Taxi Driver

18/09/2007 | Categoria: Críticas

Martin Scorsese cria obra-prima da neurose urbana a partir de galeria impecável de bons personagens

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Se no futuro os cineastas tivessem que ser lembrados por um único trabalho, escolher apenas uma obra para representar o trabalho de Martin Scorsese seria um grande problema. Um dos maiores diretores norte-americanos da segunda metade do século XX, ele fez uma série de obras-primas, algumas injustiças ou semi-desconhecidas. E, embora tenha assinado maravilhas do naipe de “Touro Indomável”, é provável que a maioria dos cinéfilos carimbaria “Taxi Driver” (EUA, 1976) como o ápice da carreira de Scorsese. Talvez a produção não seja necessariamente a melhor ou mais bem acabada do nova-iorquino, mas é certamente o filme-síntese da carreira de um dos homens mais talentosos e apaixonados por cinema que filmaram em Hollywood.

Craque em todas as áreas da arte de filmar, Scorsese está muito além do mero status de comentarista social (embora o faça com mais propriedade do que outros companheiros de geração, como Francis Ford Coppola e Steven Spielberg), como alguns tentam caracterizá-lo. É um cineasta excepcional, verdadeiro gênio na direção de atores, e um artesão capaz de dominar com perfeição todas as nuances da arte de dirigir uma filmagem, da escolha de locações à montagem, da trilha sonora aos ruídos de fundo. Em meio às várias obras-primas que dirigiu, “Taxi Driver” ganha um destaque especial por realizar um estudo primoroso da solidão, capturando em celulóide um retrato pungente da vida em metrópoles.

Travis Bickle (Robert De Niro) é um ex-combatente no Vietnã que voltou a Nova Iorque com insônia crônica. Com nítida dificuldade de adaptação, ele simplesmente não consegue se conectar emocionalmente com ninguém. Como não consegue dormir, arruma um emprego como motorista de táxi durante as madrugadas. Noite após noite, dirige pelos guetos de Nova Iorque, tomando contato com a fauna habitual de prostitutas, drogados, assaltantes e cafetões. Detalhe: ele odeia cada minuto disso. De dia, como um zumbi, Bickle perambula pelas ruas e fala sozinho diante do espelho. Um indivíduo claramente perturbado.

O negócio começa a complicar quando ele conhece Betsy (Cybill Shepherd), funcionária da campanha de eleição à Presidência de um senador. A paixão é instantânea e, apesar da abordagem esquisita, a garota parece corresponder – pelo menos é isso que ele imagina. Enquanto faz a corte de Betsy de maneira esquizóide, Bickle cruza o caminho de Iris Steensma (Jodie Foster), uma prostituta de apenas 12 anos, que apanha do cafetão e namorado, Sport (Harvey Keitel). Os dois encontros vão, cada um à sua maneira, dar um nó de uma vez na confusa mente do ex-soldado. Daí para um banho de sangue é só um pulo.

O filme é uma obra-prima genial, uma das grandes obras de arte jamais produzidas pelo cinema. Para começar, a construção do personagem principal jamais é menos do que sensacional. Uma após a outra, as pequenas ações cotidianas de Travis Bickle indicam ao espectador o quanto ele é perturbado. A maneira que o sujeito encontra para forçar uma aproximação com Betsy demonstra isso claramente. Bickle não tem barreiras. Não sabe como ou onde parar. Mistura indistintamente gentileza e vulgaridade, de forma que as pessoas (e o espectador) nunca têm idéia do que ele fará a seguir.

O segundo encontro entre os dois, em que o taxista a leva para assistir a um filme pornográfico com a tranqüilidade de quem está indo à ópera, é um excelente exemplo do quanto Bickle é perturbado. Quando Betsy reclama do programa esdrúxulo, ele fica nitidamente ofendido, sem sequer entender que fez algo errado. Rejeitado, vai mais fundo na paranóia. De qualquer forma, é o encontro fortuito entre Bickle e o candidato à Presidência, Charles Palantine (Leonard Harris), dentro do táxi, que dá a medida exata da precisão do texto perpetrado pelo roteirista Paul Schrader (o verdadeiro cérebro por trás do projeto, segundo o próprio Scorsese).

Bickle e Palantine travam um diálogo aparentemente banal, sem importância. Bickle dispara uma saraivada de elogios ao senador, com rosto enigmático, entre o cínico e o sincero. Palantine agradece, devolvendo a ambigüidade ao manter-se entre lisonjeado e assustado. Ambos – e o espectador – sabem que há ali, naquele momento, alguma coisa errada. O significado do encontro vai muito além da conversa, da superfície. Sob a cortina de gentileza do taxista, existe um animal à espreita. O roteiro não diz isso claramente; o espectador precisa intuir. Ele participa do filme. Raros cineastas são capazes de envolver tanto o público quanto Scorsese.

Não é preciso dizer que a interpretação de Robert De Niro beira o antológico. O homem começou a virar uma lenda com esse papel, e entrega-se a ele com convicção e profundidade. Seus monólogos diante do espelho são patéticos e dolorosos, tamanha a solidão que exalam, e ainda produzem uma frase que seguiu direto para a antologia dos grandes momentos do cinema: “Você está falando comigo?”, repetida incessantemente e com uma arrogância do tamanho do revólver Magnum 44 que ele carrega consigo. Detalhe: o genial monólogo foi criado de improviso por Robert De Niro.

De quebra, todo o elenco acompanha o ritmo do protagonista. Jodie Foster oferece um desempenho estarrecedor como uma criança que já viu de tudo, e Harvey Keitel brilha como o canalha que a explora sem traços de culpa. O fotografia saturada, com grande predomínio de cenas noturnas, e a trilha sonora nervosa de Bernard Herrmann contribuem decisivamente para emprestar a “Taxi Driver” a atmosfera tensa e violenta que o filme pede. A violência gráfica do terceiro ato é encenada com absoluta perfeição. E o final ambíguo encerra o trabalho com chave de ouro e provoca, até hoje, discussões sobre o verdadeiro destino de Travis Bickle.

A rigor, “Taxi Driver” é prova cabal de que um filme pode ser muito mais do que uma peça de distração e entretenimento fáceis. Sem precisar apelas para a verborragia, Scorsese foi capaz de criar uma obra de múltiplas interpretações. “Taxi Driver” é um flerte de amor e ódio com uma metrópole bela e suja, e retrata a inabilidade social e a solidão de uma pessoa perturbada, de maneira pungente e devastadora. Não por acaso, o filme de Scorsese apontou o caminho que o cinema seguiria nas décadas seguintes, especialmente no que se refere à representação cinematográfica da violência. Uma obra que captura o zeitgeist – o espírito – de sua época como poucas.

Há duas versões do DVD. A primeira, simples, tem “Taxi Driver” com ótima qualidade de imagem (widescreen 1.85: 1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), o roteiro completo com as notas escritas por Scorsese e um documentário jóia (70 minutos). O problema é que tudo está sem legendas. Melhor é a versão dupla, que tem este mesmo documentário com legendas, mais sete featurettes (todos entre 7 e 22 minutos) e dois comentários em áudio, um de Paul Schrader e outro de um professor de Cinema, especialista no cinema norte-americano dos anos 1970, que analisa o filme e aponta influências sofridas por Scorsese, como os filmes de Godard e Fassbinder. Uma comparação filme/storyboards, galeria de fotos e o roteiro original, com notas rabiscadas a mão por Scorsese, completa o pacote. O problema dessa edição dupla está nas legendas do filme em si, “censurada” para eliminar os palavrões e gírias que os personagens falam aos borbotões (e que estão presentes no disco simples). Lamentável.

– Taxi Driver (EUA, 1976)
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Robert De Niro, Jodie Foster, Harvey Keitel, Cybill Shepherd
Duração: 113 minutos

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