Terra Estrangeira

13/12/2005 | Categoria: Críticas

Segundo longa-metragem de Walter Salles trata o tema do exílio com delicadeza e refinamento

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“Terra Estrangeira” (Brasil, 1995) não costuma ser um título muito comentado pelo grande público. O segundo longa-metragem de Walter Salles, feito em parceria com Daniela Thomas, teve uma carreira tímida nos cinemas. Nem mesmo o enorme sucesso de “Central do Brasil”, filme seguinte de Salles, feito três anos depois, jogaria luz sobre a produção de US$ 300 mil. Por sorte, o título não passou despercebido para uma parcela considerável da crítica, graças em parte ao rigor estético da esplêndida fotografia em preto-e-branco de Walter Carvalho. Estranho é que não muita gente não observou como o projeto resgata, com delicadeza e refinamento estético, uma temática extremamente pessoal para Walter Salles.

O diretor, filho do diplomata e dono do Unibanco Moreira Salles, passou a infância fora do Brasil, morando em Washington (EUA) e Paris (França). Por isso, o tema do exílio, abordado tão raramente no cinema, sempre foi muito natural para ele. Sob essa ótica, não fica difícil afirmar que “Terra Estrangeira” é o filme mais pessoal do diretor, aquele que exprime mais profundamente o íntimo do cineasta mais importante do período da retomada do cinema nacional (1994 adiante). Vista dessa perspectiva, aliás, toda a obra de Salles – incluindo até mesmo a produção norte-americana de estúdio “Água Negra” – ganha novo significado.

“Terra Estrangeira” não é sobre um tipo específico de exílio, mas sobre a falta de raízes, sobre o sentimento de não ter um lar, não pertencer a lugar nenhum. Por isso, é um longa-metragem terrivelmente melancólico, característica que a fotografia em tom noir, cheio de altos contrastes, captura com propriedade. O trabalho de Walter Carvalho, a rigor, salta aos olhos com tanta força que automaticamente se torna o destaque do filme. A iluminação expressionista que destaca os espaços negros e profundos, a composição refinada, os enquadramentos precisos, os movimentos lentos e suaves de câmera, tudo contribui para transformar em imagem o sentimento de desenraizamento que alicerça o filme.

O enredo gira em torno de dois personagens. Em São Paulo, Paco (Fernando Alves Pinto) é um rapaz de 20 anos cuja morte da mãe o deixa sem prumo. Em Lisboa, Alex (Fernanda Torres) está igualmente à deriva, enredada em um complicado namoro com Miguel (Alexandre Torres), um músico frustrado que sobrevive à custa de contrabando. Os dois personagens são, na verdade, duas facetas da mesma pessoa, pois espelham tipos diversos de exílio. O mais visível é o exílio econômico, já que ambos enfrentam dificuldades para se manter durante os anos difíceis de Collor no poder.

No âmago, contudo, o exílio econômico apenas sublinha um tipo mais íntimo, mais profundo de exílio: a busca desesperada por um lar, por uma raiz. A morte da mãe de Paco o impele a San Sebastian, na Espanha, terra dos seus antepassados. A maneira que ele encontra para chegar à Europa o coloca, sem querer, em rota de colisão com Alex. A partir daí, o longa-metragem flerta com diferentes gêneros, como o thriller, o filme de estrada e o drama romântico, sem se filiar necessariamente a nenhum deles. Em outras palavras, “Terra Estrangeira” é um longa-metragem solitário, exilado, sem pátria, como seus personagens e seu autor. Talvez isso tenha sido acidental, mas funciona a favor do filme.

As narrativas dos dois protagonistas correm em paralelo. Ambos ganham desenvolvimento mais denso do que o normal, transformando-se assim em personagens complexos, de carne e osso, que poderiam existir de verdade. O encontro entre eles acontece em circunstâncias extremas, e nesse ponto da narrativa a platéia já está fisgada; simpatizamos com ambos, torcemos para que eles também simpatizem entre si. Nesse ponto está, talvez, o ponto fraco do filme; o roteiro sugere tão sutilmente o início do romance que, quando o primeiro beijo acontece, parece um tanto falso, sem preparação.

Esse, contudo, é um problema menor que empalidece diante das muitas qualidades, que vão bem além do tratamento do tema e da parte visual. As interpretações uniformes do elenco, por exemplo, são muito boas, com ênfase especial ao desempenho de Luis Melo, brilhante no papel do caloroso comerciante Igor, elemento (involuntário) de ligação entre Paco e Alex. A bela e amarga conclusão amarra as pontas soltas com uma cena antológica, ao som da apropriada melodia de “Vapor Barato”, um feliz improviso que dá a nota triste e definitiva de encerramento ao filme.

“Terra Estrangeira” é uma obra solitária, sem parentescos diretos no cinema nacional. Não se filia a nenhuma escola, e está estranhamente deslocada da produção contemporânea a ela, tanto em temática quanto em estética, parecendo inclusive um tanto atemporal, apesar das freqüentes alusões às situações políticas e econômicas que Brasil e Portugal passam em 1990, época em que a trama tem lugar. Mas isso, de certa forma, apenas reafirma a força do filme.

A edição em DVD da VideoFilmes é um brinco. O disco é simples, mas chega em uma embalagem digipak de luxo, coisa para colecionador mesmo. O filme aparece restaurado, com excelente qualidade de imagem (wide 16×9) e som OK (Dolby Digital 2.0). Entre os extras, uma faixa de áudio reunindo os dois diretores e o crítico Carlos Alberto de Mattos, mais um pequeno e interessante documentário (em preto-e-branco!) que joga luz sobre muitas histórias de bastidores (15 minutos) e um curta-metragem de Daniela Thomas (9 minutos), feito para apresentar o ator Fernando Alves Pinto a Walter Salles.

– Terra Estrangeira (Brasil, 1995)
Direção: Walter Salles e Daniela Thomas
Elenco: Fernando Alves Pinto, Fernanda Torres, Luis Melo, Alexandre Torres, Laura Cardoso
Duração: 100 minutos

| Mais


Deixar comentário