Suspeitos, Os

28/11/2006 | Categoria: Críticas

Thriller excitante montado sem cronologia inspira a platéia a vê-lo pela segunda vez

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“Os Suspeitos” (The Usual Suspects, EUA/Alemanha, 1995), estréia de Bryan Singer em produções de longa-metragem, foi responsável por alguns dos maiores elogios da crítica no ano de 1995. O filme, quebra-cabeças montado fora de ordem cronológica, é na verdade uma clássica narrativa no estilo que Alfred Hitchcock nomeou de “who-dunit”: um jogo para que o espectador descubra qual a identidade do criminoso. Singer passa 101 minutos exercitando sua perícia em mostrar pistas falsas e esconder indícios do espectador, antes de revelar a verdade. Trata-se de um thriller excitante que inspira a platéia a vê-lo pela segunda vez, em busca de detalhes que poderiam ter ajudado a revelar o mistério.

Devido a essa característica, “Os Suspeitos” foi muito comparado, quatro anos depois do lançamento nos cinemas, ao suspense “O Sexto Sentido”. A única característica que os dois longas-metragens compartilham, no entanto, é o fato de que ambos estão ancorados em uma revelação-surpresa que acontece no final, revelação que leva a platéia a querer rever o filme à luz daquela nova informação. Em “O Sexto Sentido”, no entanto, o diretor M. Night Shyamalan espalha pistas sobre a natureza da sua revelação durante o filme, e espectadores mais atentos podem colher essas pistas, de modo que a segunda visão no filme pode ser tão (ou mais) prazerosa do que a primeira.

Isto não ocorre, a rigor, em “Os Suspeitos”. O filme de Bryan Singer é um intrincado labirinto de pistas falsas e atalhos que levam a lugar nenhum. Rever o filme pode ajudar o espectador a compreender melhor o quadro geral da ação narrada pelo filme, mas não vai revelar elementos que poderiam ter sido percebidos antes e, talvez, ajudado a platéia a desvendar o mistério. Sim, a direção é segura, e o filme segue uma lógica única – o ponto de vista de um dos personagens – do começo ao fim. Mas Bryan Singer não construiu a narrativa da forma limpa e clássica de Shyamalan; ela a quebrou em pedaços, torceu e encheu de detalhes, provocando na platéia a mesma confusão que assola o detetive Dave Kujan (Chazz Palminteri).

O longa-metragem acompanha o ponto de vista de Kujan, mas não é narrado por ele. O narrador é Verbal Kint (Kevin Spacey), um ladrão de segunda categoria, manco de uma perna. Verbal é a única testemunha ocular da explosão de um navio no porto de San Píer, um barco que continha 27 pessoas e a extraordinária soma de U$ 91 milhões. No local, estaria sendo negociado um carregamento de drogas, mas o evento foi sabotado por alguém, que Kujan suspeita ser um terrorista húngaro lendário no submundo da cidade, um sujeito conhecido pela alcunha de Keyser Soze.

Por que a suspeita? Bem, porque na verdade Verbal não é a única testemunha viva da tragédia. Um passageiro do navio sobreviveu, com o corpo totalmente queimado pela explosão. Mas o sujeito está em estado de choque, e durante as poucas horas de vida que lhe restam, não faz mais do que balbuciar, com expressão de lívido terror, as palavras Keyser Soze. O filme traduz em imagens a tentativa de Kurjan, de acompanhar a narração tortuosa de Verbal – que faz jus ao apelido que tem – para o desastre.

Segundo Verbal, o incidente começou a ser desenhado alguns dias antes, quando cinco criminosos conhecidos foram reunidos pela polícia para uma sessão de reconhecimento de suspeito. Os cinco eram suspeitos do roubo de um caminhão. Verbal, que é um dos cinco, sustenta que eles não se conheciam antes daquela noite passada na delegacia, quando combinaram um golpe muito maior – justamente o roubo do navio. Verbal sustenta que algo deu errado na noite do golpe, e sua narrativa confusa e trepidante confunde tanto o detetive quanto o espectador. Afinal, quem é Keyser Soze?

O filme tem um excelente elenco, liderado por Gabriel Byrne: os emergentes – depois astros premiados com o Oscar – Spacey (estatueta de coadjuvante por este mesmo filme) e Benicio Del Toro (coadjuvante por “Traffic”) estão entre os ladrões. Além disso, tem o mérito de ter dado partida à vitoriosa carreira de Bryan Singer, um dos melhores diretores de filmes de ação e aventura de Hollywood. Singer é um raro cineasta a tratar a platéia com respeito, sem supor que ela é formada por um bando de indigentes mentais. Suas tramas obrigam o público a pensar – e isso é um ótimo sinal em uma indústria que costuma tratar seus consumidores como meros receptores passivos de informação.

“Os Suspeitos” foi lançado no Brasil três vezes. Duas versões contêm o filme com qualidade inferior (imagem em tela cheia e trilha de áudio Dolby Digital 2.0). Já a Paramount lançou uma edição especial com o formato de imagem original (wide anamórfico) e som ótimo (DD 5.1). Mesmo assim, é pouco. Nos EUA, existe uma edição caprichada, com três documentários que somam 1h10, um deles explorando a lenda de Keyser Soze.

– Os Suspeitos (The Usual Suspects, EUA/Alemanha, 1995)
Direção: Bryan Singer
Elenco: Gabriel Byrne, Kevin Spacey, Benicio Del Toro, Chazz Palminteri
Duração: 101 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


2 comentários
Comente! »