Sunshine – Alerta Solar

13/08/2007 | Categoria: Críticas

Danny Boyle tenta unir metafísica e horror em híbrido sci-fi que entretém, apesar da falta de originalidade e do clímax decepcionante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

De forma simplificada, é possível sustentar que o gênero de ficção científica se divide em dois filões principais. O primeiro, cujo representante máximo é “2001 – Uma Odisséia no Espaço” (1968), se caracteriza pelo conteúdo metafísico e inclui a abordagem de temas abstratos, como a existência de Deus e o propósito da humanidade. O segundo filão, a exemplo de “Alien – O Oitavo Passageiro” (1979), introduz temas pinçados de outros gêneros, como o horror, o drama e a aventura, na ambientação do espaço sideral. “Sunshine – Alerta Solar” (Reino Unido, 2007) constrói um híbrido eficiente desses dois filões, firmando-se como filme inteligente, bem interpretado e de concepção visual brilhante, mas cuja trama falha por se assemelhar a uma colcha de retalhos construída com pedaços de longas anteriores, e encerra com um clímax decepcionante.

“Sunshine” apresenta a segunda reunião do time criativo responsável pelo elogiado horror “Extermínio” (2002), produção de pequena escala responsável por novo boom de um subgênero que parecia fadado à extinção, o filme de zumbis. O diretor escocês Danny Boyle, o produtor Andrew Macdonald e o ator irlandês Cillian Murphy foram reunidos pelo roteirista Alex Garland, que teve a idéia do argumento após ler uma notícia que especulava sobre o que aconteceria após a morte do Sol. De fato, o ponto de partida de “Sunshine” propõe uma trama simples e ao mesmo tempo ambiciosa: num futuro próximo, situado no ano de 2057, o Sol está perdendo energia e prestes a morrer, o que condenaria toda a vida terrestre à extinção.

Em um último esforço de sobrevivência, a comunidade internacional envia ao astro-rei uma nave, tripulada por um grupo de oito astronautas. A missão consiste em conduzir uma bomba nuclear do tamanho da ilha de Manhattan até o núcleo da estrela, explodindo-a lá. O impacto gerado poderia, segundo os cálculos dos cientistas, revigorar o Sol. Com base neste argumento clássico de filme de ação – substitua o astro por um asteróide e terá um resumo perfeito dos enredos de “Impacto Profundo” e “Armaggedon”, duas aventuras espaciais de 1998 – a verdadeira intenção de Danny Boyle (autor do clássico junkie “Trainspotting”, de 1996) é explorar idéias dramáticas mais densas. Os efeitos psicológicos causados por um longo tempo enclausurado (a viagem de ida e volta dura três anos), a possibilidade concreta da extinção da raça e as implicações filosófico-religiosas da visita a confins jamais explorados do espaço estão entre os temas abordados.

Passado quase que inteiramente dentro de uma espaçonave escura, “Sunshine” é contra-indicado a pessoas claustrofóbicas. A concepção visual, que capricha nos excelentes efeitos especiais sem ceder à tentação de torná-los extravagantes ou excessivos, transforma-se num dos pontos fortes do filme. O uso da cor é exemplar – perceba como Boyle exclui por completo o amarelo e as tonalidades alaranjadas do figurino e do cenário, pintando toda a nave em tons azulados e frios, a fim de aumentar a voltagem emocional das seqüências que se passam dentro da sala panorâmica da espaçonave, de onde os astronautas vêem o Sol em toda plenitude. Desta forma, Boyle praticamente transforma o astro-rei em personagem, sublinhando o efeito psicológico que a visão celestial das explosões solares causa nos participantes da viagem.

Boyle também acerta ao dedicar mais tempo à interação entre os personagens do que ao aprofundamento da personalidade de cada um, tarefa em que é auxiliado pelo excelente elenco internacional. Afinal de contas, na escala mais íntima, o foco do filme está na maneira sutil como a longa duração e a natureza quase suicida da viagem operam para modificar o comportamento de cada um. O cineasta também demonstra destreza na construção de elipses; a passagem de tempo é bem assinalada, por exemplo, pelas queimaduras de sol que surgem na pele de Searle (Cliff Curtis), o psicólogo, membro da tripulação mais afetado mentalmente pela proximidade do Sol. Melhor ainda: Boyle obriga o espectador a deduzir esta mudança na psiquê do personagem, já que ele não conversa sobre isso com ninguém, e portanto o problema jamais é abordado com palavras, algo que bate perfeitamente com a personalidade de Searle – quem melhor do que um psicólogo para esconder distúrbios psíquicos?

Por outro lado, “Sunshine” apresenta dois grandes problemas que acabam por rasurar a qualidade do filme. O maior deles é a falta de originalidade da trama, que rouba a maior parte dos acontecimentos de ficções científicas anteriores. O momento que marca a passagem do primeiro para o segundo ato, por exemplo, é a descoberta de um pedido de socorro enviado pela Icarus I, nave enviada sete anos antes ao espaço, com a mesma missão, que desapareceu misteriosamente – a idéia é roubada de “O Enigma do Horizonte”, sci-fi de segundo escalão, e embora o roteiro a desenvolva de forma bem mais interessante do que ocorrera no filme de 1997, o sabor de mofo é nítido.

Além de “Alien” (fator perigo-desconhecido-dentro-da-nave) e “2001” (inúmeras referências, inclusive monólitos negros na seqüência final e um computador que conversa com os tripulantes), o filme de Danny Boyle surrupia idéias de muitas outras produções, de diferentes níveis de qualidade, como o épico filosófico “Solaris”, o violento “Hellraiser” e o drama submarino “O Segredo do Abismo”. Deste último vem a longa e previsível seqüência do conserto no exterior da nave, momento que qualquer bom conhecedor do gênero sabe como vai acabar. Como se não fosse suficiente, o terceiro ato conclui a viagem com uma série de acontecimentos que se pretendem perturbadores, mas possuem enormes falhas de lógica. O filme também deixa de lado, incompleta, as questões metafísicas levantadas no decorrer da projeção, para mergulhar em pura atmosfera de horror. Pelo menos os efeitos especiais continuam estupendos até o fim.

O DVD, da Fox, traz o filme com imagens na proporção correta (widescreen anamórfica) e áudio OK (Dolby Digital 5.1). Não há extras.

– Sunshine – Alerta Solar (Reino Unido, 2007)
Direção: Danny Boyle
Elenco: Cillian Murphy, Rose Byrne, Chris Evans, Michelle Yeoh
Duração: 107 minutos

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