Terra dos Mortos

25/04/2006 | Categoria: Críticas

Filme de George Romero usa os zumbis para fazer fascinante comentário social, mas possui trama fraca

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A ótima safra de filmes de zumbi surgida das cinzas do cinema pop na primeira metade da década retirou um cineasta veterano de uma aposentadoria forçada. O sucesso de filmes como “Extermínio” (2002), “Madrugada dos Mortos” (2004) e “Todo Mundo Quase Morto” (2004) reavivou o interesse pela obra de George A. Romero, responsável pela criação desta figura que é um verdadeiro monumento do horror B no cinema, que é o morto-vivo. Romero andava sem filmar, mas arrumou sem muita dificuldade um orçamento de US$ 18 milhões – para cineastas da estatura dele, uma fortuna – e pôde brindar o público com um ótimo exemplar do gênero: “Terra dos Mortos” (Land of the Dead, EUA, 2005).

O longa-metragem marcou a quarta incursão de Romero no gênero, compondo uma obra de surpreendente coesão, especialmente no terreno ideológico. Pois é: aos que só conseguem ver violência extrema no cinema do diretor, é importante ressaltar que Romero, ao modo dos grandes criadores, sempre utilizou a figura repugnante do zumbi para criar verdadeiras alegorias sociais em seus filmes, criticando o militarismo (em “A Noite dos Mortos-Vivos”, de 1968), o consumismo (“O Despertar dos Mortos”, de 1975) e a ciência (“O Dia dos Mortos”, de 1985). Neste quarto filme, Romero eleva sua visão de mundo a um novo nível, ao imaginar uma sociedade que já foi capaz de se adaptar à ameaça representada pelos mortos-vivos.

De fato, os quatro filmes de zumbi de Romero funcionam como retratos tirados pelo cineasta em momentos distintos que focalizam a reação dos homens após verificarem o surreal surgimento de mortos-vivos que se alimentam de pedaços de carne humana. O primeiro filme imagina o momento da descoberta aterradora; o segundo vê o primeiro dia após o ataque; o terceiro observa a ameaça se espalhando e as primeiras tentativas humanas para solucionar o problema. Em “Terra dos Mortos”, Romero assume que a humanidade desistiu de curar zumbis e foi forçada a fazer uma reorganização social, abandonando cidades e vivendo em comunidades fechadas. Este panorama da sociedade pós-holocausto é a melhor coisa do filme de 2005.

Na visão de Romero, os sobreviventes à ameaça vivem encastelados em cidades isoladas por cercas eletrificadas. Dentro delas, os mais ricos vivem em arranha-céus apertados, enquanto os pobres habitam a periferia, no nível do chão. A maioria mendiga para poder viver, enquanto os mais fortes e jovens se arriscam formando grupos paramilitares que fazer incursões externas, enfrentando os zumbis para conseguir comida, remédios e bebidas, que revendem aos mais ricos por pequenas fortunas. Enquanto isso, fora das cidades, os zumbis começam a evoluir enquanto espécie, algo que o filme retrata brilhantemente na pessoa de Big Daddy (Eugene Clark).

O frentista comedor de cérebros é uma representação cinematográfica perfeita do próximo passo da evolução dos zumbis, uma espécie de morto-vivo 2.0. Ele possui um nível elementar de raciocínio, sendo capaz de aprender a usar uma arma e até mesmo de conseguir se comunicar com outros zumbis. O nascimento da capacidade de raciocínio faz com que os zumbis percebam que são capazes de organizar um ataque em massa à principal cidade habitada pelos humanos. O panorama inteiro imaginado por Romero dispara uma série incessante de metáforas, que permitem ao espectador alinhar os zumbis, por exemplo, aos habitantes das metrópoles do Terceiro Mundo, tentando chegar aos centros mais ricos. Bem legal.

Enquanto isso, o filme concentra a narrativa principal na figura de Riley (Simon Baker), líder de um dos grupos paramilitares que agem fora dos domínios da cidade. O rapaz louro tem índole correta, possui um subchefe ambicioso (John Leguizamo) e não se dá muito bem com o todo-poderoso da cidade (Dennis Hopper), mas não o odeia suficientemente para se rebelar. A rigor, trata-se de um protagonista um tanto insosso, que não inspira o espectador a torcer pelos mocinhos. Na verdade, é Big Daddy – pintado como vilão – quem desperta mais empatia com o público.

A impressão final de “Terra dos Mortos” é que Romero gastou tempo demais acertando os detalhes do fascinante pano de fundo social para o filme e bolando co-relações com o mundo contemporâneo (os fogos de artifício que distraem os zumbis seriam uma metáfora para os espetáculos da mídia obscurecendo a visão das massas?). No geral, o diretor acabou esquecendo de desenvolver melhor a história e os personagens. Tanto é verdade que somente após 40 minutos o espectador consegue compreender, afinal, que existe uma trama, e o filme não se contenta em traçar um painel de personagens da situação apocalíptica imaginada por Romero.

Dessa forma, com um herói sem carisma e um vilão (Denis Hopper) que parece pouco ameaçador, não adianta a sacada de criar uma mocinha pós-moderna musculosa e tatuada (Asia Argento, filha do grande diretor de horror Dario, parceiro de Romero) . O longa-metragem permanece frio, sem conseguir envolver emocionalmente o espectador. Em resumo, “Terra dos Mortos” é uma maravilhosa alegoria sobre a desigualdade social, mas carece de um enredo de verdade para virar um grande filme.

O DVD nacional é um lançamento Universal, e um dos melhores discos simples jogados no mercado brasileiro em 2005. O filme aparece com enquadramento correto (wide 2.35:1) e ótimo som em inglês e português (Dolby Digital 5.1). Os muitos extras incluem comentário em áudio legendado de Romero, que fala acompanhado de produtor e montador. Há ainda um pacote de nove featurettes (59 minutos no total) que abordam diversos aspectos do filme, das filmagens à produção de efeitos digitais, da maquiagem às pontas de gente famosa, do trabalho dos atores aos storyboards. Todo o material tem legendas em português.

– Terra dos Mortos (Land of the Dead, EUA, 2005)
Direção: George Romero
Elenco: Simon Baker, John Leguizamo, Asia Argento, Dennis Hopper
Duração: 93 minutos

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