Tempo das Diligências, No

22/06/2004 | Categoria: Críticas

John Ford faz um filme delicioso e cria dois mitos do faroeste: Monument Valley e John Wayne

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Hollywood está repleta de lendas cinematográficas. Uma delas afirma que Orson Welles teria assistido pelo menos 40 vezes ao filme “No Tempo das Diligências” (Stagecoach, EUA, 1939), de John Ford, enquanto estava planejando a obra-prima “Cidadão Kane”. Não é possível ter certeza disso, mas é certo que Welles jamais escondeu a influência que o cineasta de origem irlandesa exerceu nele. Certa vez, quando perguntado quais eram os três maiores diretores do mundo, disparou: “John Ford, John Ford e John Ford”.

“No Tempo das Diligências” não é apenas um bom western. O filme apresenta uma capacidade extraordinária de utilizar imagens panorâmicas de paisagens naturais para realçar e amplificar as sensações contidas nas cenas fechadas, com closes e diálogos em planos americanos, em que os personagens aparecem da cintura para cima. John Ford foi provavelmente o primeiro cineasta que conseguiu criar uma linguagem visual capaz de fazer a ação nos espaços fechados (os conflitos, as tensões) ecoar e ganhar significados mais amplos nas cenas abertas.

Nesse sentido, Ford é o pai da psicologia do cinema, e “No Tempo das Diligências” foi sua primeira grande experiência nesse sentido. O uso que ele fez da região do Monument Valley – um trecho de 48 quilômetros de extensão, na fronteira dos estados de Utah e Arizona, nos EUA – fincou âncora de forma tão definitiva, no imaginário coletivo, que a imagem mental que quase todas as pessoas associam à época do Velho Oeste corresponde à poeira avermelhada e os morros quase verticais, em forma de mesas, esculpidos pelo vento, do local. O Monument Valley se transformou, a partir de Ford, num símbolo poderoso do gênero faroeste.

O diretor ficou totalmente enfeitiçado pelo vale, que utilizou pela primeira vez na carreira justamente em “No Tempo das Diligências”. Aquela se tornaria sua região favorita para filmes do estilo, e ele a usaria em outros seis longas-metragens, incluindo os clássicos “Rastros de Ódio” e “Paixão dos Fortes”. O impacto das imagens da região quente e desolada foi tão grande em Hollywood que grandes diretores de diferentes gerações, a exemplo de Howard Hawks e Sergio Leone, também foram filmar em Monument Valley, seguindo os passos do mestre.

O uso pioneiro de uma das mais famosas locações de todos os tempos não é, nem de longe, a única inovação de “No Tempo das Diligências”. O filme tem vários outros méritos. Um deles é o poder de síntese. John Ford foi capaz de reunir, em uma trama simples e eficaz, muitos dos personagens-ícones do período do western: a prostituta, o jogador de cartas, o pistoleiro injustiçado, o médico bêbado, o xerife inflexível, o banqueiro corrupto, o caixeiro viajante. Ford juntou todos eles em uma viagem suicida de diligência, atravessando uma região assombrada pelo índio rebelde Gerônimo, e fez uma espécie de road movie alucinado pelas paisagens – humana e geográfica – mais famosas do Velho Oeste.

A apresentação desses personagens acontece em seqüências curtas que, juntas, duram pouco mais de 10 minutos. Ao todo, são oito esquetes que se conectam de maneira criativa, apresentando os personagens e suas motivações em situações rápidas. Logo, o espectador embarca na diligência junto com oito deles. O nono é o segundo mito do faroeste que John Ford ajudou a criar: John Wayne, aqui no papel de Ringo Kid. Ele se junta à trupe no meio da viagem, e vários conflitos paralelos começam a surgir, o que permite a Ford ultrapassar os limites do faroeste comum e construir uma história cheia de comentários sociais. Dessa forma, se a moldura de “Nos Tempos das Diligência” é puro faroeste clássico, o conteúdo vai além, conectando diversas tramas paralelas e permitindo reflexões sobre temas como culpa, ambição, moral e idealismo.

Tudo isso resulta em um filme admiravelmente coeso, com montagem ágil, cheio de imagens belas. Há, inclusive, algumas seqüências antológicas do gênero; a mais inesquecível de todas talvez seja a que mostra o ataque dos índios à diligência, que abre com uma espetacular tomada panorâmica em 180º do Monument Valley, passa por um dos tiroteios mais bem coreografados até então e encerra em um lindo plano sem palavras, em que o som de uma corneta militar interrompe um dos momentos mais dramáticos que o cinema vira até então. Embora o DVD brasileiro esteja sem extras, com som Mono e imagens arranhadas, o valor histórico e cinematográfico de “No Tempo das Diligências” é enorme.

– No Tempo das Diligências (Stagecoach, EUA, 1939)
Direção: John Ford
Elenco: John Wayne, Claire Trevor, Andy Devine, John Carradine
Duração: 95 minutos

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