ando, Koichi Sato, Kaori Momoi
Duração: 120 minutos

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