Team America – Detonando o Mundo

14/06/2005 | Categoria: Críticas

Criadores de ‘South Park’ fazem comédia OK com marionetes, mas começam a se repetir

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O maior charme da telessérie “South Park” sempre esteve na animação tosca, que ia pouco além de bonecos de cartolina recortados, abrindo e fechando as bocas. É uma animação feita às pressas, de forma amadora, oposta por completo ao estilo que consagrou gigantes do gênero, com a Disney e, mais recentemente, os estúdios Pixar. Em “Team America – Detonando o Mundo” (Tem América: World Police, EUA, 2004), os dois criadores do seriado, Matt Stone (roteirista, produtor e dublador) e Trey Parker (diretor, roteirista e vozes), substituem a animação por marionetes. Isso quer dizer que “Team America” é um filme com bonecos pendurados em fios, ao invés de atores. Seria a tosqueira em versão 2.0?

Resposta: não. Se a intenção de Parker e Stone era ir mais fundo na sátira, “Team America” fica longe de atingir seu objetivo. O motivo para isso é que, dessa vez, os dois decidiram fazer cinema. Contrataram um fotógrafo do primeiro time (Bill Pope, responsável pelo visual da trilogia “Matrix”) e uma equipe que recriou, em estúdio, cenários perfeitos e hiperdetalhados em miniatura. Dessa forma, o longa-metragem pôde terminar com uma aparência verdadeiramente profissional, o que inclui reproduções em miniatura de locações famosas, como as pirâmides do Cairo e a região dos monumentos históricos de Paris.

O cenário mais bacana de todos é a fortaleza secreta da equipe, com uma sala de controle inspirada na “sala da guerra” de “Dr. Fantástico”, de Kubrick, e um computador falante que remete ao HAL de “2001”, do mesmo diretor. Pois é, os criadores de “South Park” também citam um dos mais sérios e cerebrais cineastas da história, o rabugento Stanley Kubrick. Talvez isso dê uma pista concreta das ambições de “Team America”: cinema vagabundo que, em algum patamar quase inconsciente, se pretende sério.

O fato é que Bill Pope aproveita todos esses cenários e faz um excelente trabalho, cuidando dos enquadramentos, realizando tomadas aéreas e seqüências com movimentos sofisticados de câmera. Mas isso, no mundo de Trey Parker e Matt Stone, não pode ser considerado exatamente um elogio. Tudo bem, os dois fizeram questão de produzir todo o longa com marionetes, sem apagar os fios que movimentam os bonecos, e isso mantém um certo nível de tosqueira no produto final. Mas é evidente que a dupla não está mais satisfeita em apenas fazer rir; eles querem ser levados a sério. E isso, amigos, é o princípio da morte de qualquer comediante.

Como filme de aventura, “Team America” ganha pontos pela originalidade no tratamento visual, mas perde pelo excessivo conservadorismo na estrutura narrativa. O filme relata as aventuras de um esquadrão de elite norte-americano, o Team América do título. Na seqüência de abertura, que é bem interessante, o grupo impede um ataque terrorista em Paris, mas termina com uma baixa, além de destruir os monumentos históricos da cidade, como a Torre Eiffel e o Arco do Triunfo. Aliás, uma das melhores piadas da obra está aqui, porque o grupo não dá a mínima atenção ao estrago que fazem em uma das cidades mais belas do mundo.

A baixa na equipe vai ser preenchida por um ator, Gary. Ele é o elemento que precisa se infiltrar entre os terroristas para descobrir qual o mega-ataque de escala mundial que a Al Qaeda está armando. Acontece que Gary não está seguro de que possui as habilidades necessárias para fazer isso, e ainda por cima rola um clima de romance entre o rapaz e uma das mulheres que fazem parte da equipe, Lisa.

Há ótimas piadas e gags visuais no filme. A melhor cena é provavelmente uma longa noite de aventuras sexuais, de uma forma que elevou a censura do filme nos EUA para 18 anos – atenção na informação, pois este é um filme de marionetes! Também batem ponto as seqüências musicais, já presentes no longa anterior da trupe, “South Park – Maior, Melhor e Sem Cortes”. Aqui, a canção que detona a superprodução “Pearl Harbor” é uma das mais engraçadas dos últimos tempos. Sozinhas, as duas cenas descritas já valeriam o filme.

Infelizmente, dessa vez Parker e Stone não souberam manter o ritmo frenético das piadas. Em muitos momentos, o filme simplesmente vira uma aventura convencional, com longos trechos sem que o espectador dê uma risada sequer. Pior: existem, em bom número, as infames piadas recicladas que você já ouviu antes, como a cena em que Gary fica bêbado e proporciona um verdadeiro festival de vômito, algo que os filmes norte-americanos para adolescentes já estão cansados de mostrar.

A verdade é que a série “South Park” sempre soube escancarar a sátira através da tosqueira da animação. A sofisticação no uso de bonecos, aqui, mata o saudável desprezo pelos recursos técnicos do longa-metragem anterior, e a inspiração com o texto já não é a mesma. No melhor estilo “metralhadora giratória”, Parker e Stone desancam tudo e todos, incluindo a gangue politizada de atores de Hollywood (Sean Penn, uma das vítimas das troças, chegou a escrever uma carta para a revista Rolling Stone, detonando os diretores) e Michael Moore. Eles também enchem o longa de mortes violentas (afinal, matar um boneco não é um problema) e fazem um terceiro ato bobo, escancarando finalmente as preferências republicanas, e portanto conservadoras, de ambos.

De qualquer forma, “Team America” tem elementos de qualidade e merece ser visto. Mas não há dúvida de que a criatividade de Matt Stone e Trey Parker começa a escassear, e a dupla já se repete sem muita cerimônia. Tomara que o próximo longa-metragem da dupla faça melhor.

Ao contrário do filme, o DVD da Paramount é impecável. Traz o corte original widescreen, uma trilha de áudio Dolby Digital 5.1 muito alta e clara, e oito mini-documentários que juntos formam um grande painel sobre as filmagens e o cansativo trabalho com os bonecos. Os featurettes sobre os cenários em miniatura e o que mostra o trabalho dos manipuladores de bonecos são interessantes, bem originais e divertidos. Ao todo, são 54 minutos de detalhes técnicos.

Há uma galeria de cenas excluídas, outra com erros de gravação, seis cenas que podem ser vistas ainda no estágio de storyboards animados, com rascunhos de desenhos, além de dois trailers. Todo o material vem acompanhado de legendas.

– Team America – Detonando o Mundo (Tem América: World Police, EUA, 2004)
Direção: Trey Parker
Animação
Duração: 107 minutos

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