Taça do Mundo É Nossa, A

20/09/2004 | Categoria: Críticas

Estréia cinematográfica do Casseta e Planeta é filme bem produzido, mas com poucas piadas engraçadas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

A turma do Casseta e Planeta foi corajosa. Ao invés de fazer um filme de esquetes com os personagens mais famosos do programa semanal de TV que comandam, os humoristas cariocas preferiram construir um roteiro 100% original para a estréia cinematográfica do grupo. Portanto, aí vai um aviso importantíssimo: não adianta comprar o ingresso e esperar para ver Seu Creysson (Cláudio Manoel) ou Montanha (Bussunda). Os personagens são todos inéditos.

Outra opção do grupo foi escrever um longa-metragem clássico, com começo, meio e fim. Eles evitam, assim, a idéia (sedutora, do ponto de vista comercial) de escrever um mero programa ampliado de televisão, com esquetes e muito improviso. O filme é cinema sim, com cenários bem construídos e variação de planos que favorece o ritmo (panorâmicas, closes e travellings alternados). A estética do trabalho se afasta da estética das produções toscas do grupo para a TV.

Apesar de filmado em HD (vídeo digital de alta definição, formato que ainda apresenta limitações técnicas), o trabalho custou R$ 4,9 milhões e foi produzido com esmero – talvez este seja, até aqui, o longa nacional mais bem sucedido, em termos de efeitos especiais. Há até uma estátua que anda e parece verdadeira, mais ou menos na linha do que Peter Jackson fez em “Almas Gêmeas”.

Tudo isso são méritos do Casseta e Planeta. Essas escolhas mostram que o grupo optou pelo caminho mais difícil e tratou o projeto, que já tem cinco anos, com muita seriedade. E aí vem o problema maior de “A Taça do Mundo É Nossa” (Brasil, 2003). Talvez essa seriedade, que fez o grupo trabalhar no roteiro por dois anos inteiros, ensaiar as cenas exaustivamente e evitar improvisos, tenha se refletido nos sets de filmagem. Digo isso porque o maior atrativo de qualquer trabalho de uma trupe humorística está nas piadas. E em “A Taça do Mundo É Nossa” elas são ruins, chatas até. “Os Normais – O Filme”, mais TV e menos cinema, é muito mais engraçado.

Esse é um filme em que a platéia ri pouco. Para cada pérola genial que sai da boca de Bussunda, Hélio De La Peña ou Hubert (o trio que domina a tela), existem pelo menos duas ou três piadas idiotas, daquelas que a platéia fica até constrangida porque não tem a menor graça. Isso jamais aconteceu, por exemplo, nos longas do grupo Monty Python, sem dúvida a maior inspiração do Casseta e Planeta (como o sexteto inglês, os cassetas interpretam cinco ou seis personagens cada um, muitas vezes travestidos de mulher).

A favor do longa estão a curta duração (90 minutos), a cuidadosa produção e a trama, que tira sarro (pela primeira vez nos cinemas nacionais) da ditadura militar. Nela, Wladimir Illitch Stalin Tse Tung Guevara, também conhecido como Frederico Eugênio (Bussunda), lidera um grupo de atrapalhados terroristas que rouba a taça Jules Rimet, em pleno ano de 1970. O grupo inclui um cantor de churrascaria, Peixoto Carlos (Hubert), e um anarquista maconheiro, Denilson (Hélio De La Peña).

Apesar dos altos e baixos, há momentos interessantes (Denilson fumando um sanduíche de presunto, a reunião em que os militares decidem, com carrinhos e aviões de brinquedo, a melhor maneira de atacar o covil dos terroristas) e um final que brinca com os clichês típicos do ‘happy end’ de Hollywood. E há também uma gozação com os críticos de cinema – hilariante, por sinal – que soa meio premonitória. Apesar disso, o filme é bilheteria garantida.

– “A Taça do Mundo É Nossa” (Brasil, 2003)
Direção: Lula Buarque de Hollanda
Elenco: Bussunda, Hélio de la Peña, Hubert, Reinaldo, Beto Silva, Cláudio Manoel, Marcelo Madureira, Maria Paula
Duração: 90 minutos

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