Tempo e o Lugar, O

12/05/2009 | Categoria: Críticas

Próximo do estilo de Eduardo Coutinho, documentário perfila agricultor quixotesco do interior de Alagoas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Em março de 1996, o cineasta Eduardo Escorel recebeu a missão de ir até Inhapi (AL), para fazer o perfil de um agricultor e líder comunitário da região semi-árida de Alagoas. Na ocasião, ele era um dos cineastas envolvidos na produção da lendária série de comerciais intitulada “Gente Que Faz”, bancada pelo Bamerindus, que ia ao ar nas noites de sábado. Dos 30 personagens que Escorel perfilou durante o programa, nenhum impressionou mais do que Genivaldo Vieira da Silva. Ao final dos três dias de gravações, o cineasta pediu licença ao agricultor, gravou um depoimento pessoal dele em fita cassete e passou os onze anos seguintes batalhando para transformar aquela história em filme. “O Tempo e o Lugar” (Brasil, 2007) é o resultado desse esforço.

O documentário lembra bastante o trabalho de Eduardo Coutinho, especialmente em filmes como “O Fim e o Princípio” (2005). Neste último caso, as semelhanças vão muito além do tom de informalidade, da escolha de personagens anônimos, dos depoimentos calorosos. A geografia da região enfocada é a mesma (o documentário de Coutinho foi feito na Paraíba, uns 500 km ao norte), a narração em off que abre o filme de Escorel também explica o método de trabalho ao espectador, os inserts utilizados para intercalar cenas distantes têm enorme semelhança, destacando cenas curiosas do cotidiano dos agricultores, como a passagem de uma bicicleta com publicidade pelas ruas da cidadezinha (Coutinho usou uma tomada muito semelhante, em que um rapaz de bicicleta pastoreia o gado). Até mesmo a sonoridade do título é parecida.

Tudo isso poderia depor contra o longa-metragem de Escorel, caso a relação entre ele e o grande documentarista brasileiro não fosse de íntima, pessoal e profissionalmente. Escorel não é um cineasta qualquer. Possui uma folha corrida respeitável como montador, tendo assinado a edição de clássicos como “Macunaíma”, “Terra em Transe” e “Cabra Marcado Para Morrer” – este último, não custa lembrar, uma das produções que definiram a linguagem e o ritmo dos trabalhos de Coutinho, que a dirigiu. Portanto, Escorel não pode ser reduzido à figura de um copycat, um imitador. Ele participou da gênese do estilo de Coutinho. É um autor genuíno, embora seu currículo como diretor não seja, nem de longe, tão impressionante quanto a lista de trabalhos que assinou como montador.

“O Tempo e o Lugar” não poderia ser um bom filme sem focalizar um bom personagem. Nessa questão fundamental, Escorel acertou. Genivaldo Vieira da Silva tem o carisma dos líderes natos, e uma história de vida incomum. Ele começou a militar através das pastorais da Igreja Católica. Foi dirigente do MST por cinco anos. Concorreu à Prefeitura de Inhapi pelo PT. Nunca perdeu o tesão pela militância, mas também jamais deixou de ser um solitário lutando por uma causa sem se prender a dogmas, um Quixote do agreste. Por causa disso, não conseguiu se fixar em nenhum movimento. Afastou-se da Igreja quando esta perdeu seu caráter político, nos anos 1980. Foi expulso do MST porque discordava publicamente das lideranças nacionais do movimento. Desiludiu-se com a política partidária. E não faz qualquer questão de doutrinar os seis filhos, cujas atitudes são birrentas como as do pai.

Para perfilar o personagem, Escorel cerca Genivaldo de todos os lados. Explora sai vida íntima, sua ideologia política, suas memórias, suas relações de afeto com filhos, amigos e vizinhos. Traça, ainda, um panorama completo do cenário que rodeia o agricultor, especialmente no aspecto político. Uma das virtudes de “O Tempo e o Lugar” é a forma como o filme consegue capturar e revelar pequenas nuances da cultura do interior nordestino, algo que a observação superficial do personagem não permitiria revelar – detalhes como índole teimosa e a importância da noção de família. Por outro lado, o filme passa tempo demais ao lado de personagens como os seis filhos de Genivaldo, que são claramente menos interessantes do que o pai. O resultado final é um documentário interessante, mas que não chega a ser extraordinário.

O DVD da Videofilmes capricha na qualidade, como de hábito para os lançamentos da empresa. Além do filme (com aspecto de imagem original, versão letterbox, e som em Dolby Digital 2.0), há trechos de mais entrevistas com Genivaldo, um featurette com a reação dele durante passagem pelo Rio para divulgar a obra e trailers.

– O Tempo e o Lugar (Brasil, 2007)
Direção: Eduardo Escorel
Documentário
Duração: 103 minutos

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