Suspiria

05/08/2004 | Categoria: Críticas

Tour-de-force extravagante e explosivamente colorida de Dario Argento ganha DVD duplo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Extravagante. Se fosse preciso usar apenas uma palavra para descrever “Suspiria” (Itália, 1977), do cineasta Dario Argento, este seria o vocábulo mais adequado. “Suspiria” é um filme tido pelos seguidores do diretor como um dos trabalhos de horror mais assustadores de todos os tempos, menos por seu enredo e mais pelo clima sombrio e opressivo, criado a base de visual estilizado e música minimalista. Já os detratores acham o filme confuso e sem sentido. O excelente DVD duplo, que ganha edição nacional pela pequena Works Editora, confirma que todo mundo está correto.

Todo o trabalho do polêmico cineasta Dario Argento é marcado pela tentativa de transpor, para o gênero do horror, a tradição italiana de trabalhos fortemente estilizados. “Suspiria” talvez seja, entre os filmes de Argento, o que melhor atingiu esse objetivo. Na verdade, Argento está para o horror como Sergio Leone está para o faroeste. Ele retrabalha os ícones do gênero de maneira extremamente visual, plástica, com mais preocupação em construir um clima onírico e delirante do que em contar uma boa história. E isso é bom e ruim ao mesmo tempo.

A parte positiva de “Suspiria” é exatamente a sensação de pesadelo que o filme passa ao espectador. Argento constrói cada seqüência de maneira cuidadosa, esmerada, inserindo na trama – às vezes aleatoriamente – imagens e situações que estão, no inconsciente coletivo, sempre associadas ao medo (tempestades com raios e trovões, uma garota correndo no meio de uma floresta, personagens deformados ou com defeitos físicos). “Suspiria” é uma verdadeira explosão de cores quentes e fortes. O filme tem fortíssimas tonalidades vermelhas, azuis e verdes em literalmente todas as cenas. O visual barroco é realmente sensacional.

O outro ponto de destaque de “Suspiria” está na música. Argento trabalhou em associação com o grupo progressivo Goblin, compondo as canções antes de filmar. Ele estava seguindo um hábito excêntrico do mestre Sergio Leone, que o introduziu no cinema ao contratá-lo para co-escrever o roteiro de “Era uma Vez no Oeste”. A música do Goblin complementa o clima surreal e violento das imagens com perfeição; é construída com uma mistura de sussurros e sintetizadores. O tema principal simula uma canção infantil de apenas 14 notas que se repetem insistentemente. Soa realmente aterrorizante.

Dario Argento insiste que o objetivo de “Suspiria” era filmar uma história de bruxas filtrada pelos olhos de uma criança assustada. Cores e sons ajudam a atingir esse objetivo com eficiência. O lado ruim dessa escolha, entretanto, é que o enredo fica frouxo, confuso e indefinido. O roteiro tem poucos diálogos e muitos personagens parecem estar no longa-metragem apenas para dar sustos esporádicos no espectador, pois surgem e desaparecem na história sem maiores explicações.

No filme, Suzy Bannion (Jessica Harper) é uma adolescente norte-americana que chega à cidade medieval de Friburgo, na Alemanha, para se matricular em uma famosa escola para bailarinos. O avião pousa em uma noite de tempestade e, ainda no aeroporto, Suzy sente que algo está errado. Ela se torna um elemento importante na investigação que algumas alunas empreendem a respeito de uma lenda que fala sobre a prática de bruxaria dentro da escola. Enquanto isso, um misterioso e cruel assassino age na cidade.

Os crimes cometidos por esse assassino são mostrados por Argento com riqueza de detalhes (os assassinatos podem ser muito repulsivos para pessoas de estômago sensível). Não é à toa que o italiano logo se tornou influência essencial no trabalho de diretores norte-americanos de filmes B, como John Carpenter e George Romero. Ocorre que o cineasta, de tão preocupado com a unidade visual de “Suspiria”, esquece de desenvolver um roteiro coerente. Se não fosse isso, o filme seria mesmo uma obra-prima.

O lançamento brasileiro de “Suspiria” é digno de nota. O DVD tem dois discos e foi baseado na edição de colecionador feita nos EUA pela empresa Anchor Bay. O primeiro traz o filme, em três diferentes opções de corte (o original widescreen, Pan & Scan e Letterbox). A cópia restaurada é espetacular e valoriza o trabalho fantástico de saturação de cores feito pelo diretor de fotografia Luciano Tovoli.

O áudio é um caso a parte. Há uma trilha sonora em DTS 6.1, em inglês, com uma mixagem sonora vibrante e em volume muito alto, que explora todos os recursos dos seis canais de um home theater. O disco 1 ainda traz a trilha original em italiano, no formato Dolby Digital 2.0, dois trailers, um spot de TV e outro de rádio.

O disco 2 complementa o primeiro com um segundo filme: o documentário “O Mundo de Terror de Dario Argento”, de 57 minutos. O trabalho, feito pelo diretor Leon Ferguson em 2000, biografa o italiano com riqueza de detalhes. Inclui, além de cenas de bastidores de inúmeros filmes de Argento, depoimentos de gente como Carpenter e Romero, de vários atores que trabalharam com o cineasta e até dos roqueiros Alice Cooper e Keith Emerson, que se revelam fãs. Tudo com legendas em português.

A nota curiosa do lançamento é que, nos EUA, “Suspiria” foi lançado com um documentário diferente no disco 2, enfocando apenas a produção do filme. O filme de Ferguson pode ser encontrado à venda em DVD separado, na Região 1. Isso faz de “Suspiria” um lançamento nacional inteiramente exclusivo. A Works Editora merece os parabéns pela iniciativa.

– Suspiria (Itália, 1977)
Direção: Dario Argento
Elenco: Jessica Harper, Stefania Casini, Flavio Bucci, Joan Bennett
Duração: 98 minutos

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