Superman – O Retorno

08/11/2006 | Categoria: Críticas

Filme é cinema-pipoca clássico, divertido e inteligente, com excelentes efeitos especiais e seqüências de ação empolgantes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Mesmo sendo cinema-pipoca clássico, divertido e inteligente, com excelentes efeitos especiais e pelo menos duas longas seqüências de ação absolutamente empolgantes, “Superman – O Retorno” falhou nas bilheterias norte-americanas, termômetro do resto do mundo. Nos EUA, país onde o Superman já tem lugar garantido entre os personagens mais importantes da mitologia popular (como a Comadre Florzinha e o Bicho-Papão no Brasil), o longa-metragem faturou apenas US$ 154 milhões em três semanas. Ou seja, não chegou sequer a cobrir os custos astronômicos de produção, que custou US$ 204 milhões. À primeira vista, este desinteresse inicial do público é um mistério: como um filme tão bacana, que mistura com competência aventura e romance em doses iguais, pode não ter encontrado ressonância emocional em uma platéia sempre ávida por super-heróis?

Bem, eu tenho uma teoria, e vou tentar explicá-la. Embora seja sempre lembrado como o maior e mais famoso de todos os super-heróis de histórias em quadrinhos, Superman pertence a uma outra época. Como personagem, ele é o equivalente àquele rapaz que abre a porta do carro para a namorada e faz questão de pagar a conta do jantar – um sujeito antiquado, ultrapassado, o que os ingleses chamam de old-fashioned (ou seja, cara de bom rapaz, obediente, sorriso impecável, barba feita, banho tomado). “Superman – O Retorno” é um filme excelente, mas é nostálgico e abraça esse retrato com vigor. No filme de Bryan Singer, o herói mais famoso do século XX é o marido que toda mãe sonha para sua filha.

Raciocine comigo: o Superman sempre foi um herói à moda antiga, um modelo de conduta perfeito para os jovens (de todas as idades, aliás). Mas uma personalidade assim não tão é atraente na época cínica que vivemos no século XXI. O Superman de Bryan Singer, mesmo perfeitamente condizente com a personalidade do personagem conforme foi criada, em 1941, pertence ao passado. Não dialoga mais com o presente. É um herói censura livre: não possui o jeito moleque do Homem-Aranha, ou a agressividade do Batman, ou o cinismo e a boca suja do Wolverine.

Estes três últimos não foram citados por acaso, já que são os super-heróis mais populares dos quadrinhos em 2006. Todos têm as qualidades fundamentais de um herói dos quadrinhos – caráter altruísta e algum tipo de poder especial – mas também possuem o que os alemães chamam de zeitgeist: o espírito de sua época. Eles têm defeitos, algo que o Superman não tem. A construção do herói de collant azul, com esta personalidade quase bíblica, causa desconexão entre ele e o público. A platéia contemporânea, cuja maioria das pessoas usa piercings e tatuagens, não se vê representada na tela. Superman pode ser poderoso, mas não é um deles.

Agora, que fique claro: grande bilheteria nunca foi sinônimo de qualidade, e “Superman – O Retorno” comprova isso mais uma vez. É um filme tão legal que até mesmo os defeitos, como a duração longa demais, têm uma razão. Na verdade o filme não é longo (exceto a parte final, que parece esticada demais), e sim paciente. Algumas pessoas podem considerá-lo lento, mas não é verdade. Bryan Singer realiza um trabalho muito bom, pois captura o tempo do personagem. Superman (Brandon Routh, bom ator e clone de Reynaldo Gianecchini) é um cara confuso, que acaba de retornar após um exílio de cinco anos. Leva alguns dias até que ele se aclimate às mudanças, à nova realidade. Daí a sensação de que o tempo anda mais devagar; anda mesmo, mas há um motivo plausível para isso.

Além disso, a maneira pausada e tranqüila de narrar ajuda a platéia a absorver a cenografia fantástica, que tem um feeling certeiro dos anos 1950. O visual de Clark – óculos de aro, cabelo engomado, terno – lembra um pouco o roqueiro Buddy Holly; a fazenda remete às propriedades rurais numa época em que a mecanização da lavoura ainda não tinha acontecido; a redação do jornal é barulhenta e agitada como no tempo das máquinas de escrever. Tudo isso mostra que o filme de 1978, dirigido por Richard Donner, foi tratado com reverência e respeito, tornando-se o ponto de partida para a nova concepção visual da aventura.

Singer adotou o mesmo visual do refúgio isolado do herói, a Fortaleza da Solidão (repleta de cristais em forma de ouriço, só que agora devidamente reconstruída com mais realismo e em dimensões descomunais). Também é possível reconhecer a sede do Planeta Diário, e a casa de Lois Lane (Kate Bosworth, uma Natalie Portman com testa dupla) tem um terraço bem similar. Até mesmo o penteado do herói, o estilo dele voar (com a pose clássica que mostra um dos braços esticado e com o punho cerrado) e pousar (suavemente, na posição vertical) remetem ao filme de Donner. Ou seja, a iconografia do longa-metragem de 1978 é familiar à platéia, o que é muito bom.

Nesse aspecto, convém observar que Synger respeita bastante a seqüência de eventos do primeiro longa-metragem com o personagem. De certa forma, “Superman – O Retorno” pode ser considerado uma seqüência informal daquela produção, embora o diretor tenha feito ajustes (lembre de que Lois Lane descobria, em 1978, a identidade secreta do herói, detalhe que ela desconhece aqui). Mas a excelente abertura, com os créditos azuis “voando” pelo espaço, é uma homenagem explícita ao longa de Richard Donner, e o conhecidíssimo tema criado pelo maestro John Williams para o herói marca presença constante nas melhores cenas. Ainda bem!

Contando com o maior orçamento do cinema até então, Bryan Singer tinha a óbvia obrigação de ampliar o escopo visual da aventura de 28 anos antes, o que faz de forma magistral. Para começar, o som é absolutamente perfeito. A trilha sonora de John Ottman usa doces arranjos de corda para as cenas românticas e pesadas trilhas percussivas para os momentos de tensão, inserindo com abundância referências ao tema inesquecível do herói (cortesia do grande John Williams). Quanto aos efeitos sonoros, nunca são menos do que espetaculares – preste bem atenção nas explosões abafadas causadas pelo deslocamento abrupto do ar, nas decolagens do herói. Uma maravilha.

A qualidade dos efeitos especiais acompanha esta excelência e está em sintonia com ela (quando o Superman pára um avião, as ondas de choque percorrem o corpo do veículo), tornando o setor um dos maiores destaques de “Superman – O Retorno”. Os vôos do herói, particularmente, ficaram literalmente perfeitos, colocando a platéia no ponto de vista de um acompanhante invisível do super-herói. O realismo destas cenas permite pelo menos duas seqüências de ação longas e impecáveis: a primeira aparição do Superman, quando ele socorre um vôo especial com problemas, e outra perto do final, quando o herói precisa de muita criatividade e rapidez para lidar com os efeitos de um maremoto em Metrópolis (que é, obviamente, Nova Iorque).

Esta última cena talvez seja o melhor momento de “Superman – O Retorno”. É tão boa, na verdade, que acaba empalidecendo o confronto posterior entre o herói e o vilão Lex Luthor (Kevin Spacey). Depois do clímax, o filme ainda se arrasta por bons 20 minutos, sem que Bryan Singer tenha conseguido terminá-lo. A última cena, por sinal, deixa claro que a intenção do diretor era mesmo fazer um filme eclético, com doses generosas de aventura e humor, mas cujo centro emocional fosse o amor impossível. Apesar dos pequenos deslizes, como a longa duração (meia dúzia de cenas poderia ser reduzida e algumas, como aquela que mostra o Superman impedindo um assalto a banco, deveriam ter sido eliminadas por completo, pelo bem da agilidade da ação), o resultado geral é muito bom, uma aventura à moda antiga que respeita a mitologia do herói e está repleta de soluções visuais criativas.

O olho de Bryan Singer para os detalhes se manifesta em diversos momentos. Está nas boas piadas, em referências visuais interessantes, às vezes em tomadas rápidas de dois ou três segundos cuja composição criativa pode passar despercebida para os fãs mais desatentos. Observe, por exemplo, o plano que mostra, sem cortes, a queda de um homem do alto de um edifício, durante o terremoto em Metrópolis; no meio do caminho, o Superman aparece deixando um rastro azul e vermelho, agarra o rapaz, o coloca no chão sem diminuir a velocidade e segue em frente, para impedir novos desastres. A câmera está no lugar exato: mostra toda a ação de um ângulo privilegiado e deixa a platéia pensando como o diretor foi capaz de mostrar aquilo sem cortes.

Ao mesmo tempo, o roteiro de Michael Dougherty e Dan Harris acerta ao criar seqüências inteiras com a função de integrar à trama algumas imagens icônicas da mitologia construída para o personagem, nos 60 anos de história que ele carrega. A excelente seqüência do terremoto, por exemplo, termina com uma das imagens mais poderosas que a mente da platéia associa ao herói: o Superman carregando nos braços o globo do Planeta Diário, como um deus halterofilista que levanta a própria Terra. Synger conhece bem a importância do uso de símbolos visuais para que a história contada fique gravada no inconsciente. Ao mesmo tempo, presta uma reverência importante para a memória do personagem.

Também o humor, simples e refinado ao mesmo tempo, está calibrado. Não é um estilo de humor histérico, forçado ou vulgar, mas elegante, que pede a participação ativa da platéia. Tome como exemplo o instante em que Lex Luthor e sua gangue retornam à mansão empoeirada, após uma longa viagem. Sua assistente Kitty (Parker Posey, dona das falas mais engraçadas) olha num canto e vê um dos cachorrinhos da antiga dona deitado, roendo um osso. “Não eram dois deles?”, pergunta. Synger sustenta a tomada do cão pelo tempo exato para que a platéia responda sozinha à pergunta. É uma piada curta e eficiente, pois envolve o espectador na história. Synger fez a lição de casa direitinho: é assim, fazendo a platéia raciocinar e preencher lacunas, que se faz um filme inteligente.

Como nem tudo é perfeito, “Superman – O Retorno” expõe claramente um problema que já existia nos quadrinhos e nos filmes anteriores: a impossibilidade da existência de um vilão realmente à altura do Superman. Lex Luthor, claro, é o mais conhecido dos antagonistas do Homem de Aço, mas o filme falha em mostrá-lo como alguém capaz de rivalizar, em força e inteligência, com o herói. Jamais sentimos que Superman está realmente em perigo. Ele não tem um oponente à altura. Além disso, o plano maligno de Luthor – criar um novo continente a partir de cristais – é bobo e foge ao tom realista proposto pelo resto do filme. Como tal lugar, formado exclusivamente por rochas, seria habitável sem rios e água potável?

Por fim, vale mencionar que os roteiristas e o diretor não deixaram de traçar um paralelo sutil, mas muito interessante, entre Superman e Jesus Cristo. Os ecos bíblicos do personagem sempre foram muito comentados – a origem do herói é claramente baseada na história de Moisés – mas, aqui, tudo foi feito com tanta sutileza que os menos atentos não vão reconhecer a semelhança. A trajetória dos dois personagens é idêntica. Como Cristo, Superman ressurge após uma misteriosa ausência de alguns anos e age em todo o seu esplendor por algum tempo. Calvário, morte e ressurreição também fazem parte da jornada do herói, embora não de forma literal. As semelhanças demonstram que Bryan Singer não é só um excelente cineasta. Ele sabe o que está fazendo, tem controle absoluto da narrativa e entende que paralelos como este funcionam perfeitamente em um nível mais profundo, subconsciente. Se a platéia se deixar chegar até lá, é claro.

O DVD da Warner é duplo. O disco 1 traz o filme com qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) excelentes. O disco 2 tem um grande documentário, uma galeria de cenas cortadas e um trailer, tudo com legendas em português (menos o trailer).

– Superman – O Retorno (Superman Returns, EUA, 2006)
Direção: Bryan Singer
Elenco: Brandon Routh, Kevin Spacey, Kate Bosworth, James Marsden
Duração: 154 minutos

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