Tenha Fé

28/05/2004 | Categoria: Críticas

Estréia de Edward Norton na direção surpreende pela leveza e pelo excelente timing cômico

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Depois de protagonizar os polêmicos e violentos “A Outra História Americana” e “Clube da Luta”, o ator Edward Norton construiu para si próprio uma reputação cinematográfica sólida. Além de ser citado constantemente como o melhor ator de sua geração, ele ganhou fama por ser um artista corajoso e arrojado, que escolhe projetos insólitos e pouco comerciais. Por isso, foi uma surpresa vê-lo estrear na direção em uma comédia romântica convencional, embora adorável: “Tenha Fé” (Keeping The Faith, EUA, 2000).

É fato: Norton nunca tinha feito um filme parecido antes. Daí a surpresa. “Tenha Fé” é o filme que Nora Ephron (roteirista de “Harry e Sally” e diretora de “Sintonia de Amor”) adoraria ter feito se ainda tivesse 30 anos de idade. Ele narra uma história de amor engraçada, inocente pero no mucho, romântica e, ainda por cima, aproveita as lindas paisagens de Nova York (há belas tomadas no Central Park) para tecer uma homenagem visual à cidade que nunca dorme.

Claro que nada disso funcionaria se o filme não fosse engraçado. Talvez seja aí que resida o grande desafio enfrentado por Edward Norton. Quem faz cinema sabe bem o quanto é difícil, especialmente para um cineasta estreante, acertar o timing de uma comédia romântica. Do roteiro à edição, passando pelas atuações do elenco, tudo nesse tipo de filme é complicado. Um ator caricato pode arruinar piadas geniais, por exemplo. A montagem precisa acertar o tempo exato entre as ações e reações dos personagens; o filme não pode ser lento nem rápido demais.

Norton passa no teste com louvor. “Tenha Fé” tem leveza e agilidade, apesar das mais de duas horas de projeção. Encabeçando o elenco, ele dá mais um show de interpretação como um padre dividido entre a vocação pela batina e a paixão por uma garota. A atuação de Norton é mesmo o centro de gravidade do longa-metragem: flerta com o humor físico de Jim Carrey, mas não mergulha nele de cabeça, guardando uma certa pitada de nonsense. Isso garante uma sofisticação que nenhum filme com o astro de “O Show de Truman” conseguiu obter.

A história é simples e previsível, mas funciona muito bem. Brian Finn (Norton) é um padre de origem irlandesa que mora no subúrbio de Nova York. O melhor amigo dele, Jake Schram (Bem Stiller), é um rabino judeu com quem convive desde garoto. A amizade insólita dos dois vai ser posta à prova por uma jovem executiva, Anna (Jenna Elfman), amiga de longa data dos dois que reaparece após anos morando em outra cidade. Na infância, em cenas mostradas num longo flashback, os três eram amigos inseparáveis. Quando ressurge, Anna se transformou numa mulher deslumbrante, que desperta a atração nos dois amigos.

A sinopse dá uma boa idéia do conteúdo de “Tenha Fé”. Com essa trama universal, Edward Norton faz milagres (sem trocadilho). Ele mostra o sofrimento do padre, por exemplo, sem jamais perder de vista que está dirigindo uma comédia e que, por isso, os espectadores não podem sofrer como o personagem; precisam se compadecer dele dando risadas. Há, ainda, pelo menos uma seqüência memorável, capaz de arrancar risadas de um executivo japonês, que envolve Anna e um telefone celular com bateria vibratória. “Tenha Fé” é excelente programa para casais de namorados e para qualquer um que queira celebrar uma amizade fiel.

O DVD brasileiro do filme tem boas surpresas. A primeira é um comentário em áudio de Nortor e do produtor e roteirista Stuart Blumberg. Há trailers da produção e um segmento engraçado com erros de gravações. Mas o filé do material extra é a galeria de dez cenas excluídas da edição final. Os bônus, no entanto, vêm sem legendas. A imagem do filme está no formato widescreen original e o som, forte e claro, em Dolby Digital 5.1.

– Tenha Fé (Keeping The Faith, EUA, 2000)
Direção: Edward Norton
Elenco: Edward Norton, Bem Stiller, Jenna Elfman, Eli Wallach
Duração: 129 minutos

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