Terapia do Amor

07/11/2006 | Categoria: Críticas

Charmosa comédia romântica adulta une a beleza de Uma Thurman e o talento de Meryl Streep

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Nesses tempos de Internet, em que as pessoas são inundadas de informação por todos os lados e em todos os momentos, o título de um filme é algo que pode até passar despercebido. Afinal de contas, é uma informação minúscula e muitas vezes redundante. Basta aparecer um título cretino rotulando uma obra menos conhecida, no entanto, para confirmar que esta insignificância é apenas aparência. O melhor exemplo da temporada de 2006 é “Terapia do Amor” (Prime, EUA, 2005). Quem acreditaria que um filme que ganhou esse ridículo nome em português não é uma das dezenas de bobagens adolescentes que lotam os cinemas, e sim uma charmosa comédia romântica?

Pois bem, é fato. Muita gente foge de “Terapia do Amor” apenas por causa da falsa impressão gerada por um título equivocado, resultado provável de uma arriscada estratégia de marketing da distribuidora nacional (Europa Filmes), que tinha a intenção de atrair um público mais jovem para os cinemas. Um erro indesculpável, já que o segundo longa-metragem do diretor Ben Younger é um drama cômico de tintas mais adultas, com personagens de discursos coerentes e definidos, um ligeiro verniz intelectual (o universo enfocado é o mundo intelectual-artístico de Nova York) e um relativo desprezo pelos clichês mais típicos do gênero.

A bem da verdade, “Terapia do Amor” não tem muita influência dos filmes de Woody Allen, como parte da crítica norte-americana (aqui no Brasil também) andou apontando. É verdade que o protagonista é um rapaz judeu e o cenário é a Nova York chique dos intelectuais, mas a semelhança pára por aí. “Terapia do Amor” não pretende ser uma comédia revolucionária, como os melhores trabalhos de Allen, mas agrada. E o tom geral é outro, leve e tranqüilo, sem personagens neuróticos ou inseguros, apesar de a narrativa derrapar e fugir desse tom aqui e acolá (o coadjuvante que tem a mania de atirar tortas na cara de garotas que o rejeitaram é lamentável, responsável pelas cenas mais fracas da produção, por destoar completamente dos demais).

Na trama, Uma Thurman interpreta Rafi, uma mulher de 37 anos que acaba de passar por um traumático divórcio. Ela conhece um rapaz de 23 anos, o aspirante a pintor Dave (Bryan Greenberg, que não compromete), na fila do cinema – os dois estão conferindo uma sessão dupla de “Blow Up” e “Zabriskie Point”, ambos clássicos do cineasta italiano Michelangelo Antonioni (onde mais tal cena poderia acontecer senão no chique Greenwich Village, o chique reduto dos intelectuais nova-iorquinos?). Eles se apaixonam, embora estejam ambos conscientes de que a diferença de idade é um grande problema.

Para apimentar a situação, a insegura Rafi troca confidências sobre o affair com a terapeuta Lisa (Meryl Streep), sem saber que a mulher é, na verdade, a mãe do namorado. Grande parte das idas e vindas do casal é narrada em longos flashbacks, a partir das sessões de Rafi no apartamento da psicóloga. Nesses diálogos, que rendem as melhores cenas do filme, fica evidente que o público-alvo da película é adulto, já que há tórridas descrições sexuais (“o pênis dele é tão lindo que dá vontade de decorar com um chapéu”) e discussões inteligentes sobre o problema do amor entre pessoas que pertencem a diferentes gerações. A química entre as duas atrizes também é muito boa.

Há um elemento que confunde ainda mais o casal em conflito: a família dele é orgulhosamente judia, e espera que o filho procure uma moça da mesma crença para casar. Esse fato não é jogado na história como mero recurso dramatúrgico para complicar o namoro, mas faz parte da consistente construção dos personagens. Os membros da família de Dave, por exemplo, costumam usar vocabulário e metáforas que os não-judeus podem ter dificuldade para compreender (“não estamos mais no Gueto de Varsóvia, mãe!”, reclama o rapaz, quando a mãe começa a discursar sobre a importância de ele casar com uma judia).

Como se não bastasse, há ainda uma trilha sonora cheia de canções encantadoras (Rufus Wainwright, Duke Ellington, Rachael Yamagata) e um final incomum para o gênero, nostálgico e confiante, que confirma a impressão de obra madura. E se você ainda não se convenceu, saiba que Uma Thurman aparece mais linda do que nunca e Meryl Streep vai muito além do roteiro – também escrito pelo diretor – para construir, delicadamente como de costume, uma personagens mais complexa do que se espera em uma simples peça de entretenimento. OK, não é uma obra-prima e nem vai fazer ninguém dar gargalhadas até sentir câimbras, mas está bem acima do nível de comédias em Hollywood geralmente apresenta.

A Europa Filmes lançou duas versões do filme em DVD no Brasil. O disco para locação, simples, tem apenas o filme, com imagem que preserva o enquadramento original (wide anamórfica), som razoável (Dolby Digital 2.0) e nenhum extra. Já a versão para venda é dupla, contém o filme com excelente qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem comentário em áudio do diretor, cenas deletadas e um documentário.

– Terapia do Amor (Prime, EUA, 2005)
Direção: Ben Younger
Elenco: Uma Thurman, Meryl Streep, Bryan Greenberg, Jon Abrahams
Duração: 106 minutos

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