Syriana – A Indústria do Petróleo

20/06/2006 | Categoria: Críticas

Intrincado painel sobre o Oriente Médio narra sete ou oito histórias fascinantes que envolvem petróleo e terrorismo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“Syriana – A Indústria do Petróleo” (EUA, 2005) é um filme tão complicado que escrever sobre ele provoca uma sensação de desorientação. Encontrar uma maneira de exprimir essa sensação desnorteante é o objetivo maior desta resenha sobre o filme de Stephen Gaghan, pois essa é a sensação que o leitor terá quando assistir ao longa-metragem. Fique com a seguinte imagem: alguém desmonta um jogo de quebra-cabeças e atira as peças na sua frente. Você olha o jogo desmontado e sabe que as peças, se montadas, mostrariam uma só imagem. Só que você não consegue encaixá-las. “Syriana” é assim, e é um filme tão complicado quanto fascinante.

O longa-metragem constrói um mosaico fascinante de sete ou oito histórias paralelas, envolvendo duas dúzias de personagens, para abordar a relação entre as grandes potências econômicas e o Oriente Médio. A classificação de “thriller geopolítico”, conferida ao trabalho pela crítica norte-americana, é adequada, mas não suficiente, porque não existe um fio condutor, nem um mistério a ser resolvido (apenas duas das histórias envolvem investigações). A trama intrincada interliga terrorismo, agentes secretos, advogados ricos, iraquianos pobres, política e economia internacional, formando um painel cínico e pessimista sobre o Oriente Médio. O pano de fundo de tudo isso é o petróleo. “Syriana” afirma, com todas as letras, que o óleo negro está na raiz de todas as questões importantes – econômicas, sociais e até religiosas – que envolvem aquela região do globo.

A expressão perfeita para classificar “Syriana” é o termo “hyperlink movie”, criada por blogueiros norte-americanos. O conceito diz respeito a produções que narram várias histórias interligadas. Os protagonistas de uma história se transformam em coadjuvantes de outras, e assim por diante. Robert Altman é um diretor especialista nessa técnica (“Short Cut” e “Assassinato em Gosford Park” são apenas alguns exemplos). Filmes como “Amores Brutos”, “Magnólia” e “Crash – No Limite” também se encaixam nele. O diretor não é um novato nesse tipo de trama; recebeu um Oscar pelo roteiro de “Traffic”, de Steven Soderbergh.

Aliás, “Traffic” é a melhor referência para quem deseja entender como é o filme de 2005; troque as drogas por petróleo e terá uma idéia bastante fiel do que é “Syriana”. A diferença está nos detalhes. “Syriana” é cinematograficamente superior porque jamais cai na tentação de explicar ou justificar moralmente os eventos que mostra. O filme tem um enredo extremamente intrincado, de inteligência muito acima da média (isso fica evidente nos diálogos, que circundam os temas sem a intenção de explicá-los em demasia) e é deliciosamente amoral. Não é um filme para quem gosta de relaxar no cinema, inclusive porque oferece um panorama assustador, e pessimista, da questão do Oriente Médio.

Na resenha que escreveu sobre “Syriana”, o crítico Roger Ebert disse o seguinte: “O enredo é tão complexo que não se supõe que devamos entendê-lo; somos envolvidos por ele. Se nenhum dos personagens consegue ver o quadro inteiro, porque nós deveríamos?”. A lógica é perfeita. Ao criar um filme interligando várias histórias que giram ao redor de um único tema, o petróleo, todas repletas de detalhes obscuros e complicados, Gaghan – que além de dirigir também escreveu o roteiro – provoca uma dificuldade quase intransponível para que o público consiga ver o painel sugerido pelo filme por completo. Se prestar bastante atenção, você consegue fazer conexões que o filme não realiza. Obrigar o público a participar ativamente da projeção, reciocinando sobre o que vê, é um trunfo dos bons thrillers.

Qual o objetivo dessa complicação toda? Talvez seja mostrar que, embora inúmeros setores da economia, da diplomacia e da política mundial tenham papéis de destaque a desempenhar no Oriente Médio, provavelmente nenhum deles possui uma idéia do quadro completo da situação. O filme sugere – mas não afirma, pois é mais sutil e complexo do que isso – que existem conexões entre a atuação dúbia da CIA em países como o Líbano e o recrutamento de homens-bomba entre os desempregados do Irã. Que uma conversa dentro de um palácio na Cazaquistão repercute no casamento de um consultor de empresas estabelecido em Genebra. Que uma reunião de empresários em Washington (EUA) se relaciona com a sucessão no trono de países do Oriente Médio. E por trás de tudo está a mancha negra do petróleo. É por aí.

Os personagens de “Syriana” não são heróis ou vilões. São gente normal, capaz de atitudes banais e extraordinárias, inteligentes ou ingênuas, boas e más. O filme de Stephen Gaghan não cai no erro de “Crash”, cujos personagens têm, cada um, pelo menos um par de cenas – uma em que desempenha o papel de mocinho e outra em que vira bandido. Em “Syriana”, há muitas áreas de sombra entre as duas coisas. O filme defende a tese de que o mundo é complicado demais para ser explicado em termos de dualidades. “Syriana” aposta, para usar uma palavra em desuso desde a queda da URSS, na dialética. Ou seja, o mundo é o resultado de uma soma de forças cuja totalidade só conseguimos intuir, não compreender.

O melhor exemplo disso talvez seja o personagem de Matt Damon, o consultor Bryan Woodman. Ele é um homem honesto, um pai de família atencioso, que trabalha em Genebra para uma empresa petrolífera. A trabalho, vai a uma festa no palácio de um sheik árabe multimilionário. Durante a festa, o filho de 6 anos dele sofre um acidente. Alguns dias depois, o sheik o chama para uma reunião e lhe oferece um contrato de US$ 100 milhões. “Quanto me paga pelo outro filho?”, responde Woodman, furioso. Depois de refletir, contudo, ele aceita o dinheiro, o que causa ira na sua mulher, Julie (Amanda Peet). Ele agiu certo ou errado? Você largaria um lucrativo e legítimo contrato de trabalho, pelo qual lutou, porque acha que a oferta pode ter uma motivação emocional, sendo uma compensação pelo acidente? Recusar o contrato seria uma atitude mais ética? Quem sabe?

A galeria de personagens de “Syriana” é enorme. Alguns têm mais tempo de tela, e outros menos, mas todos possuem importância crucial para desenhar o quadro completo que o diretor deseja passar. Esses personagens narram sete ou oito histórias paralelas, que algumas vezes se interligam (daí o termo “hyperlink movies”) através dos personagens. Há o agente da CIA Bob Barnes (George Clooney) e seu filho adolescente (Max Minghella); o consultor Bryan Woodman (Damon) e sua mulher Julie (Peet); dois príncipes que aspiram ao trono de um país árabe fictício (Akbar Kurtha e Alexander Siddig); o empresário Jimmy Pope (Chris Cooper), dono de uma empresa que detém os direitos de exploração de petróleo no Cazaquistão; o advogado Bennett Holliday (Jeffrey Wright), encarregado de investigar a fusão entre duas empresas do ramo de petróleo; iraquianos pobres que perdem os empregos; e muitos outros, alguns inclusive misteriosos, como Stan (William Hurt), cujo trabalho o filme não diz qual é.

A ação do filme passeia por dezenas de cidades e países, incluindo Washington, Houston, Genebra, Paris, Berlim, Londres, Tel-Aviv, Beirute, Cazaquistão e vários locais do Oriente Médio. Não há cenas de ação, e quase todas as seqüências contêm longos diálogos. O roteiro de Gaghan foi baseado em um livro escrito por um ex-agente da CIA, sujeito que inspirou levemente o personagem de George Clooney. O astro, aliás, é um dos produtores do filme, que financiou através da Session Eight, empresa que possui ao lado de Soderbergh. Clooney engordou quase 20 quilos, deixou a barba crescer e sofreu uma lesão na medula que afetou sua memória, durante uma cena de tortura (que está no filme). Ele personifica a imagem que fica de “Syriana”: desorientação e pessimismo.

O lançamento da Warner está em disco simples e sem extras. O enquadramento original está preservado (widescreen anamórfico) e o som é apenas razoável (Dolby Digital 2.0).

– Syriana – A Indústria do Petróleo (EUA, 2005)
Direção: Stephen Gaghan
Elenco: George Clooney, Matt Damon, Jeffrey Wright, Christopher Plummer
Duração: 126 minutos

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