Tarnation

25/04/2007 | Categoria: Críticas

Documentário de Jonathan Cauette constrói narrativa meio documental, meio ficcional abrindo um baú de memórias

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

As primeiras imagens de “Tarnation” (EUA, 2003) deixam claro que este não é um filme comum. Em uma espécie de prólogo, somos apresentados a Renee e Jonathan, mãe e filho de uma família disfuncional do Texas, um dos estados mais conservadores dos EUA. Ele se apresenta como aspirante a cineasta, gay e cosmopolita, que vive em Nova York. Ela, ex-modelo infantil que teve a mente devastada por sucessivos tratamentos de choque, acaba de sofrer uma overdose de lítio (medicamento usado para combater a depressão). As imagens de Jonathan chorando, arrasado, ao receber a notícia, são de partir o coração. Mas foi a partir deste acontecimento terrível que a idéia de “Tarnation” nasceu. Naquele momento, Jonathan decidiu fazer um filme sobre a relação mãe-filho.

Para isto, o rapaz decidiu lançar mão de um extenso arquivo pessoal. Ou seja, tratou de organizar e montar a jornada da vida dos dois, Jonathan e Renee, usando material amador: fitas de VHS vagabundas, trechos de filmes caseiros em Super-8, fotografias, fitas de áudio, recortes de jornal e tudo que lhe ajudasse a reconstituir a trajetória da família, desde o casamento dos avós maternos, em meados dos anos 1950. A decisão mais importante, contudo, foi de tornar o projeto algo mais do que um filme – uma espécie de sessão de terapia em forma de cinema. “Tarnation” não se parece com nada do que você viu antes, porque expõe de maneira devastadora os momentos mais íntimos daquela família.

À parte a competência óbvia do cineasta no trabalho de edição (e ele sabe muito bem disso, já que inicia os créditos de abertura com o próprio nome, não como diretor, mas como montador), Jonathan Caouette transformou o filme em um duríssimo ajuste de contas com o passado. É visível, absolutamente evidente, a tentativa de expiar a dor das duas vidas através do processo de construção de uma narrativa (em parte ficcional) objetiva sobre elas. O resultado, de forte impacto emocional, cumpre perfeitamente o duplo objetivo do cineasta – homenagear a memória da mãe e expiar a culpa e a dor que sente. Por outro lado, o resultado levanta uma ou duas questões de foro moral, que merecem uma reflexão mais atenta.

Não há dúvida de que as histórias de Renee e Jonathan são tragicamente cinematográficas. Ou melhor, talvez seja mais adequado se referir à história única de duas pessoas, já que o próprio filme deixa claro que os acontecimentos envolvendo Renee foram diretamente responsáveis pela formação da personalidade histriônica de Jonathan. A origem do comportamento idiossincrático do rapaz está intimamente ligado aos problemas da mãe. Criado pelos avós, Jonathan já era gay aos 11 anos, freqüentava clubes punk vestido de menina aos 13 e interpretava personagens ficcionais – sempre mulheres depressivas – em curtas underground que filmou durante a adolescência e também na idade adulta. Tudo isso enquanto Renee era estuprada, passava longas temporadas no hospital psiquiátrico e desenvolvia uma obsessão por Elizabeth Taylor.

A decisão de abrir o baú de memórias da família, compilar os momentos mais dolorosos, montá-los cuidadosamente e exibi-los em cinemas esbarra em questões éticas bastante complexas. É uma situação que vem se revelando cada vez mais comum nos documentários contemporâneos: a perda contínua de privacidade, levada a cabo através do uso de imagens caseiras, privadas, em filmes comerciais. Ao fazer isso, “Tarnation” se alia a títulos como “Na Captura dos Friedman” (2003) e “O Homem-Urso” (2005), que viram e reviram, com bastante naturalidade, a intimidade mais prfunda de seres humanos, expondo para o mundo inteiro aqueles momentos particulares que talvez só pertençam àqueles que os viveram.

Pode-se argumentar que Caouette tem todo o direito de exibir tais imagens, já que dizem respeito a ele e à família dele, e foram registradas pelo próprio. Mesmo assim, há momentos polêmicos, como aquele em que o diretor confronta o avô sobre os tratamentos de choque sofridos pela mãe na juventude, uma cena longa que se desenvolve de maneira angustiante, com um velho que mal consegue falar sendo sistematicamente posto contra a parede pelo neto, ávido por respostas a ma pergunta que talvez não posso mais ser respondida. A questão é até óbvia: por que confrontar um parente, sobre um assunto tão delicado, com a câmera ligada? Será que ele não tinha direito a ver respeitada a privacidade?

Talvez esta técnica de obter informações a fórceps revele algo mais a respeito da natureza criativa (ou seria destrutiva?) do cineasta. Afinal, é evidente que Caouette se esforça para inserir elementos ficcionais na narrativa da própria vida. Ou o que seria a trilha sonora melancólica (Nick Drake, Cocteau Twins) que vai do início ao fim do filme de forma ininterrupta, se não uma tentativa de agregar à narrativa um estado de espírito? E o que dizer da edição em ritmo de videoclipe gigante? Ao final, fica a impressão de que Jonathan e Renee são duas figuras semi-mitológicas, como o minotauro – metade reais, metade ficcionais, imagens que só existem por inteiro dentro do ambiente virtual de um filme.

De alguma forma, “Tarnation” se insere em uma linhagem de obras, tanto documentários quanto ficções, que abordam a perda progressiva de limite entre ficção e realidade, nos tempos contemporâneos. É uma lista longa, da qual fazem parte obras díspares como “Matrix” e “eXistenZ”. O fato de que Caouette editou todo o longa-metragem em casa, utilizando um computador Macintosh e um software gratuito de edição chamado iMovie, apenas reforça a idéia de apagamento entre real e ficção, entre a vida que se vive e a vida que se imagina. Goste ou não de filmes assim, “Tarnation” é uma experiência cinematográfica que vale a pena.

Embora exibido no Brasil em mostras de cinema durante o ano de 2004, o longa-metragem nunca foi lançado por aqui comercialmente, nem mesmo em DVD. Nos EUA, o disco tem comentário em áudio de Caouette, cenas inéditas e dois trechos cortados do filme. As imagens estão no formato original (1.37:1) e o áudio é Dolby Digital 5.1.

– Tarnation (EUA, 2003)
Direção: Jonathan Caouette
Documentário
Duração: 88 minutos

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