Supremacia Bourne, A

03/03/2005 | Categoria: Críticas

Filme de espionagem à moda antiga tem uma das grandes cenas de perseguição de carro da história

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Você é uma dessas pessoas que sentem falta de thrillers de ação à moda antiga? Alguém que despreza o excesso de retoques digitais e seqüências usando cenários e personagens fictícios, criados com o uso de computadores potentes e softwares poderosos? Se for o caso, o seu filme de 2004 pode estar bem aqui na frente: “A Supremacia Bourne” (The Bourne Supremacy, EUA, 2004), um musculoso e surpreendente exercício de estilo cinematográfico analógico. Este é um raro filme norte-americano do século XXI que joga a tecnologia pela lata do lixo e põe os atores, eles mesmos, para suar de verdade, num thriller que ainda por cima é inteligente e cheio de nuances.

Não há muito mistério na fórmula de “A Supremacia Bourne”. Muito menos novidade. O que existe, acima de qualquer outra qualidade, é um roteiro enxuto e honesto, que não usa nenhum tipo de truque para desviar a atenção do espectador de sua trama visceral. É um filme muito fiel ao espírito dos romances de espionagem escritos por Robert Lundlum. Esse tipo de livro está fora de moda desde o fim da Guerra Fria, tanto quanto os filmes com sangue e batidas de carro se transformaram em espetáculos de pirotecnia. O que ocorre, então, é que “A Supremacia Bourne” supera essas detalhes aparentemente démodé com uma aproximação do estilo documentário: câmera na mão, montagem ousada e muita testosterona.

Quem conhece o ex-agente secreto Jason Bourne (Matt Damon) desde o primeiro filme da franquia vai saltar dentro do clima do filme sem o menor esforço. O longa-metragem abre em Berlim, na Alemanha, onde uma operação secreta da CIA sofre uma sabotagem e termina com dois agentes mortos e US$ 20 milhões desaparecidos. O culpado, para a CIA, é Bourne, agora vivendo na Índia, à beira da praia. Ele ainda tenta se recuperar da perda da memória, com a ajuda da namorada, Marie (Franka Potente). Bourne tem pesadelos recorrentes e pedaços desconexos de lembranças, mas isso não lhe ajuda muito.

O atentado em Berlim tira a vida de Bourne dos eixos. O mesmo russo responsável pelo atentado (o neozelandês Karl Urban, que entra mudo e sai calado) tenta matá-lo, mas só consegue tirar a vida de Marie. É o suficiente para que o ex-espião da CIA saia da aposentadoria e rume à Europa, onde vai seguir a trilha do atentado para provar a inocência e conseguir a vingança, tudo ao mesmo tempo. Assim, a ação trafega entre Munique (Alemanha), Nápoles (Itália), Washington (EUA) e Moscou (Rússia), com uma parada generosa em Berlim.

Há lances inteligentes de investigação, mas o filme nem precisa disso para dizer a que veio. O cineasta Paul Greengrass consegue manter a platéia em permanente estado de tensão graças a uma edição enérgica, frenética mesmo. Além disso, praticamente não existe trilha sonora. Essa foi a escolha estética mais audaciosa de Greengrass; ele abre espaço generoso para os sons naturais, e evita, quase sempre, os sons extra-diegéticos (ou seja, sons cuja fonte estão fora do mundo que vemos na tela), o que dá ao filme um resultado mais orgânico.

Há, por exemplo, uma longa seqüência de luta entre Bourne e um outro espião, em Munique, que soa extremamente violenta. Pense com cuidado no motivo pelo qual essa luta em particular parece tão dolorosa. Simples: ela não tem música. Pense nas lutas de “Matrix” ou de “Kill Bill”. Pensou? Agora retire a música estilizada, acrescente cortes abruptos e câmera tremida– isso é “A Supremacia Bourne”. O diretor explora os ruídos da briga – vidro quebrado, pancadas, socos, gemidos de dor – em meio a uma edição feroz de imagens fora de foco. O resultado é eficiente, cru e violento como pouca coisa no cinema de Hollywood.

O ponto alto do filme, além da ótima interpretação de Matt Damon, é a alucinante perseguição de carro que acontece no final. Pode ser um chavão compará-la à memorável seqüência de Gene Hackman no clássico “Operação França”, de 1971, mas não há outra maneira de dar ao leitor a sensação exata do que significa estar dentro do carro, junto com Jason Bourne, quando um caminhão se aproxima do lado esquerdo de uma maneira que evitar a batida se torna algo impossível. Acredite: a verossimilhança das cenas é tão impactante quanto a porrada que se segue. Aliás, essa é a palavra que resume o filme da maneira mais perfeita: uma porrada. No juízo. E de qualidade.

O DVD nacional, apesar de simples, arremata o filme (imagem wide anamórfica, som Dolby Digital 5.1) com um punhado de estras focalizando as filmagens.

– A Supremacia Bourne (The Bourne Supremacy, EUA, 2004)
Direção: Paul Greengrass
Elenco: Matt Damon, Joan Allen, Brian Cox, Franka Potente
Duração: 107 minutos

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