Tênue Linha da Morte, A

21/11/2007 | Categoria: Críticas

Thriller documental de Errol Morris que inspirou programas jornalísticos policiais como o “Linha Direta”

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Muito conhecido por escolher temas incomuns ou excêntricos para documentários singulares (seu filme de estréia, “Portais do Céu”, é sobre cemitérios de animais de estimação), o diretor Errol Morris pesquisava sobre um polêmico psiquiatra da polícia do Texas (EUA) quando deu de cara com um caso que lhe pareceu, claramente, um grave erro judicial. De imediato, o documentarista descartou a idéia anterior e mergulhou febrilmente numa espécie de thriller documental que se tornaria referência obrigatória para programas policiais de TV como o “Linha Direta”, da Globo. O resultado foi o instigante “A Tênue Linha da Morte” (The Thin Blue Line, EUA, 1988).

O maior mérito alcançado pela obra não é cinematográfico, mas humanitário. A extensa investigação levada a cabo pelo cineasta acabou por disparar um lento processo de revisão judicial no caso enfocado pelo filme, e que terminou por livrar da cadeia um homem condenado à morte. Além disso, de maneira sutil, “A Tênue Linha da Morte” sugere que casos semelhantes acontecem todos os dias nos Estados Unidos, o que acaba por transformar o longa-metragem em um libelo contra a pena de morte. Assistir à produção e permanecer indiferente ao assunto, no final, é tarefa praticamente impossível.

O caso reconstituído por Errol Morris foi o assassinato de um policial em Dallas, capital do estado do Texas, no ano de 1976. A vítima havia feito sinal a um automóvel que trafegava em um bairro perigoso, com as luzes apagadas, para parar. Ao chegar à janela para conversar com o motorista, recebeu vários tiros. A parceira dele, que tomava um milk shake no carro da polícia, não teve tempo de reagir e sequer viu o homem que efetuou os disparos. Investigações posteriores acabaram por localizar David Harris, um rapaz de 16 anos, morador de outra cidade, que havia roubado um automóvel idêntico ao do assassino e se gabava a amigos pelo assassinato. Detido, ele negou ter atirado, mas confirmou ter testemunhado o crime, apontando um homem de 28 anos, a quem havia dado carona naquela noite, como o autor do homicídio.

Randall Adams também foi preso e negou o assassinato, mas acabou julgado e condenado à morte. Ao pesquisar o caso, Errol Morris teve a clara impressão de que o verdadeiro assassinato era o jovem de 16 anos, que havia manipulado a polícia e se transformado na principal testemunha de acusação. A partir desta certeza, o diretor – que havia trabalhado por anos como detetive particular – iniciou uma investigação de dois anos. Entrevistou policiais, juízes, testemunhas e investigadores que trabalharam no caso, além de examinar todas as evidências. Todo esse material, intercalado por extensas e detalhadas reconstituições do crime, está no filme, que herda o ritmo tenso dos melhores thrillers. A trilha sonora de Philip Glass, fantasmagórica, é outro ponto forte.

O estilo adotado por Morris é peculiar. Ele não utiliza narração em off, preferindo conduzir o caso através de uma montagem cuidadosa, e não se furta a interromper a narrativa para analisar detidamente algum ponto que considere obscuro. Ao desconstruir o processo criminal, o diretor vai expondo suas falhas – e sugerindo que a condenação de Randall Adams resultou de uma estratégia da polícia para encontrar rapidamente um “culpado” que pudesse ser condenado à pena máxima, algo que não poderia ocorrer se David Harris fosse o assassino, já que ele era menor de idade na época do crime. Morris não chega a explicitar a tese da culpa de Harris, mas edita o filme de maneira a deixar isso evidente. Além disso, encerra a narrativa com uma entrevista do suspeito em que ele, de modo velado, termina por admitir a culpa.

Após o lançamento do filme, a pressão da mídia obrigou a Justiça dos EUA a rever o caso. A pena de Randall Adams foi primeiro comutada para prisão perpétua, e em seguida o julgamento foi anulado. Em 1989, treze anos após ser preso, Adams voltou às ruas – e, curiosamente, processou Errol Morris para evitar que o cineasta conquistasse uma parte dos direitos autorais do livro que lançou logo após ser solto. Por livrar um inocente da cadeira elétrica, Morris ganhou diversos prêmios e teve o filme selecionado para o National Film Registry (órgão do governo dos EUA que se dedica a preservar os filmes mais importantes feitos por lá). De quebra, influenciou dezenas de programas de jornalismo investigativo criados em TVs do mundo inteiro.

O DVD caprichado da Videofilmes vem acompanhado de um encarte contendo uma longa e excelente crítica de Terrence Rafferty. O filme comparece numa cópia de boa qualidade, com imagens límpidas (widescreen anamórfico) e áudio OK (Dolby Digital 2.0). O principal extra é um par de episódios da primeira temporada da série “First Person” (literalmente “Primeira Pessoa”), produzida por Errol Morris.

– A Tênue Linha da Morte (The Thin Blue Line, EUA, 1988)
Direção: Errol Morris
Documentário
Duração: 98 minutos

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