Terra de Ninguém

07/01/2005 | Categoria: Críticas

Terrence Malick aborda fenômeno dos atiradores solitários sem julgá-lo e faz filme perturbador

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Os solitários que saem atirando em pessoas, sem escolher vítimas, são um fenômeno tipicamente norte-americano. Inúmeros casos do gênero ficaram famosos, mas nenhum tornou-se tão legendário quanto o caso de Charles Starkweather. Em 1958, o rapaz fugiu de casa com a namorada, após matar o pai dela. Juntos, os dois pegaram a estrada e deixaram um rastro de sangue antes de serem apanhados, milhares de quilômetros depois, tentando fugir para o México. “Terra de Ninguém” (Badlands, EUA, 1973) é uma dramatização perturbadora do caso.

O filme marca a estréia do diretor e roteirista Terrence Malick no cinema. Alçado instantaneamente à categoria de clássico, o filme traz algumas pistas da carreira tortuosa que Malick tomaria dentro de alguns anos. Em 1978, após lançar um segundo filme, “Cinzas no Paraíso”, o diretor desapareceu da vida pública por quase vinte anos. Abandonou Hollywood e virou uma espécie de ermitão, voltando à ativa apenas em 1998, com o drama de guerra “Além da Linha Vermelha”. Terrence Malick tornou-se mito em Hollywood tanto pelo mistério a respeito dessa reclusão quanto pela ótima qualidade do seu trabalho como cineasta.

“Terra de Ninguém” faz um apanhado de características do cinema e, em última instância da vida nos Estados Unidos. Tanto no aspecto formal quanto no narrativo, o longa-metragem pinta um retrato impecável do que significa viver naquele país: serial killers, rock’n’roll, longas viagens de carro, juventude entediada com subempregos, tudo isso faz parte do filme. Só que Terrence Malick não tenta tecer nenhum tipo de julgamento sobre o que a mistura de tudo isso significa. O diretor narra a história de Starkweather com bastante fidelidade aos relatos que ele e a namorada fizeram após a conclusão da “aventura”, mas usa nomes fictícios.

A abertura de “Terra de Ninguém” mostra Kit Carruthers (Martin Sheen) apanhando lixo. Ele se veste como James Dean: topete, costeletas, camiseta branca e calças jeans. O toque exótico fica por conta das botas de caubói, que denunciam a origem do rapaz – o Estado do Texas. Sua técnica de recolher lixo é bem original: Kit remexe as lixeiras e tenta adivinhar aspectos da vida dos moradores pelo tipo de coisas que acha. Um dia, encontra Holly Sargis (Sissy Spacek) brincando no jardim. Ela tem 15 anos, é curiosa e afável. Os dois começam a paquerar, mas o pai dela (Warren Oates) não acha legal ver a filha saindo com um sujeito 10 anos mais velho.

O filme se passa em uma cidade pequena do obscuro Estado de Dakota do Sul, chamada Fort Dupree. A vida por lá parece tranqüila e meio entediante. Kit não aceita a rejeição do pai da namorada e aparece na casa deles com uma arma. Mata o homem, toca fogo no casarão e leva Holly para uma viagem que, como ela mesma se encarrega de dizer, “não tem volta”. Os dois aceitam naturalmente a idéia de que são assassinos e jamais poderão levar uma vida normal. Esse é um ponto em que “Terra de Ninguém” se destaca radicalmente das dezenas de longas-metragens que abordam o mesmo tema. O filme mantém um distanciamento moral da ação vista na tela, sem condenar, e muito menos glorificar, a ação dos dois rapazes.

A seqüência mais reveladora de “Terra de Ninguém” mostra Kit e Holly tentando restabelecer uma rotina. Eles montam uma choupana feita com galhos, dentro de uma floresta. Pescam, criam frangos e colhem vegetais para sobreviver. É o único momento do filme em que o casal parece feliz. Não é coincidência. Todos os longas-metragens de Malick tratam da relação entre homem e natureza. O diretor gosta de belas paisagens naturais, em oposição à sujeira (literal ou metafórica) da vida em sociedade. “Terra de Ninguém” também tem lindas tomadas do deserto de Badlands, em Montana. Malick parece especialmente fascinado pelo pôr-do-sol. A presença do homem nesses lugares parece apenas conspurcar a perfeição da natureza.

No filme, Malick evita deliberadamente criar uma empatia com qualquer personagem, mas também se recusa a mostrá-los como pessoas malvadas. Eles são gente comum; a viagem sanguinária não é planejada, mas resulta de um acúmulo de incidentes que é recebido com uma indiferença desconcertante dos dois. Kit é um solitário que gosta de sorrir e conversar. Martin Sheen o interpreta com vigor e espontaneidade. O filme não fornece informações sobre o passado dele, e deixa o espectador livre para refletir sobre as razões para tanta violência.

No final da viagem, já preso, Kit é gentil e simpático com os policiais. Também demonstra ter absoluta consciência dos seus atos, quando entrega a cada um objetos que carregou consigo durante a matança: uma caneta, um chapéu. Ele sabe que virou uma celebridade, e sabe que aqueles objetos terão algum valor financeiro quando tiver se tornado uma lenda, provavelmente depois de morto. Holly é mais enigmática. Favorecida pela interpretação segura de Spacek, ela mantém um ar ingênuo durante todo o longa. Fica satisfeita por ser levada a sério por Kit, e é por essa razão que o segue na matança.

“Terra de Ninguém” é o típico caso de filme perturbador por causa do clima que consegue imprimir. A rigor, não há nada, nenhum componente, que consiga explicar a escalada de violência vivida pelo casal. Pela primeira vez no cinema, a violência urbana é apresentada de maneira banal, trivial. Kit mata um homem com a mesma fisionomia impassível de quando mata uma galinha. Holly fica mais perturbada com a morte do peixe de estimação do que quando vê o pai ser baleado. O filme é narrada pela voz doce de Spacek, e a narração é generosa e ágil, o que ajuda a aumentar ainda mais a sensação de que tudo permanece na santa paz ao redor do casal assassino, mesmo quando eles estão matando.

De fato, “Terra de Ninguém” é um grande filme, porque mostra tudo sem arroubos de dramaticidade, sem nenhum traço de melodrama. O filme se recusa a explicar os fatos, e exige do espectador uma reflexão sobre os significados ocultos daquilo que ele está vendo. De quebra, traz ainda algumas das mais belas imagens da natureza que o cinema tem sido capaz de exibir.

Em DVD, assista ao filme com imagem 4 x 3 (a proporção de 1.33:1 é muito próxima do formato original, 1.85:1, mas ainda tem cortes nas laterais) e trilha de áudio Dolby Digital 5.1. Não há material extra.

– Terra de Ninguém (Badlands, EUA, 1973)
Direção: Terrence Malick
Elenco: Martin Sheen, Sissy Spacek, Warren Oates, Ramon Bieri
Duração: 95 minutos

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