Suspeito da Rua Arlington, O

01/04/2005 | Categoria: Críticas

Mark Pellington estréia no cinema com thriller que deixa interrogação na cabeça da platéia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“O Suspeito da Rua Arlington” (Arlington Road, EUA, 1999) tem, entre muitas qualidades, uma que se destaca além das demais: é um filme que exprime, em uma trama excitante e imprevisível, uma das paranóias norte-americanas mais comuns, que é a desconfiança geral e irrestrita, a crença de que não se pode confiar em ninguém que não seja parte da família. De alguma forma, o filme de estréia de Mark Pellington atinge um nervo vital da sociedade dos EUA, que é esse problema da desconfiança. Associada ao medo do terrorismo, essa característica faz do filme uma peça de valor mais abrangente do que o simples entretenimento.

O enredo gira em torno de Michael Faraday (Jeff Bridges), um professor universitário especializado em Terrorismo. Jeff é um homem traumatizado pela morte da esposa, uma agente do FBI assassinada em serviço durante uma batida policial numa fazenda suspeita de abrigar atividades terroristas. Ele cria um filho pequeno chamado Grant (Spencer Treat Clark) e namora uma ex-aluna, Brooke Wolfe (Hope Davis). A garota é extremamente devotada a ele, mesmo quando Jeff tem surtos de tristeza típicos de alguém que não conseguiu superar a tragédia.

O filme abre com uma criança desconhecida sangrando, atordoada, e andando no meio da rua do título. Jeff vê o garoto e o leva a uma emergência. Depois, descobre que ele é Brady Lang (Mason Gamble), que mora na casa ao lado. O incidente faz com que Michael conheça os pais do menino, Oliver (Tim Robbins) e Cheryl (Joan Cusack). Aos poucos, eles se tornam amigos. Os vizinhos viram uma peça fundamental para que Michael consiga finalmente romper a barreira de isolamento que criou em torno de si mesmo.

Infelizmente, isso não dura muito, pois Michael começa a perceber indícios de que a família Lang pode estar escondendo algo. Em um homem paranóico, vítima de um caso tão traumatizante que reforçou a teoria-base das aulas que ministra na universidade (atos terroristas de grande porte jamais são obra de homens solitários), essa desconfiança dispara uma paranóia crescente que leva o professor a vigiar e investigar, cada vez mais a fundo, as atividades dos vizinhos.

O maior trunfo de “O Suspeito da Rua Arlington” é o elenco. O diretor estreante Mark Pellington foi muito feliz ao escalar Tim Robbins e Jeff Bridges nos papéis principais. Ambos são bons atores, parecem sujeitos comuns – como seriam os nossos vizinhos – e têm um histórico de engajamento social e político na vida real. O cineasta foi mais ousado, e igualmente bem sucedido, na escolha dos papéis femininos. Joan Cusack mostra que é muito mais do que uma comediante razoável, e Hope Davis dá uma mostra definitiva do talento que desenvolveria, depois, em filmes como “Anti-Herói Americano”.

O elenco correto valoriza bastante o maior trunfo do longa-metragem, que é o roteiro inteligente e cheio de reviravoltas do também estreante Ehren Kruger, que depois escreveria o terror “O Chamado”. O texto possibilita ao filme seguir o arco dramático clássico da maioria dos filmes de Hollywood. Os personagens são apresentados, depois surge um conflito que segue em um crescendo (no caso, surpreendente e intrincado, mas em ritmo regular), e finalmente explode em um clímax eletrizante. Há algumas seqüências de ação banais, incluindo a tradicional perseguição de carros, mas não se engane: esse é um filme que vai lhe fazer pensar, e deixar com uma interrogação na cabeça mesmo depois da projeção.

O DVD de “O Suspeito da Rua Arlington” foi lançado no Brasil pela Columbia. O filme comparece com o corte widescreen original, em boa transferência, e som Dolby Digital 5.1. Como extra, há um pequeno featurette (menos de 10 minutos) com entrevistas de atores, diretor e roteiristas. Não há legendas no extra.

– O Suspeito da Rua Arlington (Arlington Road, EUA, 1999)
Direção: Mark Pellington
Elenco: Jeff Bridges, Tim Robbins, Joan Cusack, Hope Davis
Duração: 117 minutos

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