Tenebre

25/12/2006 | Categoria: Críticas

Giallo de Dario Argento tem visual bem elaborado e trama simples, mas difícil de antecipar

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Ao se preparar para filmar “Tenebre” (Itália, 1982), o cineasta Dario Argento vinha de duas investidas no horror com toques sobrenaturais, estilo que destoava bastante das primeiras quatro obras que dirigira. Para saciar a vontade dos fãs de longa data, que cobravam um retorno de Argento ao giallo (o thriller de suspense à italiana), o diretor escreveu “Tenebre”. Trata-se de um autêntico giallo, e provavelmente o filme de Argento em que este mais brinca de gato e rato com a platéia, desafiando-a de maneira explícita a solucionar o mistério antes dos personagens.

Cabe aqui uma rápida explicação sobre o gênero. O giallo (palavra que significa “amarelo” em italiano) nasceu em meados dos anos 1960, como transposição para o cinema das aventuras policiais em que detetives precisam identificar e prender loucos assassinos em série. Nas telonas, os giallos ganharam características específicas: os matadores sempre utilizam luvas de couro negro, têm identidade desconhecida, e praticam crimes com requintes de violência gráfica. Em “Tenebre”, Argento seguiu essas características com fidelidade.

O personagem principal, como em muitos outros trabalhos do cineasta, é norte-americano (recurso utilizado para escalar atores dos EUA e facilitar a venda dos filmes para o mercado internacional). Peter (Anthony Franciosa) é um bem-sucedido escritor de livros de mistério cujas tramas inspiram a ação de um serial killer em Roma, durante uma passagem do autor pela cidade, em turnê promocional. O assassino mata com uma navalha, deixa páginas de romances de Peter nos locais dos crimes e envia cartas contendo charadas ao escritor. Em geral, os assassinatos reproduzem mortes descritas em detalhes nos thrillers do americano.

Estilista nato, Argento cria em “Tenebre” algumas tomadas virtuosísticas, entre as quais a mais interessante é um longo travelling que antecede um dos crimes – a câmera sai pela janela de uma velha mansão romana, sobre até um dos andares superiores da casa e entra nela novamente, em um movimento claramente impossível. Uma das marcas registradas de Argento bate ponto novamente aqui: o uso da câmera subjetiva mostrando o ponto de vista do criminoso, de forma a revelar à audiência a presença do assassino em certos momentos e, assim, gerar mais tensão.

O maior destaque do longa-metragem é a criatividade da trama. Utilizando relativamente pouco tempo de projeção, o diretor consegue criar seis ou sete suspeitos em potencial dos crimes, obrigando o público a quebrar a cabeça para tentar adivinhar quem entre eles anda retalhando pescoços a navalhadas. Além disso, a solução proposta pelo diretor é bastante original, e quase impossível de antecipar. No todo, um filme que não costuma ser citado entre os melhores de Argento, mas um legítimo e criativo giallo, um dos melhores feitos pelo cineasta italiano.

O DVD não existe no Brasil, mas pode ser encontrado com certa facilidade na Região 1 (EUA). Por lá, a Anchor Bay lançou uma edição especial com ótima qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1), mais dois featurettes de bastidores e comentário em áudio do diretor. O disco é tão legal que dá até para relevar a fraquíssima direção de elenco – reconhecidamente, um ponto fraco de Argento.

- Tenebre (Itália, 1982)
Direção: Dario Argento
Elenco: Anthony Franciosa, Daria Nicolodi, Giuliano Gemma, John Saxon
Duração: 101 minutos

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