Terminal, O

27/01/2005 | Categoria: Críticas

Steven Spielberg filma versão romanceada e açucarada de caso real ocorrido com iraniano

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A história do passageiro iraniano Merhan Nasseri merecia, sem dúvida, virar filme. O sujeito viveu durante 16 anos completos no aeroporto Charles De Gaulle, em Paris, por ter sido impedido de entrar na capital francesa. Sem dinheiro para voltar ao Irã, Merhan acabou transformando o aeroporto em residência. O caso gerou um problema psicológico tão grande no sujeito que, mesmo depois de ter a situação resolvida e receber autorização para entrar na França, o iraniano se recusou a abandonar o aeroporto. Foi preciso a intervenção de um psicólogo para remover o moço do lugar. “O Terminal” (The Terminal, EUA, 2004) é a versão romanceada e açucarada de Steven Spielberg para o caso.

Como de hábito, em se tratando do diretor de “O Resgate do Soldado Ryan”e “E.T.”, o longa-metragem é praticamente impecável no aspecto técnico. A direção de arte de Alex McDowell merece registro especial: o gigantesco terminal de passageiros é um set monumental, que reproduz detalhadamente a área de embarque do aeroporto JFK, em Nova York. Não há nada de computação gráfica ali. Como as filmagens seriam longas e trabalhar numa locação real era impraticável (imagine colocar uma grande equipe de filmagens dentro do verdadeiro aeroporto, durante dois ou três meses), Spielberg mandou construir o set completo. Telefones públicos, escadas rolantes, lojas de conveniência, carrinhos de bagagem, tudo está lá. A decoração não tem falhas.

Outro colaborador habitual de Spielberg, o fotógrafo Janusz Kaminski também faz sua parte com perfeição. O fotógrafo parece adotar, aqui, a discrição como regra. Há raras tomadas com movimentos mirabolantes de câmera, e várias cenas são filmadas com a câmera parada. É claro que existe um motivo prático para essa escolha: a locação do aeroporto é cheia de espelhos, vidros e pedras de mármore, além de ser 100% iluminada com luz artificial, que atinge os objetos de vários ângulos ao mesmo tempo. Esse tipo de lugar pode provocar muitos reflexos involuntários que atrapalham a captação de imagens ou, pior, deixam a câmera e a equipe aparecerem. Aqui ou acolá, você vai perceber o reflexo de alguma luz batendo diretamente na lente da câmera, mas estes momentos são raros e, de certa forma, até dão um charme espontâneo a mais ao visual colorido e vibrante.

Em resumo, “O Terminal”é um filme espantoso, quando analisado do ponto de vista puramente técnico. Ainda assim, trata-se de um dos mais fracos títulos dirigidos por Spielberg em toda a carreira. O motivo é simples: ao romancear em excesso a trajetória do imigrante preso no aeroporto, o diretor criou personagens e situações superficiais, inverossímeis, sem qualquer profundidade. Eles são personagens de uma história de ficção cuja composição rasa lembra a platéia o tempo inteiro que ela está apenas assistindo a uma projeção, e que aquela história jamais poderia estar acontecendo no mundo real, de carne e osso. Dessa forma, a habitual prática de dar lição de moral no público, uma mania cada vez mais irritante de Spielberg, fica mais flagrante. Isso faz com que “O Terminal” jamais ultrapasse a barreira do mero entretenimento.

A abertura do filme joga Viktor Navorski (Tom Hanks) dentro da ação sem perder tempo. Ele é imigrante de um pequeno país do Leste Europeu, chamado Krakhozia. Durante a viagem a Nova York, um golpe militar sacode a região, que entra em guerra civil. Os passaportes do país, então, são cancelados. Quando a administração do aeroporto JFK descobre o fato, percebe que tem um problema nas mãos, e ele se chama Navorski.

Sem identidade válida, o viajante não pode ser autorizado a entrar nos EUA. Tampouco pode ser deportado, pois oficialmente a Krakhozia deixou de ser um país. Viktor, que apenas balbucia um inglês rudimentar, recebe de Frank Dixon (Stanley Tucci), o diretor do JFK, um passe especial que lhe permite circular pelo terminal de passageiros, até que a situação seja resolvida em definitivo. Mas ele não pode sair de lá. O dilema passa a ser a sobrevivência. Viktor precisa arrumar trabalho, lugar onde dormir e tomar banho, tudo sem sair do aeroporto.

O início abrupto logo leva a uma espécie de comédia de situação fascinante, que o sempre competente Tom Hanks pontua com uma atuação de gala – o sotaque do Leste Europeu do rapaz é simplesmente perfeito. Durante a primeira metade do filme, a platéia passa a acompanhar as peripécias de Viktor para resolver os problemas básicos de um indivíduo: arranjar dinheiro para comer (a maneira que ele encontra é hilariante, um dos melhores momentos do filme), descobrir um cantinho onde possa guardar as malas, dar um jeito de dormir.

O roteiro de Sacha Gervasi e Jeff Nathanson traduz esses problemas em cenas econômicas, engraçadas e dinâmicas, usando um recurso eficiente para aumentar a empatia do público para com o drama do imigrante: os funcionários do aeroporto formam uma espécie de platéia dentro do filme, que acompanha pelo circuito de TV (e até cria uma roda de apostas!) as mesmas situações que nós, do lado de cá da tela, também acompanhamos. A reação dos aeroviários é o termômetro do público do filme. O núcleo de amizade que Viktor cria – um carregador de bagagens latino (Diego Luna), um faxineiro indiano cuja única diversão é molhar o piso para ver os passageiros escorregarem (Kumar Pallana) – também é bacana. Ajuda a despertar a simpatia do espectador.

Por outro lado, à medida que “O Terminal” vai avançando, seus problemas se tornam evidentes. Spielberg recorre a recursos narrativos estereotipados para ir transformando lentamente sua comédia de situação em um drama romântico lamentável. Cria, por exemplo, a figura de um vilão dentro de uma trama que, rigorosamente, não comporta um. Também cria um interesse romântico ridículo, que chega às raias do surreal, entre Navorski e uma bela aeromoça carente, Amelia (Catherine Zeta-Jones). Nos dois casos, a resolução final dos conflitos é boba, incoerente e sem sentido, uma mera repetição de clichês – a redenção, o auto-sacrifício – que Hollywood utiliza há 100 anos, em filmes que quase sempre variam do repetitivo ao ridículo.

Não estou nem citando, ainda, os furos de roteiro. Algumas perguntas ficam no ar, sem resposta: será que, num dos maiores aeroportos do mundo, com tráfego diário de milhares de passageiros, somente um habitante de Krakhozia passa durante nove meses inteiros? E, afinal, por que Viktor jamais tenta se comunicar com parentes e amigos que possam lhe ajudar a resolver a situação? É uma pena que um mestre narrativo como Spielberg não tenha percebido as armadilhas sutis de um projeto promissor que, pelo visto, foi transformado em filme muito apressadamente, antes do que deveria.

– O Terminal (The Terminal, EUA, 2004)
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Tom Hanks, Stanley Tucci, Catherine Zeta-Jones, Diego Luna
Duração: 127 minutos

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