Terceiro Homem, O

01/05/2005 | Categoria: Críticas

Filme é amálgama bem sucedido de crime, romance e intrigas políticas, temperado com humor sofisticado e visual de filme noir

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O maior filme inglês de todos os tempos. Esta é a posição definitiva do British Film Institute, uma das instituições de preservação de tesouros cinematográficos mais importantes do mundo, sobre o longa-metragem “O Terceiro Homem” (The Third Man, Inglaterra, 1949). Exagero? Nada disso. Muito pelo contrário. Obra-prima em praticamente todos os aspectos da Sétima Arte – roteiro, cenários, trilha sonora, atuações, fotografia – o longa-metragem de Carol Reed é esplêndido, um amálgama bem sucedido de crime, romance e intrigas políticas, temperado com humor sofisticado e visual de filme noir.

As circunstâncias históricas fizeram com que o papel do cineasta inglês no resultado final tenha sido relativizado, com o tempo. Muita gente pensa, até hoje, que Orson Welles (cuja participação como ator é curta mas inesquecível) dirigiu o filme, e algumas pessoas até sabem o nome do diretor, mas preferem acreditar que Welles fez o papel de eminência parda, nos bastidores. Não é verdade. Welles passou pouco mais de uma semana nos sets de filmagens, em Viena, e gravou a maior parte dos close ups na sensacional perseguição final, dentro das galerias subterrâneas dos esgotos europeus, confortavelmente instalado em um estúdio londrino, enquanto um dublê fazia suas partes na capital austríaca. “O Terceiro Homem” foi planejado, produzido e executado por Carol Reed.

Há um clichê da crítica cinematográfica que se aplica com perfeição a “O Terceiro Homem”: às vezes, uma locação funciona como um personagem como um ser orgânico, dentro do filme. Graças ao diretor Carol Reed, este é precisamente o caso de “O Terceiro Homem”. O produtor David O. Selznick, que entrou no projeto para viabilizá-lo financeiramente, não queria que o filme fosse feito em Viena, mas Reed bateu pé. Como cinegrafista do Exército inglês na Segunda Guerra, ele sabia que os cenários naturais da cidade em 1948 – mansões e hotéis semi-destruídos, crateras de bombas, montes de entulhos, estátuas e arquitetura góticos – seriam insuperáveis. E foram. Poucas vezes no cinema uma cidade forneceu um material tão perfeito para servir de cenário a um filme. O longa captura em detalhes o clima de paranóia e confusão que marcou os primeiros anos do pós-guerra.

O cenário de “O Terceiro Homem” é o mercado negro que floresceu nas cidades destruídas pelas batalhas entre nazistas e aliados. Viena era, como Berlim, uma capital dividida em quatro zonas de ocupação distintas, sendo uma inglesa, uma russa, uma norte-americana e outra francesa. O centro histórico, porém, era zona neutra, com patrulhas mistas formadas por homens das quatro nacionalidades. Parecia uma torre de Babel após um holocausto nuclear. Ou seja, o cenário menos indicado para abrigar um escritor de faroeste baratos sem uma moeda para gastar. Mas é lá que aporta Holly Martins (Joseph Cotten).

Holly aparece na cidade para trabalhar com o melhor amigo, Harry Lime (Orson Welles). Ao chegar, descobre que ele foi atropelado e morreu. Aturdido, sem falar alemão e sem dinheiro, Lime não sabe direito o que fazer, a não ser honrar a memória do amigo e investigar as circunstâncias da morte, que parecem estranhas. Além disso, ele percebe que a polícia local tem interesse no caso, o que reforça as suspeitas de que os enigmáticos amigos de Lime não estão lhe contando a verdade. Para completar, se apaixona pela namorada dele, uma bela corista de teatro chamada Anna Schmidt (Alida Valli).

Premiada com o Oscar, a fotografia de Robert Krasker é espetacular, abusando dos ângulos incomuns (há grande número de cenas que mostram os personagens de baixo para cima, tornando-os enormes) e de iluminação arrojada. Krasker transforma os becos estreitos e as construções antigas de Viena em um pesadelo expressionista cheio de sombras, inclusive com citação visual do clássico “M – O Vampiro de Dusseldorf” (o vendedor de balões que parece ter seis metros de altura, em cena belíssima). O requinte visual chega ao ápice na sensacional seqüência dentro das galerias de águas subterrâneas.

Um elemento importantíssimo para o filme é o clima de aturdimento e confusão que envolve o protagonista. Grande parte dos diálogos é falada em alemão, o que acentua essa condição em Holly Martins. O sujeito permanece até o fim com a sensação de que não compreende os detalhes da situação. A platéia, especialmente se não falar alemão, vai compartilhar da mesma sensação (o DVD brasileiro não tem legendas nessas partes). O desespero do personagem gera a maior parte do refinado humor do filme. Preste atenção, por exemplo, na brilhante cena em que um garotinho agarra a manga do sobretudo do boquiaberto Holly, acusando-o aos gritos (em alemão) de ser um assassino, enquanto este apenas olha as expressões carrancudas da multidão, sem entender o que se passa.

Joseph Cotten está perfeito na pele do protagonista vivendo um turbilhão de emoções, e o excelente elenco de apoio, quase todo formado por atores alemães e austríacos experientes, fornece credibilidade e dinâmica ao longa-metragem. A italiana Alida Valli, linda, também se destaca como a desesperada Anna Schmidt. Mas o show é de Orson Welles. O sorriso zombeteiro que emoldura sua cara cínica em seus parcos cinco minutos de aparição é a marca registrada de um homem enigmático e amoral – a encarnação perfeita de Harry Lime. Sua primeira aparição na tela é um dos momentos de virtuose de Carol Reed na direção: um par de sapatos, uma luz sendo acesa, um rosto iluminado na penumbra. Três planos curtos, que deixam a respiração do espectador suspensa. Timing perfeito e iluminação impecável. O cinema não pode ser melhor do que isso.

Claro, é impossível falar de “O Terceiro Homem” sem mencionar a trilha sonora de Anton Karas, executada apenas com uma cítara, que inspirou também os créditos originais do longa-metragem. Este é outro acerto de Carol Reed. O diretor ouviu o músico amador tocando em uma cervejaria em Viena, durante as filmagens, e lhe pediu que gravasse a trilha sonora com a melodia inesquecível. David O. Selznick queria uma orquestra completa, mas acabou convencido a abrir mão desse detalhe. Sorte nossa. A canção-tema complementa o roteiro redondo do escritor Graham Greene e transforma “O Terceiro Homem” em uma experiência cinematográfica completa.

Das muitas versões disponíveis em DVD de “O Terceiro Homem”, a melhor foi lançada pela Criterion na Região 2 (Europa). A empresa bancou uma restauração completa do negativo original, deixando a cópia tinindo de nova, sem arranhões e com contrastes vibrantes de brancos e pretos. O áudio, também restaurado, está em versão Dolby Digital 1.0. Além disso, a Criterion recuperou a versão original, acrescentando 14 minutos cortados pelo produtor David O. Selznick para o lançamento nos EUA.

A melhor modificação, contudo, é a recuperação da narração em off original, que abre o filme. Na versão de Reed, a narrativa curta era dita por um anônimo contrabandista de Viena, que narra o caso de maneira irônica, como se falasse de um escritor americano bobo que, certa vez, passou maus bocados na capital européia. Para o lançamento nos EUA, Selznick mandou o ator Joseph Cotten regravar o texto, e a história passou a ser a lembrança de um homem sobre seu próprio passado. A diferença de tom é sutil, mas definitiva: a versão de Carol Reed é amarga e displicente, enquanto a de Selznick, grandiloqüente e maniqueísta.

O pacote de extras inclui três reportagens em vídeo da época (uma enfocando as filmagens, outra sobre os esgotos de Viena, e a terceira sobre o músico Anton Karas, autor da trilha sonora) e duas curiosas peças radiofônicas em áudio. A primeira (28 minutos) é um conto, narrado em 1951 por Orson Welles, contando uma história do passado de Harry Lime. A outra (60 minutos) traz Joseph Cotten em uma adaptação para rádio da história do filme. Uma galeria de fotos, três trailers e a abertura original da cópia norte-americana completam o pacote.

O discaço da Criterion serviu de base para a edição brasileira do DVD, lançada pela Continental. A distribuidora, no entanto, pisou na bola, ao eliminar quase todo o material extra. Apenas o reportagem sobre Anton Karas e três trailers sobreviveram (a capa lista também a reportagem sobre os esgotos, mas ela não está lá). No entanto, como a cópia do filme é sensacional, com som e vídeo impecáveis, o lançamento vale a pena.

– O Terceiro Homem (The Third Man, Inglaterra, 1949)
Direção: Carol Reed
Elenco: Joseph Cotten, Alida Valli, Trevor Howard, Orson Welles
Duração: 104 minutos

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